Brasilia Para Pessoas

06
outubro
Publicado por Brasília no dia 06 de outubro de 2021

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Pessoas posando para foto com bicicleta

Descrição gerada automaticamente

Chegar de bicicleta, a depender do lugar, ainda causa surpresa, estranhamento. Se decidir ir a um restaurante mais arrumado (chique) com a mulher e os filhos, é como se fossem quatro ETs chegando. Num lugar desses, a chance de ter vaga para estacionar as bikes é próximo de zero.

Lembro de um colega de trabalho que perguntava, com certa frequência, por que eu insistia em ir de bicicleta e não comprava um carro. Pedalar no dia a dia, como meio de transporte, desperta curiosidade e traz muitas vantagens. Comento a seguir alguns dos muitos benefícios.

1) Infraestrutura: ciclovias

Pessoas andando de bicicleta na grama

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Ciclovia no Eixo Monumental.

É verdade que Brasília tem um ambiente favorável ao carro, com vias largas e de alta velocidade, além de amplos estacionamentos gratuitos (até hoje não há cobrança nas vagas públicas). Por outro lado, existem muitas ciclovias na cidade. Segundo a Secretaria de Mobilidade, são 586 km de ciclovias e ciclofaixas no Distrito Federal.

Em boa parte dos trajetos diários pedalo em ciclovias. Também sigo pela pista em ruas mais calmas ou pela calçada em alguns trechos (especialmente quando estou com os filhos, de 12 e 13 anos). Felizmente, muitos caminhos são arborizados: a sombra das árvores ameniza bem o calor.

Apesar dos problemas, como falta de conexão das ciclovias e falta de iluminação, dá pra se virar bem de bicicleta na área central de Brasília.

 2) Contato com a natureza

Pássaro em cima da grama

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Pausa para apreciar as curicacas.

Adoro apreciar a passagem e a cidade propicia boas surpresas. Esse período de floração dos ipês é especial. É difícil não dar aquela parada para ver de perto e tirar umas fotos. No ritmo tranquilo e silencioso da bicicleta, consigo admirar as curicacas, corujas e pica-paus. Às vezes dou sorte e também vejo araras e tucanos.

Já consigo identificar vários pássaros de longe, pelo canto, antes de avistá-los. E o que dizer das cenas curiosas, dignas do canal Discovery ou National Geographic? O gavião carcará tomando carreira, sendo afugentado com bicadas de pássaros com um décimo do tamanho. Ou uma cena ainda mais inusitada: a cópula agitada e alegre dos periquitos no ipê florido.

Ipês floridos e tucano: boas surpresas no caminho.

3) Estresse zero

Cena comum em Brasília: ciclovia vazia e pistas cheias

Pedalar livremente na ciclovia no fim de tarde dá uma sensação incrível de leveza e liberdade. Os congestionamentos são comuns na volta pra casa, mas nas ciclovias o caminho está sempre liberado. Não dirijo há muitos anos e o motivo principal de largar o carro e usar a bici foi justamente me livrar dos congestionamentos. Na época, morava em São Paulo e a principal fonte de estresse era o tempo perdido no trânsito caótico.

Não perco mais tempo nem dinheiro nos deslocamentos. Na hora de ir a alguma loja, supermercado ou restaurante, não passo apuro para estacionar. A maioria dos centros comerciais possui bicicletário coberto e gratuito. Mesmo sem vagas específicas para ciclistas, dá pra se virar e improvisar. Árvores, lixeiras e postes acabam virando suporte para a bicicleta.

Opções práticas para o ciclista: lixeira e placa.

Já pensou não precisar ficar dando volta para achar vaga nem correr risco de levar multa ao estacionar em canteiros ou fila dupla (infrações comuns em Brasília)?

4) Saúde e atividade física

Pássaro em cima de uma bicicleta

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Pedal até o Parque da Cidade: higiene mental à beira do lago.

A possibilidade de fazer ginástica nos trajetos diários é outra grande vantagem. Não gosto de fazer exercício em academia e sou adepto das atividades ao ar livre. Graças à bicicleta, mantenho a saúde física e mental. Certamente ela contribui para os bons resultados nos exames médicos (glicemia, colesterol e testes cardiológicos). Aos 43 anos, o único remédio é a dose diária de pedal!

Quanto à saúde mental, nos dias difíceis de pandemia (angústia e irritação causadas pelo confinamento em casa) não hesitei em sair para pedalar. De máscara e com respeito ao distanciamento social, ia sentir o vento no rosto e admirar as árvores e os pássaros. Voltava renovado após algumas horas.

Ao longo de duas décadas conheci muita gente bacana (eis mais uma vantagem: fazer amizade no caminho!) e lembro de um bom número de pessoas que emagreceram após pouco tempo de pedal. Para alguns, a rotina na bicicleta ajudou a largar o vício do álcool e de outras drogas. 

5) Economia

Uma imagem contendo grama, estacionado, bicicleta, frente

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Nesse período de inflação em alta e litro da gasolina a mais de R$ 6, a bicicleta desponta ainda mais como opção barata e recomendável. É muito bom abastecer com arroz e feijão (e uma dose regular de açaí), sem parada no posto de combustível.

O custo de manutenção da bike é bem reduzido. A conta fica mais favorável ao colocar na ponta do lápis os gastos evitados ao pedalar e dispensar o carro: os custos diretos (combustível, IPVA, seguro, estacionamento e multas) e os custos indiretos (por exemplo, médico, nutricionista e academia de ginástica).

Fica a dica para quem está indignado com os seguidos aumentos no preço do combustível, especialmente aos que têm uma bicicleta encostada (empoeirada). Faça o teste de inserir a bike na rotina, de forma gradativa. Comece com trajetos mais curtos, até a padaria ou supermercado. Quando estiver com mais disposição, busque rotas mais distantes. Boa sorte!  

VÍDEOS:

Três vídeos para inspirar o uso da bicicleta no dia a dia e para refletir sobre a busca de cidades humanizadas e seguras.



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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