Brasilia Para Pessoas

17
fevereiro
Publicado por Brasília no dia 17 de fevereiro de 2016

Texto e fotos: Paulinha Pedestre

 

Após ser convidada a fazer parte do blog, tinha uma vaga ideia do que escrever na estreia, mas faltava “aquela” inspiração. Foi quando, entre o Natal e a passagem de ano, assisti ao filme Divergente, o primeiro da trilogia de Veronica Roth.

 

Abro aqui um parêntese, aos que não leram e não assistiram ao filme, para fazer uma breve explicação da estória. Esta se baseia em uma sociedade divida em cinco facções: Abnegação (composta por pessoas que buscam acima de tudo ajudar os outros e na qual a vaidade é proibida, por isso, não devem se olhar no espelho); Amizade (composta por pessoas felizes e sempre de bem com a vida); Audácia (composta por pessoas corajosas cuja serventia é, acima de tudo, defender seus cidadãos); Franqueza (composta por pessoas que dizem a verdade, doa a quem doer) e Erudição (composta por pessoas que detém o conhecimento).

 

Salienta-se que, no filme, há destaque para apenas três: a Abnegação, a Audácia e a Erudição. Ressalta-se que aquele que se enquadrar em mais de uma das facções deve ser banido da sociedade por se tratar de uma pessoa não manipulável (ou seja, uma má influência aos demais), sendo chamado de Divergente – nome que dá título ao livro/filme. Além disso, há os “sem facção” que são pessoas ignoradas pela sociedade por não se encaixarem perfeitamente em nenhuma das cinco facções.

 

Voltando ao texto… após assistir ao filme, decidi ler o livro (que, ironicamente, havia presenteado uma de minhas irmãs no Natal de 2014) – pois sempre que posso gosto de ler os livros que baseiam os filmes (por encontrar detalhes muito interessantes não transpostos às telas). Foi quando me deparei com alguns fragmentos que me inspiraram a escrever este texto:

 

“As renovações na cidade ocorrem de maneira lenta, e o espaço urbano se tornou uma mistura de prédios novos e limpos e construções velhas e decadentes. A maior parte dos novos edifícios fica próxima ao pântano, que há muito tempo costumava ser um lago. A agência de voluntários da Abnegação (…) é responsável por grande parte das renovações.”

“Há cinco anos, pedreiros voluntários da Abnegação restauraram algumas ruas.”

 

Após a leitura de apenas 4 capítulos do livro, comecei a fazer conexões com a situação do trânsito de Brasília, em que pouco é feito para uma melhoria efetiva no ir e vir de uma população que vive na Capital Federal de um país considerado Emergente.

 

Por que não passamos do status de Emergente para Divergente? Saindo do “quase” para algo que efetivamente se é, como o que vem acontecendo em São Paulo com as ações de Haddad, que muitos podem não concordar, mas não se pode negar que suas ações (de Haddad) são divergentes (não no sentido literal da palavra, mas seguindo a ideia utilizada no livro), ou seja, busca não seguir as regras utilizadas pela massa de políticos deste país que restringe-se somente o básico (quando o fazem), não ousam.

 

Retomando as ideias do livro, utilizaremos as três facções que tiveram destaque. Cabe lembrar que a Abnegação é a facção que toma conta das renovações da parte urbana da cidade (incluindo o trânsito), entretanto, é composta “por pessoas que buscam acima de tudo ajudar os outros e na qual a vaidade é proibida, por isso, não podem se olhar no espelho”. O “ajudar os outros” muitas vezes dá a ideia de “qualquer coisa que se fizer está de bom tamanho”, mas para quem paga impostos altos, não deveria ser assim, não é mesmo? (Ver imagens 1 e 2) E sobre a segunda parte (“a vaidade é proibida, por isso, não devem se olhar no espelho”), aí que há contradição mesmo, pois qualquer coisa que é realizada (por menos qualidade que se tenha) é divulgada como “o grande feito”.

 

Artigo_Paulinha_Menos Abnegacao_Paulinha_Foto 1

Ciclovia interrompida (Brasília, 204 Norte). Abnegação.

Artigo_Paulinha_Menos Abnegacao_Paulinha_Foto 2

Péssimo estado das calçadas na W3 Norte. Abnegação.

 

Trago à lembrança aqui também do papel da Audácia, composta por “pessoas corajosas, cuja serventia é, acima de tudo, defender seus cidadãos”, sendo essa uma característica ausente em nossos governantes, e, portanto, sendo nitidamente transmitida em nossas cidades.

 

Artigo_Paulinha_Menos Abnegacao_Paulinha_Foto 3   Artigo_Paulinha_Menos Abnegacao_Paulinha_Foto 4

Parklet na Vila Madalena e ciclofaixa na avenida Paulista. Audácia.

 

E você deve estar se perguntando: mas e a Erudição? Bem, esta, mesmo que exista, não serve de nada aos olhos dos políticos.

 

Mesmo a atenção sendo dada quase que exclusivamente ao transporte individual, ainda assim, é feita com pouca (ou sem) qualidade. E aos pedestres, ciclistas e usuários de transporte público, lhes resta “o resto”, “a sobra”, “a esmola” dada aos “sem facção”.

 

Portanto, um texto de estreia sendo escrito no início de um novo ano, só pode ser finalizado com votos de um novo começo. Sendo assim, desejo aos nossos governantes MENOS ABNEGAÇÃO e MAIS AUDÁCIA!



Compartilhe

Comente

Seu e-mail nunca é exibido. Campos obrigatórios são marcados *

*
*
*


Busca no Blog
Com a palavra...
Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
Posts mais lidos
Categorias
Arquivo
Realização
Associação Abaporu
Desenvolvimento
MSZ Solutions
Comunicação
Mandarim Comunicação
Patrocínio
Itau

Allianz
Apoio
Ernst & Young
Prêmio
Empreendedor Social
Prêmio Empreendedor Social