Brasilia Para Pessoas

19
novembro
Publicado por Brasília no dia 19 de novembro de 2018

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Bicicleta adaptada para o transporte de material reciclável em Brasília.

 

Em todo o país dois temas se destacam na administração das cidades: a gestão dos resíduos sólidos e a mobilidade. O estado de imobilidade causado pela crescente frota de automóveis é tão desafiador quanto a existência de lixões.

 

Ao andar pelas ruas percebe-se um personagem urbano que sintetiza a inter-relação entre mobilidade e resíduos. Costumo chamar de ciclocatadores os agentes ambientais que garimpam diariamente as lixeiras em busca de material reciclável. Graças a eles, uma quantidade significativa de resíduos deixa de ir para os rios e lixões e alimenta a cadeia produtiva da reciclagem.

 

Os ciclocatadores – homens e mulheres – estão presentes em cidades de todo o país em cargueiras ou bicicletas comuns, com muitos sacos equilibrados. Em Brasília, um deles adaptou uma cargueira com reboque e consegue transportar 80 kg de recicláveis.  Vale destacar que muitos outros agentes ambientais percorrem as cidades a pé ou empurrando carrinhos de compra ou outros acessórios para carregar os recicláveis coletados.

 

Mercado da reciclagem é impulsionado pela atuação diária de homens e mulheres com bicicletas.

 

A conexão entre os temas também se nota na legislação. Temos política nacional de resíduos sólidos (Lei Federal n° 12.305/2010) e de mobilidade urbana (Lei Federal n° 12.587/2012). Ambas são consideradas avançadas e garantem a inclusão social do catador e a priorização do transporte ativo. Mas são grandes os desafios para pôr as leis em prática.

 

Vale registrar o bom exemplo de São Paulo. Existem triciclos da prefeitura utilizados na coleta de resíduos. E se observa a pintura de reciclovias em ruas e ciclovias de São Paulo: sinalização para destacar a presença de catadores. Neste caso, o ativismo cumpre seu papel, com destaque para o Pimp my Carroça, que busca dar maior visibilidade aos catadores. Em Maceió (Alagoas), no início de 2017, catadores de recicláveis receberam triciclos para auxiliar o trabalho (confira a notícia).

 

Em São Paulo, triciclo da prefeitura e pintura da reciclovia.

 

Atitudes simples podem contribuir bastante com a qualidade de vida: separar os resíduos de forma adequada e, quando estiver ao volante, manter distância segura e reduzir a velocidade ao passar por um ciclocatador (ou por qualquer pedestre e ciclista). Mesmo sem coleta seletiva formal prestada pelo governo local (estima-se que mais de 80% da população não tenha acesso à coleta seletiva), pode-se fazer a separação dos recicláveis em casa e entregar a um dos muitos ciclocatadores. E a tecnologia favorece boas atitudes: o aplicativo Cataki conecta catadores a pessoas e empresas que desejam destinar corretamente os recicláveis.

 

SAIBA MAIS:

 

– Documentário Ciclocidades

No documentário sobre o uso da bicicleta nas cidades pode-se conhecer a rotina de alguns ciclocatadores de Brasília.

 

– Álbum – Agentes Ambientais

Seleção de fotos de ciclocatadores nas cidades de norte a sul do Brasil.

 

– Pimp my carroça – http://pimpmycarroca.com/

A iniciativa tem por objetivo dar visibilidade aos catadores de recicláveis.

 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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