Sobre as calçadas... Ou, por amor às causas perdidas

Calçadas são um lar, tem alma, coração. O homem é que as corrompe. Neste artigo crítico e irônico, o leitor é chamado a refletir sobre o espaço por onde todos passamos

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: José Osvaldo Martins*  |  Postado em: 30 de setembro de 2026

Calçada, sonho que esquecemos quando aprendemos a

Calçada, sonho que esquecemos quando aprendemos a dirigir

créditos: @Érica V. Souza. 2022. Autor da frase desconhecido

Sobre as calçadas do Brasil... O que falar sobre elas? As calçadas do Brasil são um exemplo. Sobretudo um exemplo do que não ser.

 

Se elas deveriam ser um caminho para ir a algum lugar, seu objetivo se perdeu. São um descaminho. Um lugar pra não passar. Pra não andar. Pra não estar seguro. Prefira seu carro, prefira este abrigo-jaula móvel, onde você desliza numa segurança ilusória, alheio ao mundo, apartado dele. Faça como o "Passageiro" do punk Iggy Pop, conheça o mundo pelo vidro do carro. Prefira sua moto, potente e barulhenta, que o leva rápido aos lugares e, afinal, deixa o barulho pra trás... onde os miseráveis "caminhantes" o ouvem.


As calçadas são tema tão vasto. Se fossemos colocar imagens delas aqui, das que são horríveis, não caberia. Se um fotógrafo destemido e inusitado fosse fazer um livro sobre elas não faltaria material, seriam vários livros. Se um arquiteto doido fosse escrever um doutorado sobre elas, seria reprovado na banca, por assunto tão banal.


Calçada é um paradoxo. É espaço público. Mas também privado. É do morador mas também é da cidade. Uma faixa sem dono mas com dono; ninguém quer cuidar dela, mas se for pra cuidar que seja para torná-la útil ao dono da casa. Por isso tantas rampas, tantas muretas, tantos degraus, tantos canos a jogar água na cabeça, tantos vasos plantas e espinhos... Afinal, quem precisa passar aqui, não é?


Calçadas são um limbo: é extensão da casa ou da rua? Ou nenhum dos dois? Todos a querem, todos gostam, todos a usam. Mas ninguém quer uma para cuidar. É um cachorro velho feio e sarnento que ninguém vai adotar.


Calçadas são assunto morto. Um defunto a céu aberto que pisamos e torcemos o pé. Calçadas são uma questão cultural, semente boa não cultivada na mente estéril dos homens.


Patrimônio esquecido

Engraçado é, ou seria, que este local de passar também é patrimônio: arquitetônico, visual, afetivo. Quantas conversas sentados nelas crianças, ou adolescentes, ou as comadres tiveram; quantas histórias, quantos casais a namorar encostados ao muro, quanta beleza essa faixa entre o asfalto e as casas já deu a cada um... No entanto não lembramos dela, só do buraco na rua. Calçada é um sonho... que esquecemos assim que aprendemos a dirigir.


Calçadas podem ser estradas, lindas, planas, lisas, adornadas, pintadas. Um oásis em meio o caos da cidade. Podem ser obstáculos, feias, esburacadas, banguelas, tortas, ásperas, sujas. Um calvário dos tempos modernos.


Não sei bem como são as calçadas em outras nações. Sei que aqui são tudo; canteiro de obras (chegou a areia, pode por aí mesmo), lixeira onde se deposita o sofá, espaço para a barraquinha, outdoor para a placa de propaganda, oficina, canto para instalar a guarita do guarda, jardim exterior, estacionamento pros espertos... É tudo, menos um espaço pra andar... Aqui, aqui mesmo! Neste país, onde rico faz caminhada e pobre anda.


Aqui o caminhante é Davi e o carro Golias. Mas diferente da bela história, aqui o pequeno nunca vencerá. Enquanto estamos vendo qual a última tendência na Europa, para sabermos com o que nos importar, lembro que gringo quando gosta de andar a pé é flâneur, brasileiro quando gosta de andar é andarilho, pobre, desajustado.


Acho que calçadas não são mesmo pra andar, deve ter sido impressão minha. Às vezes eu viajo mesmo. Talvez ninguém queira poder andar por aí. Talvez eu esteja olhando pro lado errado como disse o poeta. Mas a dúvida é o preço da pureza.


Fato é. Problema sem solução. Utopia. Caso perdido. Elas continuarão aí. Você ainda vai andar numa delas. Vai precisar delas. Tropeçar numa delas... Só então vai lembrar delas. Vai perceber como nelas não se anda, se vence. Mas assim que chegar ao seu destino, entrar em sua casa, sentar no sofá novo, ligar o televisor e ver noticias do homem chegando a Marte... logo terá se esquecido.


Haverão lindas, planas e belas estradas em Marte... 
Não haverá calçadas decentes em Marte... Assim como não existem aqui.


*José Osvaldo Martins é jornalista, escritor, pesquisador e andoativista. 

 

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