Pedestre, condição natural, questão cultural

O caminhante José Osvaldo Martins discute o baixo status de quem anda a pé ante a intensa campanha de valorização do automóvel ao longo do século 20

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: José Osvaldo Martins*  |  Postado em: 16 de julho de 2020

Anúncio de petshop invade a calçada em bairro de S

Anúncio de petshop invade a calçada em bairro de São Paulo

créditos: João Osvaldo Martins

"Quando você pensa que já viu de tudo... A imagem acima ilustra bem como é encarada a situação do pedestre. A via de passagem reservada às pessoas - a calçada -, é invadida pela propaganda de um petshop. Seria até engraçado, se não fosse trágico"...


Olá, sou novo por aqui. Estou estreando como colaborador do Mobilize e me proponho a contribuir com a discussão sobre o que é ser caminhante nos dias de hoje, neste quase (espero) pós-pandemia: o que é ser pedestre neste país e nessas cidades, suas dores e alegrias. Para tanto, pretendo realizar uma abordagem simples, não de especialista, mas sim do cidadão comum, falando da perspectiva típica de quem caminha pelas ruas e calçadas aí afora.


Minha meta geral é simples à primeira vista, mas bem complexa na realidade: 
Conscientização Pedestre: formar uma consciência pedestre, uma linha de pensamento, linha esta que exige mudanças, direitos, visibilidade, mas antes de tudo que os caminhantes se vejam como sujeitos importantes; como aconteceu por exemplo com os ciclistas. Pretensiosa essa proposta não? Mas as mudanças costumam ser assim, pretensiosas, audaciosas, incômodas.


Missão bem difícil esta, uma batalha bem inglória na verdade, quase impossível...Pensando nisso, lembrei de Santo Expedito o santo das causas impossíveis, e então o elegi como padroeiro destes artigos, mesmo sabendo que este é um espaço laico :-)   Mas falando sério, como colocar nessas cabeças a importância do pedestre? Como convencer as pessoas do valor disso numa sociedade capitalista, voltada para resultados imediatos, onde mais é mais e menos é menos mesmo, como convencer que algo tão básico como caminhar é importante? É... Não será fácil, mas tentaremos mesmo assim. Lançando mão da lógica(sim!) e de nossos melhores argumentos. Se tudo der certo, vou estar por aqui uma vez por mês deixando minhas palavras a todos os leitores para contribuir com a reflexão e ação.



O tema deste primeiro artigo é: Quem é o pedestre? Qual sua identidade? O que pensa, como se enxerga? Dada a complexidade do tema, eu o dividi em duas partes. A segunda, virá logo mais. E tenho certeza, um assunto assim não se esgotará tão fácil, é pano para muita manga, é conversa para anos e anos.


Comece por pensar, imagine... Qual é um dos primeiros ritos de passagem do ser humano e que é comemorado em todas as culturas no mundo? O andar. Uma das nossas primeiras ações e que é vista como símbolo de autonomia na vida de qualquer um, é quando a criança passa a caminhar! Isso é tão óbvio que as pessoas acabam por se esquecer da sua relevância, ou seja caminhar é uma condição natural.


O deus automóvel
Mas culturalmente, isso não é levado em conta; como disse, numa sociedade do consumo, altamente mecanizada, impessoal, voltada para os resultados rápidos, caminhar já não é visto como algo essencial, pelo contrário é atraso, é andar na contramão da sociedade, é lento e  improdutivo, tomando isso, claro, em contraponto às pessoas "veiculadas", as pessoas de carro. Essas sim são vistas como bem-sucedidas, práticas, objetivas, de acordo com o seu tempo e os valores vigentes atualmente, que são tempo é dinheiro, menor esforço resultado máximo, etc... Ora, não queremos aqui demonizar o carro, que nada mais é que um instrumento tripulado e conduzido por pessoas. Sua utilidade é óbvia. O carro nada mais é que uma solução materializada das necessidades e vontades comuns a todos nós, como gastar menos energia e obter o melhor resultado.


Mas, de invenção a serviço do humano, com o tempo o automóvel foi passando de ajudante a chefe, de coadjuvante a protagonista na vida das pessoas. Assim, o carro acabou por se tornar prioridade nos deslocamentos no mundo chamado civilizado e suas cidades passaram a ser pensadas com prioridade para os veículos motorizados. E para seu movimento mais eficiente, surgiram especialistas de todos os tipos, que vivem em função das quatro rodas, pensando em como fazê-las trafegar mais rápido, funcionar melhor, serem mais seguras e belas.


Ter um carro - desculpem o clichê - foi um símbolo de status social, do sujeito de sucesso. Até duas décadas atrás, na virada do milênio, muitos diziam ser o carro uma extensão da residência do cidadão fazendo dele assim espaço inviolável como o são as casas. O carro é um símbolo do tempo, e a sociedade se amoldou ao redor dele.  Ele foi um semideus no século 20. Agora, com os riscos de contágio trazido pela pandemia do coronavírus, os marqueteiros do automóvel voltam à carga, tentando vendê-lo como a mais segura (e higiênica) solução de transporte

 



E o pedestre?
Nesse cenário, no imaginário popular, a pessoa que caminha, seja por necessidade ou mesmo prazer, é tida como alguém menor, sem ambição ou pressa, desqualificada, excluída ou até... esquisita. O imaginário coletivo está convencido por estes valores e o próprio pedestre costuma achar-se menor, um estorvo para a cidade e as suas urgências. Como exemplo, lembro aqui  uma situação bastante comum: o carro está entrando ou saindo da garagem e a pessoa a pé que está passando na calçada dá aquela “corridinha” pra sair logo do trajeto do motorista, pra não incomodar, uma ação de um pensamento tipicamente subalterno e invertido: primeiro os veículos, depois as pessoas,  claro sintoma dessa doença de inversão dos valores.


Ou ainda outra: é comum as pessoas enviarem mensagens aos jornais,às emissoras de rádio, reclamando dos buracos das ruas, mas somente os "iniciados" reclamam de uma calçada toda esburacada e sem condições de passagem. O pedestre não se sente cidadão, não sabe que tem direitos, não reivindica nada e nem mesmo consegue se enxergar em sua condição. Para ele, em geral, caminhar não é uma opção e sim uma falta de opção.  Por que a maioria das pessoas ainda pensa assim? É uma questão cultural.


Faça um teste. Converse com qualquer amigo ou parente - que não seja iniciado no tema - sobre a condição do pedestre. Pergunte se ele acha que quem anda a pé tem algum direito. Provavelmente, a resposta terá alguma coisa sobre "faixa ou semáforo de pedestres, sobre os direitos e deveres ao atravessar a rua” qualquer coisa assim, o que comprovará como a discussão anda rasa na sociedade e como a maioria nem sabe do que estamos falando. Estamos falando em valorizar as pessoas mais do que objetos, em colocá-las acima de tudo.

 

Foto: Heliana Gonçalves


Essa discussão vem crescendo, e um dia, com o apoio do nosso padroeiro Expedito, chegará na mesa de domingo, no buteco, na praça, na fila do pão e nas mentes e corações. Essa é nossa meta.

 

Continua... 

 

*José Osvaldo Martins é jornalista de formação, com especialização em Ensino Lúdico e extensão em Geografia Urbana, entre outros. É trabalhador, pagador de impostos, cidadão, pai, escritor quando há tempo, motorista habilitado, ciclista por prazer, mas no fundo só um caminhante que vive e circula na Grande São Paulo.


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Comentários

Lusilene - 17 de Julho de 2020 às 19:55 Positivo 1 Negativo 0

Texto muito interessante. Realmente, mesmo os motoristas, são pedestres, mas quando entram no carro não se enxergam como tal, nem enxergam seus próximos. Precisamos discutir mais a fundo sobre isso.

André - 16 de Julho de 2020 às 06:54 Positivo 2 Negativo 0

Excelente texto e imagem! Outro dia estava a caminhar e a pensar: Quais serão as leis que regulamentam as calçadas? A sua manutenção compete a quem, ao estado ou ao participar? O que poderia ser feito no legislativo para melhorar a condição delas?

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