Brasilia Para Pessoas

14
julho
Publicado por Brasília no dia 14 de julho de 2016

Texto e fotos: Uirá Lourenço

 

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Em junho de 2015 protocolei no Governo do Distrito Federal ampla análise sobre a ciclovia que passa na Asa Norte (via W4/W5). O trabalho consistiu num diagnóstico detalhado do percurso, com os problemas existentes no caminho. Fotos, vídeos, imagens de satélite e as observações durante as pedaladas diárias pelo local embasaram o trabalho. Além do diagnóstico com muitas imagens, foram apresentadas possíveis soluções para facilitar a vida de quem pedala pela cidade.

 

Os principais problemas são bem conhecidos desde a criação da via exclusiva aos ciclistas no canteiro da Asa Norte, em 2012. Apesar de se intitular capital das ciclovias, com cerca de 440 km de vias para ciclistas, há várias dificuldades no caminho, tais como descontinuidade no trajeto, escuridão e muitos bloqueios causados por motoristas.

 

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2013

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2014

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2015

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2016

Sequência cronológica revela a imobilidade a quem pedala pela Asa Norte, com obstáculos intransponíveis.

 

Passados seis meses da entrega da análise ao governo, achei que o esforço teria surtido alguma ação prática ao receber e-mail do DER-DF, com documento anexo. Mas foi alarme falso, o documento apenas sugeria o encaminhamento do estudo para a secretaria de infraestrutura. O relato completo sobre a resposta recebida revela o descaso com os que pedalam pela cidade e têm sugestões para melhorar a mobilidade. O direito de “participar do planejamento, da fiscalização e da avaliação da política local de mobilidade urbana”, previsto na Política Nacional de Mobilidade Urbana, ainda está apenas no papel.

 

Ao longo da ciclovia analisada existem diversas escolas, creches e faculdades, o que representa grande potencial para incentivar o uso de bicicleta. No entanto, a precariedade da infraestrutura e a ausência de ações educativas e de fiscalização pouco contribuem para a disseminação da cultura ciclística.  Observam-se pouquíssimas crianças e idosos na ciclovia, um indicador relevante de que as condições aos ciclistas estão aquém do desejável.

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Diversas escolas e faculdades ao longo da ciclovia: potencial desperdiçado para ações em favor do uso de bicicleta.

 

Em outra imagem aérea observa-se o mau uso do espaço urbano no ponto mais crítico ao longo da ciclovia (708/908 Norte): amplas áreas são utilizadas para estacionamento de carros. Além das vagas sinalizadas, canteiros, calçadas e o espaço da via também se convertem em estacionamentos.

 

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Grandes áreas mortas na cidade: espaços convertidos em estacionamento.

Em vídeo recente, uma ciclista que leva diariamente o filho à creche se revolta com os bloqueios frequentes no caminho. Em geral são os mesmos motoristas que reiteradamente estacionam em local proibido, aproveitam-se da ausência de fiscalização e garantem vagas exclusivas sem se importar com quem caminha e pedala pela cidade.

 

Após um ano do estudo protocolado, permanece a indignação nas pedaladas diárias. Ciclovias bloqueadas e sem continuidade, rampas bloqueadas e calçadas invadidas por carros compõem o cenário desfavorável a quem caminha e pedala em Brasília. Ao contrário do estabelecido na Política Nacional de Mobilidade Urbana (prioridade dos modos não motorizados de transporte; segurança nos deslocamentos), nas leis distritais sobre mobilidade (promoção de ações e projetos em favor de ciclistas, pedestres e usuários de cadeiras de rodas; eliminação de barreiras urbanísticas aos ciclistas) e no programa do atual governador (ampliação do uso de bicicletas para deslocamentos diários, promoção da acessibilidade, promoção da paz no trânsito como política permanente de educação), o transporte individual motorizado ainda é prioritário, e o espaço voltado aos carros avança inclusive sobre calçadas, ciclovias e canteiros.

 

O registro fotográfico de 2016 comprova que os problemas de imobilidade ao longo da W4/W5 Norte continuam:

 

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Em razão do excesso de carros, espalhados por todos os cantos da 708N, ciclistas são obrigados a circular pela rua, em meio a intenso fluxo de carros.

 

 

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Ciclistas em risco na altura da 708N, em razão da descontinuidade da ciclovia e do excesso de carros.

 

Cruzamentos bloqueados pelos motoristas são a regra no caminho e causam insegurança e desconforto. A pintura “Pare” voltada ao ciclista e a ausência de qualquer placa de alerta aos motoristas revelam que a cidade ainda privilegia motores em vez de pessoas.

Diante dos abusos motorizados frequentes, fica a pergunta aos órgãos gestores da mobilidade no DF: como incentivar que mais pessoas usem a bicicleta e caminhem sem garantir infraestrutura de qualidade e sem fiscalização permanente que coíba as infrações?

 

– Multa cidadã x fiscalização de verdade

Na ausência de ações governamentais para inibir as infrações, surgem iniciativas cidadãs que buscam sensibilizar os motoristas infratores. Ao longo da ciclovia, cidadãos indignados deixam cartazes e bilhetes nos carros.

 

 

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Neste ano, os “agentes-mirins” de trânsito Cauã e Iuri (7 e 8 anos) passaram pelo local mais crítico ao longo da ciclovia (708N) e aplicaram multas educativas nos infratores. Reportagem da globo mostrou a árdua tarefa dos irmãos.

 

A iniciativa de multas cidadãs não tem sido capaz de educar todos os condutores. Percebe-se que muitos só se educam pelo bolso. E neste ano não se observou qualquer ação de fiscalização nos locais críticos ao longo da ciclovia para coibir as infrações motorizadas. Pelo contrário, no início do semestre letivo agentes de trânsito estiveram no local para garantir fluidez motorizada, sem preocupação com o estacionamento irregular.

 

No reinício do período de aulas no 2º semestre, ao que tudo indica, continuará o caos causado pela imprudência motorizada. Em vez de continuidade no caminho dos ciclistas e de segurança redobrada nas proximidades de escolas e faculdades, mais espaços serão tomados para circulação e estacionamento da frota motorizada crescente.

 

A impressão que se tem é que a criação de ciclovias no Distrito Federal atende meramente a razões numéricas – ostentar o título de capital das ciclovias – sem o objetivo de incentivar modos de transporte alternativos ao carro. Criam-se ciclovias onde é fácil (em canteiros) e “se esquece” de garantir continuidade no caminho dos ciclistas: a cada estacionamento, a ciclovia desaparece. E também se esquece das ações fundamentais de educação e fiscalização no trânsito.

 

____________________

– A análise da ciclovia foi protocolada em diversos órgãos públicos em 11/6/2015: governador Rollemberg; secretaria de mobilidade; direção-geral do Detran; direção-geral do DER; MPDFT (Promotoria de Defesa da Ordem Urbanística); presidência da Comissão de Fiscalização, Governança, Transparência e Controle da CLDF.

 

– A análise realizada consiste em um documento ilustrado com a síntese do trabalho (5 páginas com links para estudos e vídeos), uma apresentação com 146 slides e um relatório fotográfico detalhado (235 fotos). E ainda um DVD com farto material adicional de consulta (4,33 Gb), contendo legislação, álbuns temáticos, notícias, artigos e vídeos. O estudo está disponível em: http://www.mobilize.org.br/estudos/205/analise-da-ciclovia-asa-norte.html

 

– O vídeo Brasília: capital das ciclovias revela as dificuldades cotidianas do ciclista na capital federal, mesmo com os mais de 400 km de ciclovias: https://www.youtube.com/watch?v=OchYVHtNGSQ

 

– Em razão da indignação com a situação de imobilidade a quem pedala pela Asa Norte, em 2013 já havia elaborado amplo registro dos problemas. O estudo foi publicado no Mobilize: http://www.mobilize.org.br/estudos/101/ciclovias-e-mobilidade-por-bicicleta-no-df–imagens-da-infraestrutura-cicloviaria-asa-norte-w5.html

 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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