Brasilia Para Pessoas

23
fevereiro
Publicado por Brasília no dia 23 de fevereiro de 2017

Texto e fotos: Uirá Lourenço

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No dia 24/1, quando o GDF garantiu no Judiciário o aumento da tarifa de ônibus e metrô, fiz um trajeto mais longo de bicicleta. Observei e registrei o cenário de imobilidade que se agrava de forma acelerada.

 

O resumo do que vi: pontos de ônibus lotados, muitos sem abrigo. Mesmo na área central, no entorno dos órgãos da cúpula dos Poderes locais (Palácio do Buriti, CLDF e TJDF), situação vexatória aos que dependem do transporte coletivo. Todos os pontos sem qualquer informação sobre linhas de ônibus e sobre horários.

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Pontos de ônibus sem abrigo e sem qualquer informação sobre linhas e horários a menos de 1 km da cúpula dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do DF.

 

As pessoas se espremiam para se proteger da chuva. No caminho até o ponto, calçadas destruídas ou inexistentes. Seguindo o trajeto pela EPIG (Estrada Parque Indústrias Gráficas), mais calçadas deterioradas e ciclovia vazia. A interrogação pintada no caminho há alguns anos questiona o óbvio: cadê o resto da ciclovia?

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Pedestres e ciclistas sem caminho seguro e acessível.

 

Na EPTG (Estrada Parque Taguatinga), cenário de caos total. Um mar de carros, inclusive no espaço que deveria ser dos ônibus: até hoje (oito anos após o início das obras na “Linha Verde”) nunca circularam pelo corredor exclusivo os ônibus com porta do lado esquerdo. O resultado: usuários de ônibus presos no congestionamento, corredor exclusivo e pontos de embarque no canteiro central abandonados.

 

Seria injusto dizer que nada mudou desde o tempo em que saía de Águas Claras e pedalava pela EPTG até o trabalho (2010 e 2011). Mudou para pior: há muito mais carros e a disputa dos pedestres e ciclistas por espaço ficou ainda pior. Mesmo assim eles estão lá, tratados como cidadãos de quinta categoria, obrigados a andar na lama e no meio do fluxo intenso de carros e ônibus.

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Na EPTG (“Linha Verde”), no dia do aumento garantido no Judiciário, o cenário de caos e de total desconsideração de pedestres e ciclistas.

 

- Interesse$ na cidade

O GDF insiste na tarifa de R$ 5 e na política atrasada de incentivo aos carros, como fica evidente no final da Asa Norte. O projeto TTN (Terrível Trevo Norte) devasta grandes áreas para incentivar ainda mais o transporte automotivo.

 

No período de aumento da tarifa de ônibus e metrô, aumentou também a agressividade publicitária do setor automotivo. Por toda a cidade e coincidentemente nos pontos de ônibus se espalham os anúncios para compra de carro. E vem o pacote completo aos medrosos: anúncio de carro e curso para superar o medo de dirigir.

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Se o usuário de ônibus e metrô ainda estiver em dúvida na troca do transporte coletivo pelo carro ou moto, vem o afago adicional: promoção nos postos de combustível. Afinal, o setor petrolífero não perderia a oportunidade surgida com o aumento das passagens.

 

O esforço conjunto entre governo e setor automotivo se revela ainda na oferta do curso “Superação do medo de dirigir” gratuitamente pelo Detran-DF. Não bastassem os cursos pagos oferecidos por empresas especializadas, o departamento de trânsito gasta recursos públicos para encorajar o uso do carro, sem qualquer custo aos motoristas medrosos.

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No sítio eletrônico do Detran, a oferta do curso para encorajar motoristas.

 

Neste cenário em que o aumento da tarifa sacrifica os que usam o transporte coletivo (dados da Secretaria de Mobilidade indicam que a participação dos modos coletivos no DF é de apenas 32%), com aumento na publicidade do setor automotivo e com manutenção das obras de túneis e viadutos, espera-se que mais pessoas fujam do transporte coletivo e passem a usar carro e moto nos deslocamentos diários.

Fecha-se assim o ciclo de efeitos negativos decorrentes dos incentivos ao uso do transporte individual motorizado. Mais carros nas ruas, mais congestionamentos, mais estresse e níveis elevados de poluição e sedentarismo. Graças aos projetos e às ações centradas no carro, o colapso total das vias, previsto para 2020 por estudo encomendado pelo governo, deve ser antecipado.

Circulo Vicioso_Transporte Individual Motorizado

 

Além de cara e poluente, a política rodoviarista voltada à fluidez motorizada resulta em muitas mortes e ferimentos no trânsito. E os dados de 2016 confirmam o alto nível de violência no trânsito: 394 pessoas foram mortas nas vias do DF, com destaque para os 133 pedestres mortos. No total, houve 40 mortes a mais em 2016, em relação a 2015.

 

- Promessas e propaganda governamental

Ao longo dos anos vários programas e projetos do GDF prometem o melhor dos mundos em termos de mobilidade: Brasília Integrada, Pedala-DF, Ciclo Vida e Linha Verde. A bola da vez é o Circula Brasília, que prefiro denominar Estaciona Brasília. A lógica automotiva, com mais túneis e viadutos, continua presente, mas disfarçada em traje de gala. O Circula Brasília apresenta um mapa de integração multimodal, com linhas de metrô, VLT e BRT espalhados por todo o DF. Para completar a ilustração, muitas bicicletas e pedestres associados aos terminais de transporte coletivo.

 

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Diferentes nomes e logomarcas ao longo dos anos: Brasília Integrada (2008), Pedala-DF (2008) e Linha Verde (2010).

 

Programas GDF_Nomes_Logomarcas_2_Slide Governo atual

O governo atual adota novo nome e novas ilustrações no programa de mobilidade urbana.

 

Segundo o ditado popular, propaganda é a alma do negócio. E em termos de propaganda o governo está bem, com Brasília supostamente no rumo certo (lema adotado no atual governo). Mas o grande equívoco é tratar a mobilidade urbana como um negócio, onde prevalecem os interesses minoritários e lucrativos de setores ligados ao transporte automotivo (ex.: concessionárias de carros e postos de combustível), em detrimento dos interesses da massa trabalhadora que se sujeita todo dia a condições humilhantes para usar ônibus e metrô. Da mesma forma são humilhados pedestres e ciclistas: calçadas e ciclovias destruídas e descontínuas; pontos de travessia inexistentes ou inseguros; alto limite de velocidade nas vias e imprudência motorizada.

 

Ao contrário das cidades modernas que investem no transporte coletivo e em alternativas saudáveis ao automóvel, a capital federal insiste no modelo voltado ao automóvel, com vias rápidas e ampliadas para acomodar a frota crescente de carros.  Graças ao esforço conjunto entre governo e setor automotivo, Brasília continuará habitada por seres com uma anatomia ímpar: cabeça, tronco e 4 rodas.



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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