"Após percorrer o país de norte a sul, posso dizer que sou fã de carteirinha. Antes a paixão era só por Amsterdã, pois pouco conhecia das outras cidades. Com 650 km rodados em trajetos de longas distâncias, a paixão pela Holanda (ou melhor, pelos Países Baixos) cresceu de forma expressiva.
Comprei uma autêntica bike holandesa, de segunda mão (da marca Gazelle), para seguir jornada. Com alforge, cestinha e mochila, consegui acomodar todas as tralhas. Parti de Amsterdã rumo ao norte. A primeira coisa que chama atenção são os caminhos incrivelmente seguros. Na maioria das vezes se percorrem ciclovias totalmente separadas do fluxo motorizado: um tapete vermelho se abre (muitas ciclovias, ciclofaixas e ruas compartilhadas têm essa cor).
Em Giethoorn, idosos pedalam com zero estresse em ciclovia Foto: Uirá Lourenço
Para nós, brazucas, acostumados a passar perrengue mesmo em trajetos curtos, é incrível (utópico) pedalar mais de 100 km na maciota. Detalhe: mesmo nas cidades maiores é tranquilo sair do trecho urbano e acessar as rotas de longa distância. Passei pelas principais cidades (Amsterdã, Roterdã e Haia) e zero estresse! É tudo tão conectado e sinalizado que você só precisa seguir adiante (o aplicativo ajuda muito, falarei dele adiante).
Com caminhos tão seguros, vemos ciclistas de todas as idades. Mesmo nas rotas entre cidades as cabeças brancas eram muito comuns e confesso que fui ultrapassado algumas vezes por senhores e senhoras. Em minha defesa, vale lembrar que eu estava de bike convencional (sem bateria) e com bagagem.
Dá para notar como as belas rotas de bicicleta atraem viajantes de outros países, incluindo alemães e franceses. Vi muitas famílias, muitos grupos e ciclistas solitários como eu. Imagino que o turismo de bicicleta tenha um papel relevante na economia holandesa. Aliás, muitos hotéis e hostels possuem frota de bicicletas para aluguel. E as lojas de bicicleta alugam diferentes modelos, como tandem e bakfiets (com compartimento na parte frontal).
A Jornada
Estava decidido a comprar uma bicicleta holandesa para desbravar as rotas no país. Após percorrer algumas lojas para ver bikes usadas, optei por uma Gazelle de modelo bem urbano, com garupa, para-lama e faróis (dínamo na frente), câmbio nexus de 7 velocidades. Coloquei cestinha, alforge e suporte de celular. Minha Fietsi1 estava pronta!
Agora faltava planejar melhor a rota. Decidi ir para o norte, rumo a Groningen, cidade conhecida por ter o maior índice no uso de bicicleta na Holanda. Saí de Amsterdã no dia 31 de julho e, após sete etapas de pedal, voltei à capital no dia 16 de agosto. Passei em Zwolle, Groningen, Giethoorn, Utrecht, Roterdã e Haia. O percurso total entre cidades foi de 650 km - trecho mais curto de 25 km (entre Roterdã e Haia) e o mais longo de 137 km (entre Giethoorn e Utrecht).
Uirá traçava suas rotas com ajuda do aplicativo no guidão da bike Foto: Uirá Lourenço
Após pesquisar sobre as rotas e dicas para cicloviajantes, descobri o app Fietsknoop, que foi essencial na jornada. Ele é gratuito e funciona muito bem. Pode-se traçar a rota com base na origem e no destino. Quando se grava a rota no aplicativo, basta seguir sem necessidade de internet. As rotas costumam ter placas, mas o app deixa mais cômodo e seguro. Nota 10 aos desenvolvedores.
Na longa jornada entre cidades passei por ciclovias, ciclofaixas e vias compartilhadas, sempre seguras e sinalizadas. Nenhum perrengue! A bandeira do Brasil ao vento, afixada na cestinha, chamava atenção e suscitava comentários simpáticos. Aliás, a simpatia esteve presente no caminho. Recebi sorrisos e tive auxílio quando precisei: uma carga no celular, água, maçã e uso do banheiro sem custo. A paixão pelo futebol é compartilhada e foi tema de algumas conversas com holandeses.
Adorei passar por bosques, áreas com grandes árvores. Em todos os sete trechos da jornada passei por jardins e bosques. As árvores (sombra) costumavam estar presentes nos caminhos ao longo das rodovias (com ciclovia nas laterais). Uma cena singela: num jardim de uma pequena cidade que abriga grupo de veados, a senhora num triciclo passeia e alimenta os animais. A mãe e os filhos também passeiam calmamente, admiram a família de cervídeos.
Pude constatar como os holandeses gostam de água e tratam tão bem canais, rios e lagos. Junto com áreas de bosque, os caminhos ao longo de rios, lagos e mar foram os que mais apreciei. Algumas das paradas de descanso foram na beira de rio e lago. Cheguei a cochilar na canga em alguns desses recantos tranquilos.
As cidades estão altamente adaptadas às bikes e são incrivelmente acessíveis. Triciclos, quadriciclos e bicicletas adaptadas (que se guiam com as mãos) são frequentes nas ciclovias, as calçadas são impecáveis e, em geral, largas.
O fluxo de carros costuma ser baixo, até porque não há muito espaço para eles. Muitos locais e ruas são exclusivos para pedestres e ciclistas. Pontes exclusivas para quem caminha e pedala também são comuns.
Para exemplificar a boa e justa distribuição do espaço viário, a avenida que leva à estação central de trem de Amsterdã tem calçadas largas e ciclovias em ambos os sentidos, o tram (bonde elétrico) passa na parte central. A circulação de carros se restringe a uma faixa em apenas um sentido.
Aspectos negativos
Pra não dizer que só falei das flores, alguns pontos negativos. O custo é elevado: hospedagem, alimentação e passeios. E o câmbio não favorece. Fiquei em hostels nas cidades onde parei e imaginei que encontraria hospedagem por volta de 25 euros. Mas os preços giravam em torno de 35 euros a noite em quarto compartilhado (três a quatro beliches), sem café da manhã.
Os hostels costumam ser limpos, alguns ofereciam geladeira e cozinha, que ajudam a baratear a alimentação. Muitos tinham um jardim externo, área propícia para tomar café, mas acabam servindo aos fumantes. Fuma-se muito na Holanda, a chance de dar uns tragos indiretamente é alta.
Para completar a lista de queixas, as motocas que rodam nas ciclovias incomodam e não são poucas. São aquelas scooters (elétricas ou a combustão) que passam em velocidade superior às bikes e chegam a assustar. Num país tão bom de pedalar e referência em mobilidade, não entendo como se permite que esses veículos velozes e barulhentos (modelos a combustão) circulem livremente nas ciclovias e ciclofaixas.
Canal em Utrecht, com passeio de barco e muitas flores Foto: Uirá Lourenço
Belas paisagens, espaços públicos
Os caminhos sempre reservam belos cenários, é incrível o nível de organização. Casas bem conservadas e floridas, espaços públicos muito bem conservados: praças, jardins, equipamentos de ginástica, quadras de esporte e parquinhos infantis.
Dá pra notar que os holandeses adoram as áreas verdes e aproveitam para sentar na grama e almoçar ou fazer piquenique. Em todas as cidades encontrei parques e praças, locais de caminhada arborizados ao longo de rios. Visitei bibliotecas públicas de Amsterdã, Haia e Roterdã, com vários andares, modernas, e com grande acervo de livros e espaço de exposição.
Além das belas paisagens, da profusão de bikes e da boa manutenção dos espaços, o que fica de marcante e de inspiração é o ambiente urbano tranquilo e seguro. As cidades holandesas são desenhadas para as pessoas."
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