Brasilia Para Pessoas

22
fevereiro
Publicado por Brasília no dia 22 de fevereiro de 2026

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Após percorrer o país de norte a sul, posso dizer que sou fã de carteirinha. Antes a paixão era só por Amsterdã, pois pouco conhecia das outras cidades. Com 650 km rodados em trajetos de longas distâncias, a paixão pela Holanda (ou melhor, pelos Países Baixos) cresceu de forma expressiva.

Comprei uma autêntica bike holandesa, de segunda mão (da marca Gazelle), para seguir jornada. Com alforge, cestinha e mochila, consegui acomodar todas as tralhas. Parti de Amsterdã rumo ao norte. A primeira coisa que chama atenção são os caminhos incrivelmente seguros. Na maioria das vezes se percorrem ciclovias totalmente separadas do fluxo motorizado, um tapete vermelho se abre (muitas ciclovias, ciclofaixas e ruas compartilhadas têm essa cor).

Ciclovia em Amsterdã.

Para nós, brazucas, acostumados a passar perrengue mesmo em trajetos curtos, é incrível (utópico) pedalar mais de 100 km na maciota. Detalhe: mesmo nas cidades maiores é tranquilo sair do trecho urbano e acessar as rotas de longa distância. Passei pelas principais cidades (Amsterdã, Roterdã e Haia) e zero estresse! É tudo tão conectado e sinalizado que você só precisa seguir adiante (o aplicativo ajuda muito, falarei dele adiante).

Com caminhos tão seguros se veem ciclistas de todas as idades. Mesmo nas rotas entre cidades as cabeças brancas eram muito comuns e confesso que fui ultrapassado algumas vezes por senhores e senhoras. Em minha defesa, vale lembrar que eu estava de bike convencional (sem bateria) e com bagagem.

Dá para notar como as belas rotas de bicicleta atraem viajantes de outros países, incluindo alemães e franceses. Vi muitas famílias, muitos grupos e ciclistas solitários como eu. Imagino que o turismo de bicicleta tenha um papel relevante na economia holandesa. Aliás, muitos hotéis e hostels possuem frota de bicicletas para aluguel. E as lojas de bicicleta alugam diferentes modelos, como tandem e bakfiets (com compartimento na parte frontal).

A Jornada

Estava decidido a comprar uma bicicleta holandesa para desbravar as rotas no país. Após percorrer algumas lojas para ver bikes usadas, optei por uma Gazelle de modelo bem urbano, com garupa, para-lama e faróis (dínamo na frente), câmbio nexus de 7 velocidades. Coloquei cestinha, alforge e suporte de celular. Minha Fietsi1 estava pronta!         

Agora faltava planejar melhor a rota. Decidi ir para o norte, rumo a Groningen, cidade conhecida por ter o maior índice no uso de bicicleta na Holanda. Saí de Amsterdã no dia 31 de julho e, após 7 etapas de pedal, voltei à capital no dia 16 de agosto. Passei em Zwolle, Groningen, Giethoorn, Utrecht, Roterdã e Haia. O percurso total entre cidades foi de 650 km, trecho mais curto de 25 km (entre Roterdã e Haia) e o mais longo de 137 km (entre Giethoorn e Utrecht).

Após pesquisar sobre as rotas e dicas para cicloviajantes, descobri o app Fietsknoop, que foi essencial na jornada. Ele é gratuito e funciona muito bem. Pode-se traçar a rota com base na origem e no destino. Quando se grava a rota no aplicativo, basta seguir sem necessidade de internet. As rotas costumam ter placas, mas o app deixa mais cômodo e seguro. Nota 10 aos desenvolvedores.

Percurso com rotas sinalizadas.

Na longa jornada entre cidades passei por ciclovias, ciclofaixas e vias compartilhadas, sempre seguras e sinalizadas. Nenhum perrengue! A bandeira do Brasil ao vento, afixada na cestinha, chamava atenção e suscitava comentários simpáticos. Aliás, a simpatia esteve presente no caminho. Recebi sorrisos e tive auxílio quando precisei: uma carga no celular, água, maçã e uso do banheiro sem custo. A paixão pelo futebol é compartilhada e foi tema de algumas conversas com holandeses. 

Adorei passar por bosques, áreas com grandes árvores. Em todos os sete trechos da jornada passei por jardins e bosques. As árvores (sombra) costumavam estar presentes nos caminhos ao longo das rodovias (com ciclovia nas laterais). Uma cena singela: num jardim de uma pequena cidade que abriga grupo de veados, a senhora num triciclo passeia e alimenta os animais. A mãe e os filhos também passeiam calmamente, admiram a família de cervídeos.

Bosque e jardim no caminho.

Pude constatar como os holandeses gostam de água e tratam tão bem canais, rios e lagos. Junto com áreas de bosque, os caminhos ao longo de rios, lagos e mar foram os que mais apreciei. Algumas das paradas de descanso foram na beira de rio e lago. Cheguei a cochilar na canga em alguns desses recantos tranquilos.

As cidades estão altamente adaptadas às bikes e são incrivelmente acessíveis. Triciclos, quadriciclos e bicicletas adaptadas (que se guiam com as mãos) são frequentes nas ciclovias, as calçadas são impecáveis e, em geral, largas.

O fluxo de carros costuma ser baixo, até porque não há muito espaço para eles. Muitos locais e ruas são exclusivos para pedestres e ciclistas. Pontes exclusivas para quem caminha e pedala também são comuns.

Cidade acessível e com pontes exclusivas para pedestres e ciclistas.

Para exemplificar a boa e justa distribuição do espaço viário, a avenida que leva à estação central de trem de Amsterdã tem calçadas largas e ciclovias em ambos os sentidos, o tram (bonde elétrico) passa na parte central. A circulação de carros se restringe a uma faixa em apenas um sentido.

Aspectos negativos

Pra não dizer que só falei das flores, alguns pontos negativos. O custo é elevado: hospedagem, alimentação e passeios. E o câmbio não favorece. Fiquei em hostels nas cidades onde parei e imaginei que encontraria hospedagem por volta de 25 euros. Mas os preços giravam em torno de 35 euros a noite em quarto compartilhado (3 a 4 beliches), sem café da manhã.

Os hostels costumam ser limpos, alguns ofereciam geladeira e cozinha, que ajudam a baratear a alimentação. Muitos tinham um jardim externo, área propícia para tomar café, mas acabam servindo aos fumantes. Fuma-se muito na Holanda, a chance de dar uns tragos indiretamente é alta.

Para completar a lista de queixas, as motocas que rodam nas ciclovias incomodam e não são poucas. São aquelas scooters (elétricas ou a combustão) que passam em velocidade superior às bikes e chegam a assustar. Num país tão bom de pedalar e referência em mobilidade, não entendo como se permite que esses veículos velozes e barulhentos (modelos a combustão) circulem livremente nas ciclovias e ciclofaixas.

Belas paisagens, espaços públicos

Os caminhos sempre reservam belos cenários, é incrível o nível de organização. Casas bem conservadas e floridas, espaços públicos muito bem conservados: praças, jardins, equipamentos de ginástica, quadras de esporte e parquinhos infantis.

Dá pra notar que os holandeses adoram as áreas verdes e aproveitam para sentar na grama e almoçar ou fazer piquenique. Em todas as cidades encontrei parques e praças, locais de caminhada arborizados ao longo de rios. Visitei bibliotecas públicas de Amsterdã, Haia e Roterdã, com vários andares, modernas, e com grande acervo de livros e espaço de exposição.

Além das belas paisagens, da profusão de bikes e da boa manutenção dos espaços, o que fica de marcante e de inspiração é o ambiente urbano tranquilo e seguro. As cidades holandesas são desenhadas para as pessoas.

Nas ruas o som que se destaca não é o do motor ou da buzina dos carros. As correntes das bicicletas em movimento são o som de fundo. Ouve-se o choro de uma criança, o som das bengalas e dos andadores de idosos e idosas que caminham livremente, sem barreiras. Para completar, o som de artistas de rua, favorecidos pela ausência do ronco dos motores.

Música em locais tranquilos de Amsterdã.

Os músicos estão presentes em muitas cidades. Em Amsterdã, parava para apreciar o som em dois lugares próximos: na frente do Rijksmuseum, onde tem via exclusiva para pedestres e ciclistas; na frente do museu de arte moderna Moco (perto do Museu Van Gogh), espação gramado sem carros. Havia ainda uma exposição interessante (Zero Flags Project) com bandeiras de 63 países que criminalizam relação homossexuais, 11 dos quais com pena de morte.     

Atrativos e curiosidades

Vou mencionar coisas bacanas e curiosidades no caminho. Começo pela bela surpresa de Giethoorn, cidade pequena que serviria apenas como ponto de descanso entre Groningen e Utrecht. Além do charme dos canais e das muitas flores (nas ruas e nas casas), o fato de não passar carro nem moto torna um lugar super acolhedor e silencioso. Felizmente deu tempo de caminhar pelas ruas e pontes de Giethoorn, sentir o aroma delicioso das flores, sem vestígio de fumaça dos motores.

Cenas da pacata Giethoorn, cidade livre de carros.

Em Utrecht, a alegria de estar numa cidade em que transbordam bikes. É impressionante a quantidade e a variedade de bicicletas circulando e estacionadas. Fiquei quatro dias e algumas vezes ficava parado apenas admirando o vai-e-vem das pessoas. Abaixo da bela estação central fica o bicicletário gigantesco, com capacidade para 12.500 bicicletas (considerado o maior do mundo)!

E ainda tem os canais, jardins e a bela arquitetura para apreciar. Utrecht se gaba de ter a torre de igreja mais alta do país.

Utrecht: canais, muitas bicicletas e a entrada do bicicletário gigantesco.

Em Groningen destaco a praça central animada: ocorria um festival com oficina de circo, brinquedos para a criançada e uma corrida maluca de triciclos em que os pequenos tinham que pedalar e berrar para subir ao pódio. Os universitários estavam de férias e, por isso, não vi tantas bikes pela cidade (não acima da média holandesa..rs). Pra compensar, conheci uma loja gigante de bicicletas com uma infinidade de modelos: convencionais, elétricas, urbanas, esportivas, cargueiras etc. Aproveitei a grande diversidade de acessórios e comprei um selim bem confortável (alemão). Um investimento e tanto: aposentei o selim original e tive um pedal muito mais confortável, sem assaduras!

Groningen: festival na praça e megaloja de bicicletas.

Os dias em Roterdã foram muito bons. A cidade tem muitas atrações e é bem moderna: foi reconstruída após ser bombardeada pelos alemães na II Guerra Mundial. A estação central de trem é arrojada e rodeada por bicicletários (superficiais e subterrâneos), que ficam lotados.

Entre as atrações, o mercado (prédio moderno com muitas bancas de quitutes), as casas-cubo amarelas e a ponte Erasmus (estaiada, com movimento intenso de pedestres e ciclistas). Ao caminhar, notei algo bem curioso: em um dos canais se praticava surfe urbano, com aulas para iniciantes. Um mecanismo é acionado para formar as ondas (de bom tamanho).

Estação Central e Casa-Cubo, em Roterdã.

Pessoas andando de bicicleta na rua

Descrição gerada automaticamente

Mais atrativos de Roterdã: ponte Erasmus, mercado moderno e surfe urbano.

Aproveitei para visitar o zoológico, que ocupa uma grande área e tem muitos bichanos, incluindo dragão de komodo, pinguins e urso polar. Senti falta do gorila, que parece não mais viver por lá.

Haia foi a última parada antes de retornar a Amsterdã. É a capital administrativa dos Países Baixos, onde ficam as sedes dos poderes públicos e a família real (o regime de governo é a monarquia parlamentarista, com rei e 1° ministro.

Fiz um tour guiado a pé (Free Walking Tour) – um passeio que gosto muito de fazer nas cidades – e soube de muitas curiosidades. O simpático guia Ronald confirmou algo que já havia lido a respeito: as autoridades, incluindo a família real, também usam bicicleta. Ele relatou já ter visto o 1° ministro caminhar pelo bairro sem segurança, como um cidadão comum.

O Poder Legislativo e o Executivo ficam juntos, no mesmo conjunto de prédios públicos, chamado Binnenhof, que está com obras de revitalização em andamento. Haia também abriga o Palácio da Paz e o Tribunal Penal Internacional.

Palácio da Paz e passeio guiado gratuito.

Outro atrativo da cidade é o litoral. Passei um dia na praia pra matar a saudade. O dia estava ensolarado e me surpreendi com tanta gente na areia e no mar (água um tanto gelada). Uma parte da praia é de nudismo, primeiro comecei a ver os peladões e peladonas, só depois vi a placa e confirmei a suspeita.

Como era de se esperar, os holandeses também vão à praia de bicicleta. Vi bicicletas e triciclos com crianças, guarda-sóis e pranchas. Os locais de acesso à praia com muitas bicicletas estacionadas. Uma ciclovia lisinha, de grande extensão, margeia a praia: o mar de um lado, a bela vegetação do outro, com pontos de parada para apreciar a paisagem.

Praia de Haia, a maioria chega pedalando, com pranchas e crianças.

O caminho de volta para Amsterdã (ponto de início e chegada) foi delicioso, com rotas seguras e áreas verdes, incluindo um grande parque ao sul da cidade.

Amsterdã é tão incrível e agradável que merece textos próprios. Destaco a rede plenamente conectada e sinalizada de ciclovias. Fiquei hospedado em diferentes bairros e percorri longas distâncias de bicicleta. Sempre havia rotas seguras e com muitos ciclistas, de todas as idades e, na grande maioria, sem capacete.

Não é o casco na cabeça nem armadura (joelheira e cotoveleira) que fazem a cidade segura, e sim um ambiente humanizado com baixo limite de velocidade (boa parte da cidade, ou toda ela, tem limite de 30 km/h), infraestrutura de alta qualidade para pedestres e ciclistas e áreas livres de carros. Perto de escolas, o limite baixa para 15 km/h.

Bicicleta branca e passagem do amor

Na quarta etapa da jornada, entre as cidades de Giethoorn e Utrecht, me deparo com uma bicicleta branca bem grande na beira da estrada. A imagem me remeteu às ‘ghosts bikes’ comuns no Brasil, que simbolizam a morte de ciclistas atropelados por motoristas. Mas, num país tão seguro e desenvolvido, logo me dei conta que se tratava de um monumento para enaltecer a bicicleta, que está tão presente e simboliza o país. Aliás, logo ao desembarcar no aeroporto de Amsterdã, um grande anúncio ressalta a bike.

Em algumas cidades passei por ciclovias que atravessavam estradas ou ferrovias por baixo. Ao contrário das temidas passagens subterrâneas do Eixão, me senti seguro. E algumas das passagens tinham belas pinturas. Passei inclusive pelo Túnel do Amor, adornado com corações de diferentes tamanhos e cores.

Mais uma cena marcante, que simboliza a tranquilidade e o bucolismo na viagem de bicicleta: a família de cisnes que passava pela ciclovia. Parei pra ceder passagem e contemplar.

Na jornada de 17 dias pedalando por cidades holandesas constatei que é possível a um país estar conectado por ciclovias seguras. Além da opção de trem (de altíssima qualidade, que interliga as cidades do país), pode-se viajar de bicicleta. E o país atrai um contingente considerável de pessoas, cicloviajantes que desfrutam das belas paisagens e rotas.

No retorno ao Brasil, além do stroopwafel (doce típico holandês, com caramelo), trouxe minha Fietsi, companheira de jornada que aguentou bem e que ainda usei na parada em Paris. 

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1 Nome que dei em homenagem ao país. Fiets: bicicleta em holandês.

ÁLBUM

Mais algumas imagens da jornada de bike (link).

VÍDEOS



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Uirá Uirá Lourenço
Morador de Brasília, servidor público, ambientalista e admirador da natureza, Uirá é um batalhador incansável pela melhoria das condições de mobilidade na capital federal. Usa a bicicleta no dia a dia há mais de 25 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa, no Brasil e em outros países. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de um modelo mais humano e saudável de cidade. É voluntário da rede Bike Anjo, colaborador do Mobilize e membro da Rede Urbanidade.
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