Brasilia Para Pessoas

13
setembro
Publicado por Brasília no dia 13 de setembro de 2018

Texto e fotos: Uirá Lourenço

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Nesta semana conversava com o barbeiro. Após papear sobre eleições e o cenário político confuso, ele disparou essa: “Hoje paguei 5 reais no litro da gasolina! Amanhã, vou começar a vir trabalhar de ônibus.”

 

A conversa começava a ficar interessante. Perguntei onde ele morava e quanto tempo levava. Ele disse que vinha de Ceilândia e que de ônibus seria um sacrifício, teria que sair bem mais cedo. Na volta para casa, afirmou que, sem carro, chegava a esperar 40 minutos no ponto de ônibus.

 

Comentei que, com o bilhete único, ele poderia ir até a rodoviária e de lá pegar outro ônibus ou o metrô. Ele ficou espantado, pois nunca tinha ouvido falar do bilhete. Expliquei onde adquirir e como fazer a integração.

 

Ele fez as contas rapidamente dos gastos para encher o tanque do carro, dos gastos diários (mais de 20 reais só com combustível), e se animou com a ideia de usar o cartão de integração no trajeto casa-trabalho.

 

Fico imaginando como daria para melhorar a mobilidade e a qualidade de vida com incentivos reais para as pessoas passarem a usar o transporte coletivo. A cidade/sociedade ainda é hostil com quem usa ônibus e os anúncios espalhados nas ruas e nos jornais estimulam o uso do carro. Nos pontos de ônibus, os reiterados anúncios de fabricantes e concessionárias de automóvel, de empresas que prometem a superação do medo de dirigir e de aplicativos concorrentes do táxi revelam que a dependência do carro é mantida não apenas por meio das obras rodoviaristas (vias expressas, túneis e viadutos), mas também pela propaganda que enaltece o transporte individual.

 

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Contraste no final da Asa Norte: mais pistas aos motoristas e transporte coletivo precário.

 

Uma das poucas ações recentes (completa um ano este mês) com grande potencial na mobilidade – o bilhete único – é pouco conhecida e divulgada. Penso em ações inovadoras e simples por parte do governo para disseminar a boa cultura do uso de ônibus e metrô, tal como a divulgação e a entrega de bilhetes únicos a motoristas parados nos congestionamentos. Outra ação possível: a substituição dos carros oficiais no alto escalão do GDF por bilhetes únicos, a serem usados por secretários de estado e diretores dos órgãos públicos. A publicidade governamental divulgaria fotos dos gestores públicos no ônibus e no metrô como forma de destacar o sistema público de transporte. Além dos benefícios às finanças públicas (redução dos gastos com a frota oficial), as autoridades ainda teriam a chance de conversar com o povo e conhecer de perto a realidade.

 

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Anúncios em diversos pontos do DF reforçam a cultura automotiva.

 

Ao longo dos anos, governos de diferentes partidos prometem melhorias no transporte coletivo e criam programas com nomes e logomarcas pomposos (ex.: Brasília Integrada e Linha Verde). No atual programa Circula Brasília consta o desafio de aumentar a participação do transporte coletivo (que ostenta pífios 32% entre os modos de transporte).

 

Programas GDF_Nomes_Logomarcas

 

Mas com centenas de milhões desperdiçados em túneis e viadutos e sem prioridade ao transporte coletivo (há apenas 55 km de faixas exclusivas de ônibus em todo o DF), fica bem difícil convencer as pessoas a migrar do transporte individual motorizado para o transporte coletivo.

 

Talvez outros fatores – gasolina cara, zona azul e aumento dos congestionamentos diários – ajudem na sensibilização dos motoristas. 

 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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