Calçadas: as pedras não têm culpa

Artigo do arquiteto Antonio Miranda discute a polêmica sobre o uso das pedras portuguesas na pavimentação de passeios públicos

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Antonio C. M. Miranda*  |  Postado em: 16 de julho de 2018

Calçadão de Copacabana: quase 100 mil m² de 'petit

Calçadão de Copacabana: quase 100 mil m² de 'petit pavé'

créditos: Reprodução

No início de julho, li no jornal Folha de S. Paulo a matéria "Portugueses tentam salvar tradição das centenárias calçadas de pedra", escrita pelo jornalista Paulo Markun. Pouco antes, no dia 27 de junho, a arquiteta e entusiasta dos transportes ativos Meli Malatesta, junto com o editor do portal Mobilize, Marcos de Sousa, lançaram num dos prédios da reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) os livros 'Pé de Igualdade', de autoria de Meli, e 'Movido pela mente', de Ricky Ribeiro e Gisele Mirabai. Isto aconteceu após terem proferido palestras introdutórias constantes dos temas abordados nos dois livros. Durante suas falas, além de temas diversos sobre a mobilidade a pé e por bicicleta, ambos foram questionados sobre as calçadas e seus pavimentos. 

Entretanto, o que há de comum na notícia de parágrafo inicial com a outra?, perguntariam os que leem este artigo. São muitas considerações a fazer sobre tal pergunta. A primeira, refere-se ao fato de que a doutora-ativista, amiga de longa data, é contrária ao emprego da pedra portuguesa como pavimento adequado à caminhabilidade. Esta opinião encontra apoio no alto custo na feitura de calçadas deste tipo; no descuido das autoridades à manutenção dos pisos construídos; na baixa qualidade da mão de obra brasileira; na ausência de formação de calceteiros a produzir pavimentos desta natureza em nossas cidades. Mas a maior crítica a este pavimento, segundo suas próprias palavras, é que ele não é "apropriado para pessoas com deficiência física (cadeirantes, pessoas com muletas, bengalas) e pessoas de mobilidade restrita, em especial os idosos".

Calçada de mosaico português no Centro do Rio de Janeiro
 

Meli tem inteira razão, mas devemos considerar alguns aspectos relevantes. Por exemplo, somente a orla de Copacabana possui quase cem mil metros quadrados de pavimento de pedra portuguesa, também chamado de "petit pavé". Acredito que nome foi adotado no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, por influência da forte presença de franceses naquela cidade. Portanto, "pequeno pavimento".  

Apenas no município do Rio de Janeiro, em sua orla marítima, desde a Barra da Tijuca até a Praia do Flamengo, em todo o centro urbano, e em outros bairros da Zona Norte, estima-se existam quase dois milhões de metros quadrados com este pavimento. 

Portugal, o exemplo da perfeição
Outro ponto que ressalto aqui é a presença deste mesmo tipo de pavimento em outras cidades litorâneas, como Santos, São Vicente, Florianópolis e Recife. Mais ainda, relato minha experiência em Braga (Portugal), onde assisti incrédulo uma mulher elegante cruzando extensa área com pedras portuguesas, calçando sapatos com salto palito (!). Após sua passagem fui observar a qualidade do assentamento das pedras. De fato, atingem quase a perfeição, no corte e no encaixe, pouco sobrando à permeabilidade da água. Mas nisto os lusos também dão um banho em nossa mão-de-obra, pois os caimentos são muito bem executados, com calhas de boa qualidade para drenar águas pluviais. 

Portanto, pelo seu relativo baixo custo de reposição e de manutenção, e mesmo de aquisição; por sua versatilidade; e pela possibilidade da construção de desenhos, os mais variados, não sou contra este tipo de pavimento. Sou sim contra o descaso das autoridades que deveriam manter equipes inteiras bem treinadas, em permanente plantão, para reparos de pedras soltas. Acho mais. Entendo que a questão do custo está afeta ao valor da sua feitura original, não da sua manutenção. Mas sua durabilidade é inquestionável diante de outros materiais, pois sua vida útil ultrapassa muitas gerações. 

Devo dizer ainda que alguns cuidados deveriam ser adotados, não somente no encaixe das pedras mas no seu corte original, que bem poderia ser melhor trabalhado. Nada impede que as pedras, antes de serem entregues aos calceteiros para realizar seus trabalhos de artífices, recebam 50% delas uma aparelhagem prévia. Com isto, poderiam ser produzidas pedras mais regulares, facilitando a vida dos trabalhadores e a sua escolha na hora de construir os desenhos na via pública. Mais do que isto, poderiam produzir pisos com encaixes melhores, com menores vãos entre as pedras. 

Calçada modernista feita com mosaico de pedras

Por fim, faço referência à excelente publicação 'El diseño del suelo: El papel del pavimento en la creación de la imagen de ciudad', onde são mostrados exemplos de pavimentos em muitas cidades do mundo, com destaque para pedras portuguesas, desde a Europa até o calçadão de Copacabana. E nele há destaque especial para alguns pisos de Barcelona, na Espanha.  

Portanto, discordando da amiga, a quem reputo uma das maiores autoridades brasileiras na caminhabilidade de nossas cidades, entendo que antes de condenar as pedras portuguesas, deveremos recuperar seus pisos e buscarmos o convencimento das autoridades para a urgência na formação de bons calceteiros e fortes fornecedores de material pré-trabalhado.  

*Antonio C. M. Miranda, de Curitiba, é arquiteto e urbanista e autoridade em planejamento e projeto cicloviário, além de defensor da mobilidade ativa nas cidades brasileiras

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