Brasilia Para Pessoas

15
agosto
Publicado por Brasília no dia 15 de agosto de 2018

Texto e fotos: Uirá Lourenço

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Passo diariamente pela W3 Norte a pé, de bicicleta e de ônibus e observo a (i)mobilidade e (in)acessibilidade. É incrível o estado de abandono numa avenida tão importante, que concentra muitas lojas, supermercados, centros comerciais e órgãos públicos.

 

Bem servida por linhas de ônibus, com canteiro central arborizado e movimento intenso e constante de pessoas a pé, a W3 poderia ser um bom exemplo de mobilidade humanizada, sustentável e acessível. Mas o que se observa é justamente o contrário.

 

Organizei o acervo de imagens e resumi a realidade ao longo da W3 Norte. Eis a síntese da situação para pedestres, usuários de ônibus, ciclistas e motoristas.

 

– Caminho dos pedestres: crateras e carros no caminho

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As condições para caminhar pela W3 se resumem a calçadas destruídas e invadidas por carros, travessias arriscadas e pedestres obrigados a andar na rua.

 

Ao longo dos anos as crateras aumentam não só pela falta de manutenção, mas também pela invasão diária das calçadas pelos motoristas. Ao longo de toda a W3 Norte, calçadas, canteiros e rampas são invadidos e bloqueados. Não há fiscalização para coibir as infrações diárias.

 

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Crateras e bloqueios: triste realidade aos pedestres na W3 Norte.

 

Graças às crateras avantajadas, a avenida já sediou a competição Salto de Crateras (clique para ler relato sobre a ação), uma forma lúdica de ressaltar o estado de abandono.  O desafio contou com a participação do Super Ando, super-herói dos pedestres. Muitas das crateras na W3 foram registradas e encaminhadas ao GDF por meio da campanha nacional Calçada #Cilada (clique para ler sobre o resultado e o encaminhamento ao governo). Infelizmente, não houve providências relativas às calçadas.

 

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Super Ando participa do Salto de Crateras na W3 Norte.

 

Atravessar a W3 também é tarefa para super-heróis. Além da alta velocidade e do excesso de carros, motos e ônibus, há pontos com alto risco na travessia, sem faixas de pedestres nem semáforos. São cinco locais críticos: 705N, 713N, 716N, setor hospitalar norte e boulevard shopping.

 

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Dois locais com travessia de alto risco: 716 Norte e boulevard shopping.

 

Em dezembro de 2015 solicitei na ouvidoria do GDF a instalação de faixa de travessia e de semáforo na 513/713 Norte. Infelizmente, a solicitação não foi atendida e, em novembro de 2016, um idoso foi atropelado e morto no local (veja relato sobre a solicitação e o protesto contra a morte do pedestre).

 

A região da 513/713 Norte é o retrato fiel do abandono e da inacessibilidade. Além da falta de pontos de travessia com faixa e semáforo, os canteiros e as calçadas ficam completamente tomados por carros e os usuários de ônibus ficam espremidos, acuados no meio dos carros à espera do transporte na volta para casa.

 

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Na 713 Norte, travessia arriscada e usuários de ônibus espremidos entre carros no canteiro e nas calçadas.

 

– Situação para os usuários de ônibus: superlotação e falta de informações

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Para quem depende do transporte coletivo, a situação é péssima: pontos de ônibus superlotados, sem conforto e sem informações sobre linhas e itinerários. À noite a situação se agrava, pois a iluminação é bastante precária. Alcançar os pontos de ônibus é um desafio em razão das crateras, da falta de rampas e da travessia arriscada.

 

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No entorno dos pontos de ônibus predomina a inacessibilidade.

 

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Pontos de ônibus escuros e sem informações sobre linhas.

 

– Aos ciclistas: falta de espaço e carros no caminho

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Pedalar pela W3 Norte também é um ato de heroísmo. Sem qualquer infraestrutura (ciclovia ou ciclofaixa) e sem sinalização, o ciclista tem duas alternativas: arriscar-se na pista, entre carros e ônibus, ou seguir pelas calçadas esburacadas e invadidas por carros.

 

Ao optar pela pista, o ciclista disputa espaço com carros e ônibus em alta velocidade. O alto limite de velocidade (60 km/h) compromete o compartilhamento entre ciclistas e motoristas. Nos locais sem controle de velocidade por radares a velocidade dos motoristas claramente passa dos 60 km/h.

 

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Por falta de infraestrutura, ciclistas dividem espaço com carros e ônibus em alta velocidade.

 

Ao evitar o intenso fluxo motorizado e pedalar pela calçada nas laterais da W3, o ciclista se depara com crateras e muitos carros no caminho. Outra alternativa é pedalar pelo canteiro central, com a vantagem de aproveitar a sombra das árvores. Mas o piso é irregular, com muitos detritos e obstáculos (as guias não são rebaixadas). Outro problema é a falta de bicicletários. Com exceção dos centros comerciais e de alguns outros estabelecimentos, faltam vagas apropriadas para estacionar bicicleta.

 

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Nas calçadas, os ciclistas precisam desviar das crateras e dos carros.

 

– Aos motoristas: túneis, viadutos e estacionamento gratuito

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No final da W3 Norte avançam, em ritmo intenso, as obras do TTN (Trevo de Triagem Norte, também conhecido como “Terrível Trevo Norte”) para incentivar ainda mais o transporte automotivo: conjunto de vias expressas, túneis e viadutos.

 

Os canteiros arborizados cedem espaço para mais asfalto. Menos árvores e mais problemas aos pedestres, que perdem as áreas sombreadas e serão obrigados a atravessar mais pistas expressas.  As obras do TTN (segundo o GDF, serão 26 túneis, pontes e viadutos no total) seguem em ritmo intenso, dia e noite, e parte das pistas adicionais já foi entregue.

 

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Obras do TTN: árvores marcadas para morrer e pedestres sem calçadas.

 

Outra característica marcante e lamentável da W3 (na verdade, um fenômeno que ocorre em toda a área central de Brasília) é a invasão dos canteiros e das calçadas. Qualquer canto livre acaba se transformando em estacionamento irregular. Eis mais um grande incentivo à dependência automotiva: a falta de estacionamento rotativo pago (“zona azul”) e a tolerância com o estacionamento irregular.

 

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Os espaços dos pedestres são invadidos diariamente ao longo de toda a W3 Norte.

 

– W3 moderna e humanizada

 

Por que não investir numa W3 acessível e que sirva de exemplo de mobilidade sustentável, em vez de desperdiçar recursos em mais obras de incentivo ao transporte automotivo? 

 

A realidade em capitais europeias mudou graças ao planejamento voltado para as pessoas (o foco deixou de ser o transporte individual motorizado). Há algumas décadas cidades como Amsterdã, Paris e Copenhague investem em transporte por trilhos, incentivam os moradores a pedalarem e restringem a circulação de carros.

 

A foto de uma avenida em Amsterdã revela a distribuição justa do espaço urbano, com VLT, calçadas acessíveis e espaço seguro para pedalar.

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Sim, uma W3 moderna e humanizada é possível! E esse é o tema do próximo texto do blog, em que trarei sugestões com foco na segurança e na mobilidade.

 

 

 

– ÁLBUM – W3 NORTE (clique na imagem para acessar o álbum virtual):

120 imagens que ilustram a realidade na W3 Norte

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VÍDEOS – W3 NORTE (clique nas imagens para acessar os vídeos):

 

– Travessia difícil no Setor Hospitalar

Video_Travessia Setor Hospitalar_print screen

 

– Pedestres atletas na Asa Norte (W3)

Video_Pedestres Atletas_W3_print screen

 

– Travessia arriscada aos pedestres no final da W3 Norte

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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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