Correr é preciso. Viver também é preciso...

Este artigo faz uma reflexão sobre quem é o corredor de rua, tipo de caminhante urbano, explica nosso colaborador José Osvaldo Martins, que pratica e defende a modalidade

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: José Osvaldo Martins*/ Mobilize  |  Postado em: 13 de novembro de 2020

Homem corre por via plana e arborizada, algo raro

Homem corre por via plana e arborizada, algo raro em SP

créditos: José Osvaldo Martins

Aqui estamos, contando de novo com a benção de nosso amigo e padroeiro das causas impossíveis, Expedito, para falar sobre as aventuras das pessoas que se locomovem desmotorizadas por estas terras brasilis.

 

Hoje falarei sobre os corredores de rua. Não, não me refiro aos corredores de ônibus, mas das pessoas que correm por esporte e prazer, país afora, pelas ruas das cidades. Correr é uma atitude bela, natural, simples e elegante. Quase qualquer um, com um mínimo de saúde, pode praticar, daí a sua popularidade. 

 

Agora, se você é um dos que pensam exclusivamente como motorista, deve ficar p... da vida quando descobre que alguma via está obstruída por causa de uma prova de corrida. Mas, já parou para pensar quantas pessoas correm? 

 

É, não são poucas, estima-se que em torno de 6 milhões são praticantes de corrida no Brasil, ou, cerca de 5% da população. Independente se são atletas profissionais, amadores ou que só corram por prazer e saúde, esse é um número bem significativo. Há até quem vá correndo para o trabalho(!).

 

Riscos

Não vou aqui passar dicas, nem falar sobre como melhorar sua performance, mas apenas incitar a reflexão sobre as condições encontradas nos trajetos encontrados quando buscamos seu lazer e esporte.

 

Infelizmente, é verdade (você corredor, diga se não é), são muitos os perigos para quem corre, e as condições de infraestrutura são precárias. Claro, isso não impede nossos heroicos corredores, mas com certeza dificulta e os expõem a potenciais lesões e acidentes.

 

Além do obvio, que é a poluição, quando se trata de grandes centros urbanos temos outras situações perigosas que deixam o corredor sem fôlego: tráfego implacável de motorizados, possíveis assaltos, iluminação inexistente nas vias, buracos, lixo, desníveis, e outras coisas que levam a quedas e torções ou até a incidentes mais graves.

 

Henrique Carvalho, de 38 anos, que é corredor há seis, afirma que: “A estrutura da cidade é péssima para correr, principalmente nas periferias. Vejo que a população e o governo estão muito ligados à cultura do carro. (...) Os corredores, assim como os ciclistas, costumam ser ignorados, não há uma movimentação para disponibilizar uma estrutura digna e de devido respeito aos praticantes”. Quanto às dificuldades encontradas pelo caminho, Henrique diz que são muitas: “As calçadas são feitas para os carros, com inclinação, e isso causa lesões. E há desrespeito por parte de motoristas e motociclistas.” 

 

Homem preto, ele ressalta ainda que um dos motivos que o faz optar por correr em parques e academias é algo que vai além do estrutural, veja só: “Um fator que me faz evitar correr nas ruas é o racismo”.  Vale destacar, como diz o entrevistado, que as pessoas negras quando correm costumam ser alvo de preconceito e desconfiança; é ainda hoje um pensamento retrógrado que faz com que cidadãos negros precisem se preocupar até mesmo quando estão praticando seu esporte. 

 

Há corredores por todo o mundo. Só no Brasil, são 6 milhões que praticam esta modalidade a pé, ou, cerca de 5% da população. Foto: PxHere.com 

 

Sendo assim, e por várias circunstâncias, muitos corredores optam por correr em parques ou praças. Os motivos vão desde segurança, ar limpo e estrutura, até sossego e relaxamento. E outros correm em academias, também pela segurança e a sensação de estar em um ambiente controlado.

 

Certo, mas vamos falar sobre os que correm nas ruas. O corredor é antes de tudo um caminhante, alguém que usa unicamente sua força motora para se deslocar; quer dizer, ele é uma vertente do pedestre e, se a cidade não fornece condições dignas ao pedestre, não é diferente no caso dos praticantes da corrida.

 

Correr é exercício físico e higiene mental

Então, por que algumas pessoas insistem em correr na rua? Pelo mesmo motivo que algumas pessoas gostam de caminhar nas ruas: é uma questão mental. Simples: as pessoas gostam de circular pelas cidades! Por razões como a sensação de pertencimento ao ambiente, interação com o mundo e seus locais, socialização, prazer de ver as coisas, contemplação... É o tal "poder viajar" enquanto corre. 

 

Tudo isso proporciona um relaxamento que não é encontrado plenamente num local estático como uma esteira, por exemplo. O cara que corre na rua, o faz também porque a cidade é sua enquanto corre. E não subestime o poder das sensações, pois toda ação humana é motivada em grande parte por elas. Talvez por isso, na maioria das academias a esteira de corrida esteja voltada para uma janela, pois as pessoas querem antes de tudo ver o mundo, suas formas e movimentos.

 

Pense que o próprio termo “corredor de rua” está impregnado por uma convenção do senso comum. Aprendemos desde sempre que “rua” é tudo o que não é nossa casa. Assim que você pisa para fora do seu portão tudo é rua, então todo espaço que é público é a rua. Até mesmo juridicamente a lei divide os espaços entre o particular/privado e o público, que é tudo o que está fora.

 

Mas, para além disso, você já pensou por que não chamamos essas pessoas de corredores de calçada? Hum? Por uma questão simples: se eles corressem nas calçadas não seria mais corrida, e sim outro esporte, o Parkour. A explicação é a seguinte: a imensa maioria das calçadas é intransitável ou intransponível, e a possiblidade de correr com alguma qualidade por elas é quase nula. Então, é muito mais fácil, apesar do risco, correr pelo asfalto, ali perto da sarjeta mesmo, do que seguir por calçadas que não têm o mínimo de qualidade para um trajeto linear como pede a corrida. Se o atleta se aventurasse a correr todo o seu caminho pelas calçadas, já estaria fazendo "corrida com obstáculos".

 

Le Parkour

Do termo francês “O Percurso”, este é um tipo de esporte institucionalizado na França na década de 1980, que teve base de inspiração nos movimentos naturais que o ser humano precisava fazer quando vivia ainda em ambientes naturais e cheios de barreiras. Consiste em movimentos que permitem transpor obstáculos físicos, usando de corrida, pulos e acrobacias.

 

Curiosamente, o Parkour moderno é praticado geralmente em ambientes urbanizados e vale-se das formas arquitetônicas artificiais criadas pelo homem.

 

Se correr pelas calçadas é virtualmente impossível, correr pela rua é um ato audacioso. Embora eu tenha procurado avidamente, não consegui achar dados sobre acidentes de trânsito especificamente com corredores, talvez porque sejam contabilizados todos como acidentes com pedestres. Mas alguém aí duvida que sejam muitos os casos de atropelamento com quem corre?

 

Se acha isso pouco relevante, pense que o investimento em estrutura para os carros é absurdamente grande se comparado com qualquer outro meio de locomoção. Se essa precariedade não impede ninguém de correr, também não estimula.

 

E você, caro leitor? O que acha que falta para as cidades se tornarem lugares melhores, que permitam a quem corre ir mais longe?

 

É preciso correr, mas para isso é preciso estar vivo. Exercite sua consciência. Continue correndo e continue caminhando.

 

 

*José Osvaldo Martins é jornalista de formação, com especialização em Ensino Lúdico e extensão em Geografia Urbana, entre outras. É trabalhador, pagador de impostos, cidadão, pai, escritor quando há tempo, motorista habilitado, ciclista por prazer, mas no fundo só um caminhante que vive e circula na Grande São Paulo.

 

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Comentários

[email protected] - 20 de Novembro de 2020 às 00:32 Positivo 0 Negativo 0

Parabéns irmão, muito interessante seu texto

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