Brasilia Para Pessoas

26
junho
Publicado por Brasília no dia 26 de junho de 2018

Texto e fotos: Uirá Lourenço

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No dia 18 de junho, um grupo de amigos que usam a bicicleta como meio de transporte e se preocupam com a mobilidade realizaram protesto com faixas no final da Asa Norte, onde avançam rapidamente as obras do TTN, conhecido como Terrível Trevo Norte.

 

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Desde a concepção original o projeto é totalmente rodoviarista e prevê a construção de diversos túneis, viadutos e vias expressas. A despeito das graves deficiências no transporte coletivo e das dificuldades caminhar e pedalar no final da Asa Norte, o objetivo é aumentar a fluidez motorizada. Os recentes anúncios do governo sobre as obras reforçam a proposta de incentivar o transporte individual motorizado.

 

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Na imagem do projeto TTN (fonte: DER-DF), nada além de carros. Anúncio do GDF destaca a felicidade da motorista com os inúmeros túneis e viadutos.

 

Com o avanço das obras, a tendência é colapsar de vez a área central de Brasília. A frota automotiva no DF se aproxima de 2 milhões e se nota facilmente que não cabem mais tantos carros nas ruas e nos estacionamentos. Cada vez mais, canteiros e calçadas se transformam irregularmente em estacionamentos.

 

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Espaços invadidos por carros em Brasília. Setor de Rádio e TV Sul e arredores do Ministério Público do DF.

 

Ao contrário de Brasília, cidades modernas investem pesado no transporte coletivo e restringem o uso do carro na área central, tanto com a cobrança para estacionar e circular, quanto com banimento dos carros em determinados locais. Além dos casos clássicos de Londres e Cingapura, que cobram pedágio urbano (valor cobrado do motorista para acessar a área central), Nova York, Estocolmo e Buenos Aires e muitas outras cidades têm anunciado medidas para desestimular o uso do carro.

 

 

O motivo do protesto contra as obras do TTN não foi apenas a ausência de ciclovia, mas também a falta de prioridade ao transporte coletivo e a grande insegurança causada pelo alto limite de velocidade e pela falta de locais de travessia para pedestres e ciclistas. Não precisa ser especialista em mobilidade para constatar os equívocos, basta parar por alguns minutos na ponte do Bragueto e observar a desproporção no espaço ocupado pelos carros (muitos apenas com o motorista) e pelos ônibus (a maioria com superlotação).

 

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Imobilidade na ponte do Bragueto: amplo espaço aos carros e ônibus superlotados e sem prioridade na via.

 

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No projeto TTN pessoas sem carro não têm vez!

 

Já se passaram cinco anos desde os intensos protestos pelo país (mobilização iniciada em junho de 2013) e, apesar de a mobilidade urbana ter sido um dos temas centrais, pouquíssimo se avançou na capital federal. É incrível como ainda muitos governantes se orgulham dos túneis e viadutos construídos e gastam preciosos recursos para incentivar o transporte automotivo, sem priorizar o transporte coletivo e a acessibilidade.

 

Na época da retomada das obras em 2016 (as obras do TTN foram iniciadas no governo Agnelo, em 2014, e depois retomadas no atual governo), o Brasília para Pessoas divulgou Nota de Repúdio contra a política rodoviarista de incentivo ao carro.  Em abril deste ano foi protocolada representação no Ministério Público (promotorias de urbanismo e de meio ambiente) contra as irregularidades observadas nas obras. Em razão dos grandes impactos negativos (devastação e imobilidade) e da falta de transparência do governo, o blog Brasília para Pessoas mantém seção específica com informações sobre o Terrível Trevo Norte.

 

É lamentável que – a despeito da Política Nacional de Mobilidade Urbana, de várias leis distritais e do programa de governo favoráveis ao transporte coletivo e aos modos ativos de transporte – os projetos caros e atrasados voltados ao transporte automotivo continuem a pleno vapor. Além do TTN, outras propostas equivocadas foram anunciadas pelo atual governo, tais como: um viaduto na EPIG (Estrada Parque Indústrias Gráficas) para escoar o fluxo de carros entre o Sudoeste e o Parque da Cidade, ampliação da EPAR (Estrada Parque Aeroporto) e construção da Transbrasília (retomada do projeto Interbairros, construção de nova via de 26 km).

 

A recente crise dos combustíveis (desabastecimento nos postos de combustível causada pela greve dos caminhoneiros) demonstrou que o modelo de transporte baseado no automóvel é insustentável e só traz benefícios aos setores petrolífero e automotivo. Para a sociedade fica o ônus: congestionamentos, poluição e estresse nos trajetos diários, além de endividamento (muitas famílias passam sufoco para adquirir e manter o carro próprio) e desperdício de recursos públicos (os muitos milhões gastos em túneis e viadutos poderiam ser investidos em saúde e educação). Infelizmente não se aprende com os equívocos e o TTN segue o mesmo modelo rodoviarista da EPTG, que passou por grande ampliação do espaço aos carros e ficou novamente saturada alguns meses após a conclusão das obras. O corredor de ônibus nunca funcionou de forma plena e a ciclovia (com traçado ruim para os ciclistas) da EPTG continua só no barro.

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EPTG (“Linha Verde”): caos reinstalado, mesmo após a megaampliação e a invasão do acostamento e do espaço para os ônibus.

 

Na Holanda, a crise do petróleo nos anos 70 serviu para o país voltar a investir em transporte coletivo, segurança no trânsito e transporte por bicicleta (vídeo mostra a história da retomada dos rumos da mobilidade na Holanda). Hoje o país é referência em mobilidade urbana e qualidade de vida.

 

Quem sabe um dia teremos mais pessoas indignadas e maior pressão contra esses projetos caros e retrógrados que só resultam em mais caos e poluição. Em vez de cobrar do governo a construção de mais túneis, a população passaria a cobrar linhas de VLT e ciclovias seguras e conectadas. Como diria Peñalosa, que foi prefeito de Bogotá e investiu em mobilidade, “a cidade avançada não é aquela em que os pobres andam de carro, mas aquela em que os ricos usam transporte coletivo”.  

 

Vídeos sobre o TTN: 

 

- TTN (Terrível Trevo Norte): devastação em obra rodoviarista

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- Imobilidade e rodoviarismo no norte do DF

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- Cenas do final da Asa Norte – Ponte do Bragueto

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Álbum com imagens do protesto e da imobilidade no final da Asa Norte:

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Clique na imagem para acessar o álbum.

 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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