Brasilia Para Pessoas

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Publicado por Brasília no dia 01 de junho de 2018

Texto e fotos: Uirá Lourenço

 

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Andar por Brasília sempre traz muitas surpresas. A beleza da paisagem encanta e, no ritmo tranquilo da caminhada, destacam-se as aves e árvores. Não tenho carro por opção e, desde que me mudei para Brasília em 2005, caminho e pedalo bastante. Uma atividade antiestresse é observar e clicar a natureza e a (i)mobilidade.

 

No trajeto diário passo por algumas famílias de corujas, que sempre me observam. Alguns quero-queros também se abrigam próximo à ciclovia e já se acostumaram comigo; atualmente só atacam os famintos carcarás. A árvore soneca, que se estica no canteiro, é parada obrigatória quando saio com a família.

 

A sensação de liberdade é grande ao dispensar o carro no dia a dia. Fica-se imune ao aumento no preço da gasolina (o combustível básico é arroz e feijão) e se mantém facilmente a forma física (já faço academia no trajeto casa-trabalho). Quanto ao estacionamento – muitos amigos se queixam da dificuldade de estacionar ao sair de carro – lixeiras e postes resolvem o problema quando falta bicicletário.

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Praticidade na hora de estacionar, com ou sem bicicletário.

 

Mas nem tudo são flores e há que se falar no outro lado da história: os obstáculos que surgem no caminho. A fama de respeito à faixa de pedestre e a quantidade expressiva de ciclovias (420 km de infraestrutura aos ciclistas, segundo o GDF) não condizem com as reais condições para caminhar e pedalar em Brasília. Basta um curto trajeto a pé ou de bicicleta para a fama se desfazer.

 

Mesmo na Esplanada dos Ministérios são muitas as crateras e as dificuldades para caminhar. É um desafio passar de bicicleta pela rodoviária do Plano Piloto: faltam caminhos seguros e falta bicicletário. No principal terminal de transporte de Brasília, o ciclista não tem espaço apropriado para estacionar a bicicleta e fazer a integração com o ônibus ou metrô. Em vídeos recentes, mostrei as péssimas condições a pedestres e ciclistas que passam no início da Esplanada dos Ministérios.

 

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Crateras avantajadas e ausência de caminho seguro na rodoviária do Plano.

 

Há vários outros pontos críticos, inacessíveis, como a W3 o Setor de Rádio e TV Sul. Ao longo de toda a W3 (Norte e Sul) as calçadas estão em total abandono, invadidas por carros e sem rampas de acessibilidade. Para piorar, há locais com alto risco na travessia. No Setor de Rádio e TV Sul o abandono também é vergonhoso e dura muitos anos. Em 2014, três crianças fizeram uma ação de multa cidadã na região e aplicaram multas simbólicas nos carros sobre a calçadas (vídeo da multa cidadã). De 2014 até hoje o cenário de crateras e desrespeito continua.

 

Além da falta ou má conservação de calçadas, rampas e faixas de travessia, um problema grave é o estacionamento irregular. Por toda a capital federal é comum ver carros sobre calçadas, canteiros e ciclovias. Nem as poucas rampas são poupadas.

 

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Crateras e carros na calçada: realidade na W3 Sul e Norte.

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Rotina de bloqueios no caminho de quem caminha por Brasília.

 

As poucas ações favoráveis a quem caminha e pedala são insuficientes para mudar a realidade. Para exemplificar, no Eixo Monumental, próximo à Câmara Legislativa e ao Palácio do Buriti, a calçada é nova e acessível, mas os bloqueios diários impedem a passagem. No Setor Comercial Sul, a nova calçada com ciclovia na via S3 carece de conexão com o Setor Bancário e os pontos de ônibus na frente de hospitais e rampas da região estão diariamente bloqueados. A recente e necessária pintura nos cruzamentos da ciclovia não impede que motoristas continuem bloqueando o caminho dos ciclistas.

 

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O nível de inacessibilidade é crítico mesmo em locais que passaram por melhorias.

 

As infrações observadas diariamente reforçam a necessidade de ações integradas de infraestrutura, educação e fiscalização. Outro fator que inibe a circulação de pedestres e ciclistas é o alto limite de velocidade. Vias expressas cortam a cidade e criam barreiras. Limites de 70 e 80 km/h nas cidades afugentam seres desprovidos de motor e aumentam a insegurança, tornando-se verdadeiros muros, intransponíveis a cadeirantes e cegos. Não bastasse o alto limite, a imprudência é facilmente observada e, longe dos radares, a velocidade passa dos 100 km/h.

 

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Eixão e EPIA: vias com alto limite de velocidade.

 

Muitas das vias são tratadas como rodovias expressas, com foco no transporte motorizado e sem espaço para pedestres e ciclistas. Na EPIG, onde o GDF anunciou viaduto para escoar o fluxo de carros do Sudoeste pelo Parque da Cidade, não há calçadas nem pontos seguros de travessia. Na faixa de pedestre em frente à Polícia Civil a espera no semáforo chega a 11 minutos! O vídeo revela que atravessar a EPIG é missão quase impossível.

 

O final da Asa Norte também merece comentários, afinal as obras do TTN estão em ritmo avançado. O multimilionário projeto TTN – que prefiro chamar de Terrível Trevo Norte – avança sobre os canteiros e o lago Paranoá com o objetivo de construir dezenas de túneis e viadutos. Segundo o governo, trata-se da “maior obra viária desde Juscelino Kubitschek”. Para quem passa a pé e depende de ônibus, não há o que celebrar e continua o estado de abandono.

 

Muitas das árvores no final da Asa Norte já foram marcadas e eliminadas. A rica e bela fauna também sucumbirá ao suposto progresso da política rodoviarista equivocada e cara de incentivo ao transporte automotivo, em detrimento dos modos coletivos e ativos (saudáveis) de transporte.

 

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Árvores e aves com os dias contados no final da Asa Norte. Devastação causada pelo TTN.

 

Ao caminhar e observar a cidade há mais de 10 anos, percebo que a capital federal precisa se renovar. A dependência automotiva é uma marca registrada – simbolizada na ideia de que o brasiliense é composto de cabeça, tronco e rodas (4 rodas) –, mas o aumento dos congestionamentos e do estresse em razão da frota crescente indica a necessidade de mudanças. Estudos apontam que Brasília deve colapsar em poucos anos diante do excesso de carros nas pistas.

 

Além de infraestrutura adequada, precisamos de mudança cultural. Caminhar e pedalar deveriam ser vistos como alternativas de transporte, em vez de estarem associados ao pobre que ainda não conseguiu adquirir carro próprio. Cada vez mais as cidades modernas incentivam a mobilidade saudável e restringem o transporte automotivo, com grandes ganhos em qualidade de vida, a exemplo de Amsterdã e Copenhague.

 

A situação por aqui deve melhorar quando as autoridades começarem a caminhar e a usar o transporte coletivo nos trajetos diários. Ao sentirem na pele as dificuldades, certamente tomarão as providências necessárias. Em vez de carro oficial, os secretários de estado, diretores de órgãos de trânsito e parlamentares deveriam receber um bilhete único com acesso livre ao transporte coletivo e às bicicletas compartilhadas.

 

VÍDEOS:

 

Esplanada dos Ministérios: inacessibilidade vergonhosa em Brasília

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De bicicleta na rodoviária do Plano Piloto

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Multas cidadãs em Brasília

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Missão Impossível: Travessia na EPIG

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Este texto foi redigido a convite das jornalistas que mantêm o blog Olhar Brasília, onde foi originalmente publicado: http://www.olharbrasilia.com/2018/05/18/surpresas-e-desafios-ao-caminhar-e-pedalar-por-brasilia/

 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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