Brasilia Para Pessoas

30
agosto
Publicado por Brasília no dia 30 de agosto de 2019

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Bicicletário lotado em prédio do Setor Comercial Sul.

O Distrito Federal possui duas leis sobre bicicletários (4.423/2009 e 4.800/2012), que são bem parecidas e têm por objetivo obrigar a instalação de vagas para os ciclistas em locais como órgãos públicos, agências bancárias, shopping centers, supermercados, estações de metrô e instituições de ensino.

Ter vagas demarcadas em local seguro e confortável (de preferência, coberto e com controle de acesso) é fundamental para incentivar o uso de bicicleta como meio de transporte. Passados praticamente 10 anos desde a aprovação da primeira lei distrital específica sobre bicicletários, percebo que aumentou o número de vagas na cidade. No entanto, ainda falta muito para termos uma situação satisfatória para o ciclista.

Para exemplificar, o nosso principal terminal de transporte, a rodoviária do Plano Piloto, não tem uma vaga sequer. E nem todas as estações de metrô possuem vagas para os ciclistas. Outros espaços que atraem grande quantidade de pessoas, como o estádio e o ginásio, também ignoram as leis.

A escassez de bicicletários faz com que os ciclistas improvisem e recorram a lixeiras, postes, árvores e corrimões.

Cena comum em Brasília: bicicletas acorrentadas de forma improvisada.

– Bom exemplo – vagas para clientes

Supermercado Extra – Asa Norte.

O bom exemplo vem do setor privado. Os principais shoppings da capital federal têm espaço reservado e gratuito para os ciclistas: Conjunto Nacional, Boulevard, Brasília Shopping e Pátio Brasil. O Conjunto Nacional já chegou a espalhar cartazes para incentivar os clientes a usar bicicleta.

Muitos supermercados, laboratórios e prédios comerciais também passaram a oferecer bicicletários. Para incentivar ainda mais o bom hábito de pedalar, as lojas poderiam adotar outras medidas, como dar bônus aos funcionários e descontos aos clientes que se deslocarem de bicicleta. Essa é uma tendência em várias cidades do mundo e em Brasília alguns empresários começaram a aderir e dar descontos ou brindes. Reportagem do quadro Pedalando, do DFTV (clique para assistir), mostrou exemplos de cafeterias e restaurantes amigáveis aos ciclistas.

Brasília Shopping.

Boulevard Shopping.

Pátio Brasil.

Laboratório Sabin – Asa Norte.

No Conjunto Nacional, vagas para ciclistas e campanha de incentivo realizada em 2009.

– Integração bicicleta – transporte coletivo

Bicicletário subterrâneo gratuito em Amsterdã (Holanda).

Entre as soluções para a mobilidade nas cidades modernas está a integração dos modos ativos ao transporte coletivo. Bicicletários amplos ao redor dos terminais de transporte e pontos de ônibus são comuns nas cidades europeias. Em Amsterdã existem até estacionamentos subterrâneos para os ciclistas, gratuitos e abertos 24 horas.

Por aqui a realidade é oposta. Nosso principal terminal de transporte nunca teve um bicicletário decente e o que era ruim ficou ainda pior. Atualmente, está bloqueado o espaço onde ficam os suportes para bicicletas na Rodoviária do Plano Piloto. Além de não ter local para estacionar, o ciclista não tem espaço seguro para passar pela rodoviária, como já relatei no texto De bicicleta na Rodoviária do Plano (clique para conferir).

Muitas estações de metrô também não têm vagas para ciclistas, incluindo o terminal Asa Sul, que integra o sistema de ônibus e metrô. O jeito é improvisar e amarrar nas árvores em volta da estação.

Na rodoviária do Plano Piloto só sobrou a placa.

No terminal Asa Sul, improviso para estacionar.

– Vagas em locais movimentados

Vagas para ciclistas no Centro de Convenções Ulisses Guimarães.

O critério principal das duas leis distritais para obrigar a instalação de bicicletários é a atratividade de pessoas. Portanto, locais como estádios, ginásios e centros culturais deveriam ter espaços para os ciclistas. O Eixo Monumental e a Esplanada dos Ministérios abrigam boa parte dos museus e locais de diversão, incluindo estádio, ginásio e a catedral.

Entre os pontos que possuem vagas para ciclistas estão o Centro de Convenções e o Planetário. Mas a maioria dos locais não está preparada para receber os ciclistas. O estádio Mané Garrincha, com 72 mil lugares, simboliza bem o descaso. Em 2013, ano da inauguração da nova arena, o Governo do Distrito Federal chegou a instalar suportes numa área descoberta e longe do acesso principal. Os frágeis suportes se deterioraram ao longo dos anos e o espaço acabou sendo transformado em vagas para carros (a imagem mostra a situação do “bicicletário” do estádio entre 2013 e 2016).  No ginásio Nilson Nelson e na Catedral a situação é semelhante e o jeito é arrumar alguma árvore ou poste para acorrentar a bicicleta.

Improviso para estacionar no estádio Mané Garrincha.

Ciclista recorreu ao orelhão em dia de jogo da Copa do Mundo (2014).

Ginásio Nilson Nelson: sem bicicletário.

Ausência de bicicletário na Catedral de Brasília.

Locais movimentados na área central de Brasília ainda sem vagas para ciclistas.

Outro problema frequente é a falta de vagas nos grandes eventos, aliada à invasão de calçadas, canteiros e ciclovias. Em datas comemorativas e em eventos espalhados pela cidade o estacionamento irregular é a regra, o que prejudica e até impede a passagem de pedestres e ciclistas. No Fórum Mundial da Água, realizado em março de 2018, os participantes se depararam com calçadas destruídas ou inexistentes, ausência de bicicletário e muitos carros no caminho (relato completo sobre o Fórum). No Picnik, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em abril deste ano, pedestres e ciclistas disputaram espaço com os carros que circulavam e estacionavam nos canteiros e na ciclovia.

Calçadas, ciclovias e canteiros invadidos em dia de protesto contra a corrupção na Esplanada dos Ministérios (março/2015).

Fórum Mundial da Água (março/2018): muitas vagas para carros; pedestres e ciclistas em apuros.

Picnik (abril/2019): canteiros e ciclovias invadidos pelos carros.

– Bicicletários adequados  

Bicicletário coberto em frente a comércio. Santiago (Chile).

É bom frisar aspectos importantes na instalação de vagas para os ciclistas. Há manuais facilmente disponíveis com orientações sobre tipos de suporte, locais e outros requisitos para garantir boas condições aos ciclistas. O manual de bicicletários adequados da UCB (União de Ciclistas do Brasil) traz boas recomendações e exemplos. Eis algumas dicas: localização próxima da entrada do estabelecimento; suportes em “U invertido”, preferencialmente chumbados no pavimento; sinalização (placa ou cartaz); cobertura contra intempéries; iluminação noturna.

Quando se tem vagas com suportes inadequados (por exemplo, do tipo “escorredor de prato”), o ciclista acaba evitando o espaço. Ou seja, para o lojista pode ser um recurso desperdiçado, caso não siga as recomendações. Em Brasília há, infelizmente, muitos exemplos de espaços inadequados, com suportes frágeis e que danificam as bicicletas.

Suportes inadequados e destruídos no Setor de Autarquias Sul, prédio da Receita Federal.

Ciclistas evitam os suportes inadequados. Pão de Açúcar, Asa Norte.

Temos bons exemplos no Brasil para seguir. Mauá (SP) possui o maior bicicletário da América Latina, com 2 mil vagas, ao lado de uma estação de trem. O espaço é mantido pela associação Ascobike e vive lotado. Além das vagas, os trabalhadores têm direito a cafezinho, televisão, compressor de ar e oficina mecânica.  Outro bom exemplo vem do setor privado na Grande Vitória (ES): os shoppings têm bicicletários gratuitos e cobertos.

Bicicletário de Mauá (SP), considerado o maior da América Latina.

Bicicletário no shopping Mestre Álvaro, Grande Vitória (ES).

Para uma cidade se tornar amigável ao ciclista, alguns passos dependem de ação governamental para garantir caminhos seguros, com ciclovias e ciclofaixas, e limite de velocidade compatível com os modos ativos de transporte. Mas outras ações dependem do setor privado e da sociedade. Lojas, condomínios residenciais e comerciais, agências bancárias, entre outros estabelecimentos, podem oferecer vagas para os ciclistas e, assim, incentivar o uso da bicicleta. A instalação de bicicletário tem custo reduzido e requer pouco espaço (em apenas uma vaga para carro cabem até 10 bicicletas).

Os cidadãos têm papel importante e podem sensibilizar os gestores públicos e empresários para a importância das vagas para ciclistas. Além dos argumentos que ressaltam os benefícios das bicicletas (não poluem, ocupam pouco espaço na via e nos estacionamentos, melhoram a qualidade de vida), a legislação é um bom fundamento para exigir espaços adequados para as bicicletas, em particular as Leis Distritais 4.423/2009 e 4.800/2012.

 

– ÁLBUM – vagas para ciclistas no DF

Muitas imagens de vagas para ciclistas em todo o Distrito Federal, tanto os espaços demarcados e cobertos, quanto as vagas imaginárias e improvisadas (postes, lixeiras e árvores).

 

– VÍDEO – Bicicletários em shoppings da Grande Vitória (ES)

Nos centros comerciais, bicicletários adequados e com muitas vagas costumam ficar repletos de bicicletas.

 

– VÍDEO – Bicicletário de Mauá (SP)

O bicicletário com 2 mil vagas é o maior da América Latina.

 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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