Nesta terça-feira (22) é celebrado o Dia Mundial Sem Carro, mas as ruas das cidades brasileiras continuam tomadas de carros, como sempre. Evidente, não será em um dia que se resolverão os nossos problemas de mobilidade, como poluição, congestionamentos e sinistros de trânsito. Mas é sintomático que muitas prefeituras quase tenham ignorado a data, ou quando muito promovido eventos institucionais que parecem mais cumprir a lei que instituiu a Semana Nacional de Trânsito.
O que esperar deste dia - atividades como passeios ciclísticos, eventos de lazer, promoções? O fato é que as programações pouco marcam posicionamento por políticas que tragam cidades mais sustentáveis e humanas. Quase não se vêem ações como fechamento de trechos de vias ao trânsito de automóveis, ou mobilização de motoristas e população para refletir sobre a urgência do tema.
Isso é o que o Mobilize Brasil verificou, com uma rápida pesquisa na internet: a maior parte das iniciativas do Dia Mundial sem Carro não interferem no trânsito. A maior parte das ações também não foi organizada pelo poder público, mas por instituições, movimentos ativistas ou empresas ligadas à mobilidade urbana. Veja alguns exemplos:
Em São Paulo (SP), a Praça do Ciclista, na avenida Paulista, promoveu na manhã desta terça, por iniciaitiva das empresas Eureka e Shimano e da vereadora Renata Falzoni, café da manhã e oficina de manutenção de bicicletas, ambas atividades gratuitas.
Em relação à prefeitura paulistana, site e redes sociais da gestão não divulgam uma ação sequer. Na cidade com a maior frota do país, era de se esperar mais. Dados do Detran-SP mostram um crescimento constante da frota de veículos na capital, que passou de 6,1 milhões de veículos em fevereiro de 2020 para quase 6,5 milhões em fevereiro de 2023.
Em Curitiba (PR), o movimento cicloativista mostrou-se mais combativo, e convocou para a noite de hoje um ato na Praça de Bolso do Ciclista, para cobrar mais dedicação da prefeitura à mobilidade ativa e o cumprimento de promessas de infraestrutura viária. Em seguida, os participantes farão um pedal por vias congestionadas da capital paranaense. A ação também pede a redução dos limites de velocidade, medidas para acalmar o tráfego e mais travessias de pedestres. A prefeitura lançou nas redes sociais um desafio, para que as pessoas deixem o automóvel em casa e experimentem outras formas de deslocamento.
Painéis sobre a data foram instalados em ciclovias de Curitiba Foto: Valquir Kiu Aureliano/Secom
Na Grande Vitória (ES), a iniciativa veio do poder público, com foco no sistema público de bicicletas compartilhadas. A rede opera integrada entre os municípios de Vitória, Vila Velha e Serra, e em todo este dia 22 oferece viagens gratuitas aos moradores, e até 30 de setembro descontos de 25% nos passes mensais e anuais dos aplicativos do programa.
Em Santos, no litoral paulista, a mesma promoção é oferecida no sistema de bikes compartilhadas controlado pela prefeitura. Hoje as bicilcetas podem ser utilizadas gratuitamente, até o final do mês haverá desconto de 25% na aquisição de passes mensais e anuais.
Bike Santos é de graça neste dia 22 e tem descontos até dia 30/9 Foto: Raimundo Rosa/ PMS
A capital catarinense Florianópolis terá hoje, das 12h às 18h, no Parque de Coqueiros e na Beira-Mar Norte, atividades de educação no trânsito e incentivo ao uso de bicicletas e patinetes. É a principal ação da prefeitura, feita em parceria com as empresas de micromobilidade Whoosh e Tembici e o Sest Senat.
Ação educativa programada para acontecer em Florianópolis Foto: Andy Puerari/PMF
Em Niterói, a cidade fluminense, a celebração foi antecipada, e no domingo (20) foi promovido um pedal pela orla para lembrar o Dia Mundial sem Carros, dentro das atrações do tradicional evento Niterói Bike Fest. Veja matéria no Mobilize.
Maringá (PR) foi um dos raros casos observados neste levantamento em que a prefeitura adotou uma postura mais atuante. As autoridades fizeram o reforço da segurança dos ciclistas, criando interdições aos carros em cruzamentos onde há travessias de ciclovias. Das 7h às 17h, ficarão bloqueadas as interseções da ciclovia da avenida Cerro Azul com as ruas Antônio Salema, Dr. Arion Ribeiro de Campos e Felipe Camarão.
Um dia sem carros
O Dia Mundial Sem Carros surgiu em 1997 na França, com a proposta de discutir os desafios aos que querem dispensar o veículo particular nos seus deslocamentos.
Especialistas concordam que deixar o carro em casa é uma questão cultural, mas também depende das alternativas oferecidas pela própria cidade. Não se trata de "condenar" as pessoas pelo uso do carro, mas de "convencê-las", com a oferta de um transporte público de qualidade e políticas para a mobilidade ativa.
Os ônibus, por exemplo, o meio mais presente no país, não pode ser um agente poluidor do ar da cidade, ou operar com veículos sujos e sem manutenção. Faixas exclusivas aos coletivos precisam ser mais implantadas, e a espera nos pontos não deve se tornar um teste de paciência ao usuário. É necessário que o transporte público seja eficiente, leve o menor tempo de viagem possível, e que haja integração entre diferentes modos de deslocamento. Por fim, planejamento urbano e plano de mobilidade são fundamentais. Tudo isso para convencer a população a experimentar e gostar de metrô, ônibus, trens, barcas, bicicleta e caminhada.
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