Brasilia Para Pessoas

10
setembro
Publicado por Brasília no dia 10 de setembro de 2018

Texto e fotos: Uirá Lourenço

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W3 moderna: VLT e espaço para pedestres e ciclistas. Imagem: Mobilize.

 

Sim, outra W3 é possível, com base na tendência atual de priorizar o transporte coletivo e os modos ativos (não motorizados) de transporte. No texto anterior sobre a W3 fiz um diagnóstico ilustrado da realidade ao longo da avenida. Em síntese: muitas crateras e carros no caminho, travessias arriscadas e usuários de ônibus em condições humilhantes (superlotação, escuridão nos pontos e ausência de informações sobre as linhas). Aos motoristas: mais pistas, túneis e viadutos, graças às obras do TTN (Trevo de Triagem Norte, também conhecido como Terrível Trevo Norte).

 

Por que não investir numa W3 acessível e que sirva de exemplo de mobilidade sustentável, em vez de desperdiçar recursos em mais obras de incentivo ao transporte automotivo (construção de túneis e viadutos)?

 

A tendência moderna na mobilidade é investir no transporte coletivo, restringir o uso do carro e incentivar os deslocamentos a pé e por bicicleta. A Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei Federal n° 12.587/2012) reflete essa tendência e estabelece como diretriz a prioridade dos modos coletivos e ativos de transporte. Mas na prática o Distrito Federal ainda precisa avançar muito para pôr em prática a política nacional e várias leis distritais que tratam da mobilidade sustentável (clique para ver as leis sobre mobilidade).

 

As cidades modernas, especialmente algumas capitais europeias, reverteram o modelo voltado ao automóvel há algumas décadas e hoje colhem os frutos do planejamento com foco na mobilidade e na segurança do trânsito. Amsterdã (Holanda), Copenhague (Dinamarca) e Paris (França) são exemplos em mobilidade e qualidade de vida. O que se destaca na paisagem urbana são VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), ônibus silenciosos e muitas pessoas caminhando e pedalando para ir ao trabalho ou à escola.

 

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Muitas bicicletas e transporte coletivo de boa qualidade: cenas de Amsterdã (esquerda) e Paris (direita).

 

Observam-se outras medidas importantes nas capitais europeias: baixo limite de velocidade (zonas 30), que permite o bom compartilhamento entre pedestres, ciclistas e motoristas; restrição aos carros na área central (em vez de pistas e estacionamentos, praças, bibliotecas e comércio); cobrança pelo estacionamento nas vagas públicas (zona azul), que desestimula o uso do carro e ainda garante recursos financeiros para a mobilidade.

 

A W3 Norte tem plenas condições de se tornar uma avenida exemplar em mobilidade: possui fluxo significativo de pessoas que caminham e usam o transporte coletivo, e tem um canteiro arborizado propício para caminhadas e uso de bicicleta como transporte e lazer. Jan Gehl, arquiteto dinamarquês e autor do livro Cidades para Pessoas, comenta os benefícios da cidade humanizada: “um maior número de vias convida ao tráfego de automóveis. Melhores condições para os ciclistas convidam mais pessoas a pedalar, mas ao melhorar as condições para os pedestres, não só reforçamos a circulação a pé, mas também – e mais importante – reforçamos a vida na cidade”.

 

Um passo importante na W3 humanizada é a redistribuição justa do espaço viário: transferir espaço dos carros para o transporte coletivo e para pedestres e ciclistas. A grande dependência do transporte automotivo (no DF, a participação do transporte individual motorizado chega a 45% dos deslocamentos) traz muitos impactos negativos: grande área ocupada por pistas e estacionamentos, alta emissão de poluentes, ineficiência no transporte e congestionamentos. Em todo o Distrito Federal é fácil perceber a péssima distribuição do espaço viário: existem poucos corredores e faixas exclusivas de ônibus e a maior parte da área é ocupada pelos carros. Eixo Monumental e Eixão ilustram bem a péssima distribuição do espaço.

 

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Eixo Monumental e Eixão: excesso de carros e falta de prioridade ao transporte coletivo.

 

Ao observar uma avenida em Amsterdã, percebe-se a distribuição equitativa do espaço.

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Avenida em Amsterdã: VLT e espaço seguro para pedestres e ciclistas.

 

Na W3 moderna e acessível – representada nas duas simulações feitas pelo portal Mobilize (no início e o final do texto) – uma das pistas é destinada ao VLT e há espaço seguro e confortável para pedestres e ciclistas. Os canteiros ao longo da avenida abrigariam espaços de convivência, convidativos às pessoas: com praças, equipamentos de ginástica e espaços de leitura. O limite de velocidade seria reduzido para 50 km/h e, próximo de escolas e pontos de ônibus, o limite seria de 40 km/h, com placas aos motoristas sobre a preferência do pedestre.

 

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W3 acessível: espaço sombreado para pedestres e ciclistas. Imagem: Mobilize.

 

VÍDEOS:

 

– Conversa sobre mobilidade: a troca do carro pelo transporte coletivo

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– Bicicletas em Copenhague, Dinamarca

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– Imobilidade e rodoviarismo no norte do DF

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ÁLBUM – W3 NORTE:

Fotos da avenida revelam a situação atual.

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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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