Em Paris, 60% das viagens são feitas a pé

Como a ação do poder público pode mudar hábitos e culturas de mobilidade em grandes cidades. Leia o Editorial da Newsletter semanal de número 184 do Mobilize Brasil

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Marcos de Sousa  |  Postado em: 26 de outubro de 2015

Rua reservada a pedestres e ciclistas em Paris

Rua reservada a pedestres e ciclistas em Paris

créditos: Guilherme Tampieri


Caminhar em Paris é uma delícia, confirma Guilherme Tampieri em artigo no blog Mobilize Europa.  A capital francesa tem 60% de seus deslocamentos diários feitos a pé e ostenta índices de quase 80% das viagens para compras também realizadas com as solas dos sapatos. Coisas simples, como ir ao mercado ou à boulangerie para comprar uma baguete e carregar - claro - sob o sovaco.


Os dados, medidos pelo Observatoire de Deplacements a Paris, resultam de medidas adotadas pela prefeitura local, que começaram com uma série de conversas envolvendo comerciantes, moradores e outros atores das áreas de intervenção. Além de obras para melhorar as calçadas, implantar ciclovias, sinalização, paisagismo e espaços de descanso, as autoridades desenvolveram o programa Paris Pieton Iniciative, que procura estimular os departamentos de vias e transportes, normalmente ligados à promoção de viagens motorizadas, a mudarem sua relação com os pedestres. Ruas foram fechadas aos carros, vagas de estacionamento suprimidas e, voilá!, tudo se transformou. Ou melhor, quase tudo, porque ainda restam muitas ruas e calçadas difíceis e sem nenhuma acessibilidade, adverte Guilherme.


Curiosamente, mas não por acaso, nos últimos dias aqui no Mobilize aumentou significativamente o número de acessos à entrevista com o arquiteto paisagista Benedito Abbud, que publicamos em maio de 2015. Entre outros temas, Abbud defende a ideia de que as calçadas, mesmo que pareçam obras muito simples, precisam de projetos. Algumas horas de trabalho de um bom arquiteto podem ajudar a definir os materiais da pavimentação, resolver a drenagem das águas pluviais, a posição de árvores e, sobretudo, os conflitos entre a calçada e as rampas de garagens, de forma a evitar os tristes degraus que impedem a passagem de cadeirantes, carrinhos de bebês e até malas de viagem. Em obras novas, a tarefa cabe ao setor imobiliário, mas envolve também as prefeituras, que, por lei,  não podem conceder o "habite-se" a construções sem calçadas adequadas.


Mas, "Pessoas mudam, a cidade muda", afirma o artigo assinado pelo Superintendente da ANTP, Luiz Carlos Mantovani Néspoli (Branco), no blog Palavra de Especialista. No texto, Branco discute a fraca presença do Estado brasileiro na condução do desenvolvimento urbano, sempre a mercê do laisse faire do mercado imobiliário. O especialista vê, porém, esperanças nos novos modos de viver, com a possibilidade de trabalho remoto ou em pequenos grupos de profissionais, e com o crescente desinteresse dos jovens em ter um carro. 


A palavra-chave, afirma Nespoli, é compartilhamento: carros e bicicletas públicas, caronas, e o uso democrático das ruas por pedestres, motoristas, ciclistas, cadeirantes, skatistas etc.


Marcos de Sousa
Editor do Mobilize Brasil


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