Brasilia Para Pessoas

18
abril
Publicado por Brasília no dia 18 de abril de 2016

Texto e fotos: Uirá Lourenço

 

A capital federal é reconhecida pelo respeito à faixa de pedestre e recentemente comemorou o aniversário de 19 anos da campanha que consolidou o hábito de o motorista parar e aguardar a travessia do pedestre. Nos últimos anos também se buscou emplacar a ideia de Brasília como capital das ciclovias, em razão das vias construídas para os ciclistas.

 

Na verdade, a fama se deve mais ao marketing governamental do que à realidade das ruas. Ao sair sem carro por Brasília, o cidadão encontra condições hostis. Seja a pé, de bicicleta, ônibus ou metrô, as queixas dos usuários se acumulam nas seções de leitores dos jornais e nas redes sociais, como revela compilação de queixas no blog Brasília para Pessoas .

 

 noticia_secretaria-mobilidade_respeito-pedestre_referencia-nacional_29-05-2015_2  Jornal_MetroBrasilia_28-04-2014_AnuncioGDF_Terracap_Brasilia_Capital_Ciclovias

Exemplos de marketing governamental relativo ao pedestre (2015) e ao ciclista (2014)

 

Para o pedestre há dificuldades de vários tipos. Além de o respeito à faixa não ser mais como outrora (especialmente fora do centro de Brasília, o desrespeito à faixa é alto), quem caminha se depara com calçadas destruídas ou mesmo ausentes, calçadas invadidas por carros, rampas bloqueadas e ausência de iluminação.

 

O respeito ao pedestre deve ser analisado de forma mais ampla e não apenas considerando o fato de os motoristas pararem na faixa. Observa-se, ao longo dos anos, negligência em relação à mobilidade a pé. Enquanto vias têm sido ampliadas e recapeadas, as calçadas continuam em péssimo estado: em 2014, o programa Asfalto Novo promoveu, ao custo de R$ 770 milhões, amplo recapeamento das pistas para circulação motorizada. Em muitos caminhos sequer há calçada e mesmo na área central se veem muitos “caminhos de rato” (linhas de desejo), evidenciando a ausência de planejamento com foco no pedestre.

 

DSCN1971_05-04-2016_Esplanada_Congresso_Rampa_Carro_Bloqueio_editBloqueio de rampa em frente ao Congresso Nacional DSCN7450_08-03-2016_AsaNorte_Setor Hoteleiro_Calcada_destruida_Pedestre_editCalçada destruída pela passagem de carros no setor hoteleiro norte

 

– Ações de educação e fiscalização de trânsito

A percepção de que o respeito à faixa se esvaiu ao longo dos anos é evidenciada pelas freadas bruscas e por constantes engavetamentos próximos a locais de travessia. As ações educativas nas ruas – com orientação sobre o respeito aos pedestres – são esporádicas, concentradas em datas comemorativas como a semana nacional do trânsito e o aniversário da campanha de respeito à faixa. E a baixa execução nos recursos arrecadados com multas de trânsito – segundo dados de 2015, aplicou-se valor dez vezes menor em campanhas educativas do que o orçamento autorizado – indicam que os recursos para educação no trânsito situam-se em patamar aquém do desejável.

 

 DSC00516_30-10-2015_AsaNorte_W5_Faixa Pedestre_Atropelamento_edit  DSC09208_09-10-2015_AsaNorte_W5_Faixa Pedestre_Acidente_Carros_edit

Atropelamento de pedestre e engavetamento ocorridos em faixa de travessia na Asa Norte, em 2015.

 

Constata-se que a simples existência de faixa para travessia não garante segurança. As ações de educação e fiscalização devem ser permanentes, com o objetivo de garantir a travessia segura e também, considerando as infrações cotidianas na capital federal, garantir algo de extrema relevância: caminho livre aos pedestres.

 

Espaços públicos da região central – canteiros, calçadas e até quadra de esporte – tornam-se estacionamentos informais e, assim, se reduzem as áreas de lazer e convivência e se incentiva ainda mais a dependência automotiva. Um fator considerável para a dependência do transporte individual motorizado consiste na oferta gratuita de vagas: na capital federal não há estacionamento rotativo pago (“zona azul”) e se pode estacionar livre e gratuitamente, sem limite de tempo, nas vagas públicas de estacionamento.

 

 DSCN0312_31-03-2016_Via_CLDF_Carros_Canteiro_edit  DSCN9231_14-10-2015_AsaSul_Patio Brasil_Canteiro_Carros_Estacionamento_edit

Canteiros convertidos em estacionamento, no Setor de Indústrias Gráficas e em frente a centro comercial (Asa Sul)

 

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Quadra de esporte convertida em estacionamento na Asa Norte

 

Merece destaque o fato de o próprio poder público não dar exemplo. Muitas vezes, veículos oficiais bloqueiam e invadem espaços voltados aos pedestres e ciclistas. Os bloqueios ocorrem até mesmo na Esplanada dos Ministérios, em frente aos principais órgãos do poder público federal. E tradicionalmente se suprime o espaço voltado a pedestres e ciclistas na Esplanada dos Ministérios, nos preparativos e durante o desfile cívico de 7 de setembro.

 

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Cena comum: bloqueio total de calçadas e ciclovias promovido pelo próprio poder público

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Na Esplanada dos Ministérios, o tradicional bloqueio de 7 de setembro e o bloqueio de calçadas em frente a órgãos públicos

 

– Novas calçadas e velho modelo sem conexões

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Calçada em construção no canteiro do Eixo Monumental

 

Na campanha Calçada Cilada deste ano, a capital federal se destacou com o registro de inúmeras crateras e bloqueios no caminho dos pedestres. No total, foram 231 queixas registradas. Segundo informação do governo, veiculada em reportagem sobre as condições das calçadas reveladas na campanha, há projeto para reforma de todas as calçadas do Distrito Federal, mas se aguarda a disponibilidade de recursos para realizar licitação.

 

Curiosamente, neste mês de abril, o governo local iniciou obras de construção de calçadas ao longo do Eixo Monumental, nos dois lados do canteiro central, próximas a uma ciclovia já construída e com pouco movimento de ciclistas. As obras em ritmo acelerado, em área com baixíssimo fluxo de pedestres, contrastam com a inacessibilidade e o abandono das calçadas na região central com circulação intensa de pedestres, como os arredores da rodoviária do Plano Piloto e o setor de rádio e tv sul.

 

DSCN9210_14-10-2015_AsaSul_SRTVS_Calcada_destruida_Carros_Invasao_editCarros ocupam diariamente canteiro e calçadas no setor de rádio e tv sul DSCN5338_25-02-2016_Esplanada_Rodoviaria_Calcada_destruida_Pedestres_editCratera na Esplanada dos Ministérios, em frente à rodoviária do Plano Piloto

 

Pensando no planejamento de ações com foco no pedestre, seria esperado, especialmente no cenário de grande restrição de recursos públicos, priorizar obras e intervenções em áreas com maior circulação de pessoas a pé, onde as calçadas e as condições de acessibilidade estão em estado crítico.

 

Ao que tudo indica se seguirá o modelo equivocado adotado na construção de ciclovias. Serão construídas calçadas em locais “fáceis” (canteiros), com muita área verde disponível, e será “esquecida” a interligação dos caminhos em locais onde se precisa retirar espaço dos carros para garantir conexão segura das calçadas.

 

DSCN1717_05-04-2016_AsaNorte_W5_UniCEUB_Ciclovia_Interrogacao_editInterrogação pintada onde a ciclovia termina de forma abrupta (Asa Norte). DSCN8388_11-03-2016_Via_CLDF_Carros_Estacionamento Proibido_Bicicleta_edit2Estacionamento irregular em área propícia para ciclofaixa de interligação de ciclovias, no SIG.

 

A Política Nacional de Mobilidade Urbana de 2012 estabelece de forma clara, como diretriz, a priorização da mobilidade saudável (modos “não motorizados” de transporte) e, entre os princípios, estão a acessibilidade universal e a segurança nos deslocamentos das pessoas. Na mesma linha, o programa do atual governador do Distrito Federal estabelece entre os objetivos: priorizar o transporte saudável (não motorizado) sobre o motorizado; facilitar o uso das calçadas pelos pedestres; promover acessibilidade às pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção.

 

No entanto se percebe que ainda há um longo caminho a trilhar rumo ao efetivo incentivo às caminhadas na capital federal. Além das grandes distâncias a enfrentar, o percurso costuma ser tortuoso: com carros no caminho, calçadas destruídas ou mesmo inexistentes e sensação de insegurança ao atravessar a via.

 

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– Álbum de fotos da (i)mobilidade em Brasília: https://picasaweb.google.com/112427601743437901602/ImobilidadeDF

 

– Vídeo revela as dificuldades de caminhar na Asa Sul: https://www.youtube.com/watch?v=MlueBV15sfE

 

– Vídeo na W3 Norte, importante via de Brasília, revela o sufoco dos pedestres: https://www.youtube.com/watch?v=3DHvut8jc0M

 

Artigo originalmente publicado no portal da ANTP: http://www.antp.org.br/noticias/ponto-de-vista/o-pedestre-em-brasilia-fama-x-realidade-.html



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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