Brasilia Para Pessoas

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janeiro
Publicado por Brasília no dia 15 de janeiro de 2018

Texto e Fotos: Uirá Lourenço

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A retrospectiva de 2017 revela um cenário negativo da (i)mobilidade. O ano se iniciou com uma notícia amarga: aumento na tarifa do transporte coletivo. Os protestos nas ruas não evitaram o preço de R$ 5 no metrô e no ônibus a partir de janeiro.  Reconhecida pela péssima qualidade no serviço, Brasília passava a ostentar a tarifa mais cara do país, após o segundo aumento em dois anos de governo.

 

Em abril, durante a campanha nacional Calçada #Cilada, Brasília se destacaria pela quantidade de crateras e armadilhas aos pedestres, fotografadas e denunciadas por meio de aplicativo de celular. As 251 crateras registradas na campanha deram o segundo lugar à capital federal, atrás apenas de São Paulo. Nas celebrações do aniversário da cidade, foi realizada a segunda edição do Salto de Crateras, uma forma lúdica de chamar atenção para o péssimo estado das calçadas na área central. É necessário porte atlético para passar a pé pelas crateras monumentais do Setor Hoteleiro e da via W3, entre várias outras armadilhas espalhadas pela cidade.

 

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Cratera na W3 Norte, denunciada na campanha Calçada #Cilada, e Salto de Cratera no Setor Hoteleiro.

 

Em junho, o amplo estudo sobre a ciclovia da W4/W5 Norte completou dois anos. Com muitas fotos e observações (a parte principal tem 145 slides), além de diagnóstico detalhado, que revela as descontinuidades e os bloqueios no caminho, o trabalho protocolado em diversos órgãos do GDF apresentou propostas de melhorias. No entanto, não houve qualquer providência e os problemas de insegurança e desconforto persistem.

 

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Descontinuidade e bloqueios na ciclovia da Asa Norte em 2017.

 

O segundo semestre se iniciou com uma boa notícia. O canteiro central da via S3, que passa ao longo do Setor Comercial Sul, foi transformado numa calçada plana e acessível, com ciclovia sinalizada. Mas a alegria dura pouco: calçada e ciclovia terminam de forma repentina, sem ligação entre o Setor Comercial e os Setores Bancário e de Autarquias Sul. Para celebrar o Dia Mundial do Pedestre (8 de agosto), várias pessoas participaram de caminhada pela região e vivenciaram o desconforto e a insegurança de ter que dividir a pista com carros em alta velocidade.

 

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Canteiro central com calçada e ciclovia, mas sem conexão com outros setores.

 

No mês do Dia Mundial sem Carro (22 de setembro) foi lançado o Bilhete Único, com dois anos de atraso (durante a campanha, o candidato Rollemberg prometera para 2015). O bilhete garante economia ao usuário na integração ônibus-metrô. No entanto, permanecem graves problemas no transporte coletivo, incluindo a falta de abrigos em pontos de ônibus, a superlotação e a escassez de faixas exclusivas para ônibus.

A principal obra de imobilidade no DF continuou a pleno vapor em 2017. O milionário conjunto de túneis e viadutos do TTN (Trevo de Triagem Norte), também conhecido como Terrível Trevo Norte, vai atender a mais de 100 mil motoristas e aumentar os congestionamentos e a poluição. Apesar da tendência moderna de se incentivar os modos coletivos e ativos de transporte, o GDF continua estimulando o transporte automotivo. No final de setembro, ao se referir às obras do TTN em artigo publicado no jornal Correio Braziliense, o governador declarou-se orgulhoso da política rodoviarista: Nenhum outro governo fez tantas pontes e viadutos.”

 

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No final da Asa Norte, obras voltadas ao transporte automotivo deixam os pedestres na lama.

 

E o ano chega ao fim sem estacionamento rotativo pago. A chamada “zona azul” é comum nos centros urbanos e consiste em instrumento importante para disciplinar o uso das vagas públicas e obter recursos para projetos de mobilidade, tais como reforma de calçadas e criação de ciclofaixas. Apesar do apoio da associação de comerciantes, a proposta de estacionamento rotativo parece estar longe de se concretizar. A gratuidade das vagas públicas e a conivência com o estacionamento irregular reforçam a grande dependência automotiva em Brasília.

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Cena comum em Brasília: canteiros e calçadas invadidos por carros.

 

Nada de estacionamento rotativo e tampouco VLT e metrô ampliado, duas das muitas promessas para o transporte coletivo do então candidato Rollemberg. No programa de governo e em entrevistas a mobilidade urbana se destaca, com prioridade aos modos alternativos ao automóvel.

 

Em quatro anos de governo, haveria expansão do metrô (Asa Norte, Ceilândia e Samambaia); linhas de VLT (Ceilândia, Taguatinga, Riacho Fundo, Asa Sul e Asa Norte); corredores de transporte coletivo Norte (ligação entre Plano Piloto e Sobradinho, Planaltina) e Oeste (entre o Eixo Monumental e Ceilândia, pela EPIG e EPTG); trens regionais (ligação de Brasília a Luziânia e Goiânia, além de estações em Águas Lindas, Ceilândia, Taguatinga, Estrutural, SIA e Rodoferroviária).

 

Atropelamentos e mortes no DF

Quanto à violência no trânsito, o cenário é desanimador. A imprudência e o alto limite de velocidade intimidam quem caminha e pedala na cidade. Vias como Eixão, L4 e EPIA, com limite de 80 km/h, são muros a pedestres e ciclistas. A despeito das notícias otimistas do Detran-DF, que apontam redução das mortes no trânsito em 2017, o saldo de mortos (254, no total) e mutilados é assombroso.

 

Em abril, Edson Antonelli foi assassinado por uma motorista alcoolizada enquanto pedalava na ciclofaixa do Lago Norte. Ainda em abril, outra tragédia: Cleusa e Ricardo Cayres (mãe e filho) foram assassinados enquanto dirigiam na L4 Sul em colisão causada por dois motoristas que, segundo testemunhas, disputavam racha.

 

No segundo semestre, Raul Aragão, ativista da mobilidade (voluntário do Bike Anjo e da Rodas da Paz), foi brutalmente morto enquanto pedalava na L2 Norte. O motorista que o atropelou estava a 95 km/h na via com limite de 60 km/h. Em outubro, Beatriz de Souza foi atropelada enquanto atravessava a Esplanada dos Ministérios ao sair do trabalho. Segundo testemunhas, o motociclista, que também morreu, estava em alta velocidade. É preciso nomear as vítimas no trânsito, que não são apenas números nas estatísticas sangrentas e representam centenas de famílias destroçadas.

 

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Bicicleta branca (ghost bike) em homenagem a Raul Aragão.

 

Além de Cleusa, Ricardo, Beatriz, Raul e Edson, muitos outros – crianças, jovens e adultos – perderam a vida nas vias do DF. Anônimos que estamparam as manchetes dos jornais em 2017: “Dois idosos são atropelados em Taguatinga” (junho), “Duas mulheres e bebê morrem atropelados por adolescente com ‘sinais de embriaguez’ no DF” (agosto), “Ciclista morre atropelado em acidente na BR-020” (outubro). Os dados estatísticos frios, expostos em tom otimista pelos órgãos de trânsito, e as notícias sem identificação dos pedestres e ciclistas mortos naturalizam as mortes, como se fossem eventos inevitáveis.

 

Em cidades de referência em segurança no trânsito, como Nova York e Estocolmo, o governo segue o conceito Visão Zero (clique para acessar o plano de Nova York), em que as mortes não são tratadas como meros acidentes e ações efetivas são tomadas – tais como redesenho das vias e redução da velocidade – para reduzir os riscos de atropelamentos e mortes.

 

Ao contrário da propaganda governamental, Brasília continua no rumo rodoviarista atrasado, caro e poluente. As promessas de campanha e as mudanças de nome dos programas do GDF não se traduzem em melhorias significativas na mobilidade. Os gestores públicos precisam se convencer da necessidade de humanizar a cidade, com incentivos aos modos alternativos ao carro.

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Vídeos sobre a (i)mobilidade no DF:

 

Protesto contra o aumento na tarifa do transporte coletivo

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Imobilidade no início da Asa Sul

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Imobilidade no final da Asa Norte

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Promessas de Rollemberg – transporte coletivo

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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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