Brasilia Para Pessoas

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dezembro
Publicado por Brasília no dia 01 de dezembro de 2021

Texto: Uirá Lourenço

O preço dos combustíveis aumentou bastante. O litro da gasolina passou de R$ 4,49 para R$ 7,19 em um ano (segundo notícia do Correio Braziliense). O aumento levou pessoas a mudarem a rotina de deslocamentos.

Como ressaltei no texto anterior, crise é também oportunidade e a troca do carro por outros meios de transporte pode trazer vantagens individuais (atividade física e menor nível de estresse) e coletivas (menos carros em circulação resultam em menor nível de poluição do ar e barulho).

Conversei com algumas pessoas que trocaram o carro pelo transporte coletivo (ônibus e metrô), pela bicicleta ou monociclo elétrico. A seguir, relatos de pessoas que substituíram o carro ou passaram a usar menos nos deslocamentos para o trabalho.

Ana Raquel Reis de Medeiros – servidora pública

Mulher ao lado de trem

Descrição gerada automaticamente com confiança média

– Metrô e ônibus

– Trajeto diário: Vicente Pires – Asa Norte

A Ana Raquel mora em Vicente Pires e dirigia até o local de trabalho, mas passou a usar o transporte coletivo para economizar. Na ida, usa metrô e ônibus. Para não ter que ficar no ponto de ônibus antes das 6h, o pai leva até a estação do metrô. Na volta, pega ônibus, desce na Estrada Parque Taguatinga (EPTG) e depois caminha até sua casa.

O custo mensal com ônibus e metrô fica, por volta, de R$ 220. De carro, considerando combustível e manutenção, seriam mais de R$ 500.

Entre as vantagens de não ir de carro, ela menciona: economia, agilidade (trajeto com faixa exclusiva de ônibus) e sem preocupação com estacionamento (risco de furto). Quanto às desvantagens, ela destaca: ônibus lotados e insegurança. Por ser mulher e precisar sair cedo, ela se sente insegura e lamenta ter que recorrer ao pai, idoso, para levá-la até a estação de metrô.

Isac Rodrigues Cezar – empregado público

Homem segurando uma mala de viagem

Descrição gerada automaticamente com confiança média

– Monociclo e uber

– Trajeto diário: Asa Norte – Setor de Autarquias Sul

O Isac vendeu o carro há dois anos e meio. Ao ver uma pessoa usando monociclo, ficou interessado e passou a usar nos deslocamentos diários. Quando usava carro diariamente, o custo ficava em R$ 1.500 por mês. Ao vender o carro, passou a usar uber e gastava entre R$ 800 e 900.

Com o monociclo o gasto principal é com o seguro anual (R$ 1.200). O custo da energia para recarga é irrisório. Quando chove ou quando busca os filhos na escola, opta pelo uber. Atualmente, o gasto mensal com transporte (uber) caiu para cerca de R$ 250 por mês.

Entre as vantagens do monociclo, ele destaca a economia e a praticidade de levar para qualquer lugar e transportar no carro por aplicativo. Ele leva apenas 20 minutos até o local de trabalho.

Robson Medeiros Alves – repórter cinematográfico

Uma imagem contendo pessoa, homem, vestuário, celular

Descrição gerada automaticamente

– Ônibus BRT

– Trajeto diário: Novo Gama – Setor de Autarquias Sul

O Robson passou a usar o sistema BRT no início da pandemia. Antes ele fazia o trajeto todo (32 km) de carro e, atualmente, ele dirige até a estação do BRT, estaciona e segue de ônibus.

Ele destaca a economia nos trajetos de ida e volta: R$ 11 de ônibus, R$ 50 de carro. O tempo de deslocamento também é menor: cerca de 45 minutos de ônibus e 1h40 de carro. 

Michelle dos Santos Silva Brandão – educadora física

Uma imagem contendo pessoa, criança, pequeno, jovem

Descrição gerada automaticamente

– Metrô e ônibus

– Trajeto diário: Águas Claras – Asa Norte

Motivada pela alta no preço da gasolina, Michelle passou a usar ônibus e metrô alguns dias na semana para ir ao trabalho e para levar os filhos até a escola. No trajeto casa-trabalho, sozinha, gasta cerca de R$ 16 de carro; de ônibus, o custo é de R$ 11.

As vantagens ao usar ônibus e metrô são a economia e não pegar congestionamento. A desvantagem é o tempo no trajeto: de ônibus são 2 horas e de carro seriam 40 minutos no trajeto de ida e volta. O maior tempo no ônibus ou metrô dificulta a rotina de aulas como personal e, às vezes, ela precisa cancelar com alguns alunos.   

Robson Benevides – pintor

Homem de bicicleta com placa na mão

Descrição gerada automaticamente

– Bicicleta

– Trajeto diário: Planaltina – Sobradinho, Asa Norte, Asa Sul

Há dois anos, Robson pensou em usar a bicicleta para ir trabalhar, em vez do carro. Ele estava sem tempo para treinar e, atualmente, aproveita os trajetos diários para se exercitar. Trabalha como pintor (autônomo) e, mesmo quando o serviço é mais longe, vai pedalando. Já fez trajetos longos, de até 80 km (ida e volta), para chegar ao local de serviço. Costuma pedalar pelo menos quatro vezes por semana e só vai de carro quando precisa levar material pesado e máquinas.

A paixão pela bicicleta cresceu e ele se tornou vice-diretor da associação de ciclistas de Planaltina.  Entre as vantagens de pedalar, ele destaca a economia, qualidade de vida e a possibilidade de conhecer locais e pessoas surpreendentes.

Quanto ao custo, a diferença é bem grande. De carro, ele gasta de R$ 50 a R$ 60 por dia. Para pedalar ele gasta R$ 100 com revisão da bicicleta, a cada 3 meses.

Rodrigo Matos de Paula Felix – funcionário de empresa

– Ônibus

– Trajeto diário: Guará 2 – Taguatinga

O Rodrigo mora no Guará 2 e, no mês passado, passou a usar ônibus, em vez do carro, para ir ao trabalho em Taguatinga. O alto preço da gasolina foi a motivação para a mudança: o custo com os trajetos de carro ficou superior ao dobro do valor recebido de vale-transporte.    

No trajeto diário de 30 km (ida e volta) ele gasta cerca de R$ 150 por mês de ônibus. De carro o custo seria de R$ 400, no mínimo. A desvantagem do ônibus é o tempo no deslocamento, de pelo menos uma hora. De carro eram no máximo 20 minutos. De metrô, ele levaria cerca de 30 minutos, mas o custo seria maior, cerca de R$ 250 por mês.  

MAIS INCENTIVOS

Carro na rua de uma cidade

Descrição gerada automaticamente

Corredor do BRT Sul na Estrada Parque Aeroporto (EPAR).

Os exemplos mostram que a mudança é possível. No entanto, incentivos governamentais são importantes para promover a migração do transporte individual motorizado para o transporte coletivo e para a mobilidade ativa. Levantamento recente mostra que Brasília tem a tarifa mais cara de ônibus (R$ 5,50) entre as capitais do país.

O serviço prestado pelas empresas concessionárias não condiz com a alta tarifa e faltam, por exemplo informações sobre linhas e horários nos pontos de embarque. A situação nos terminais de transporte são aquém do desejável, inclusive na rodoviária do Plano Piloto (o terminal mais movimentado, localizado na área central). Nos finais de semana e à noite a frota de ônibus em circulação cai consideravelmente.

Para contornar a situação caótica que se observa – congestionamentos diários e estacionamentos lotados – são necessárias mudanças culturais e de infraestrutura para reduzir a dependência do automóvel e convencer a população a usar outros modos de transporte. Os dados revelam que algo precisa ser feito: a frota motorizada se aproxima de 2 milhões no Distrito Federal1 e o automóvel é o principal meio de transporte no deslocamento para o trabalho (47%), à frente do ônibus (38%)2.

Vale lembrar que a Política Nacional de Mobilidade Urbana estabelece a prioridade para o transporte coletivo e para os modos ativos (não motorizados) de transporte. E o Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU/DF) tem entre os objetivos a redução do transporte individual motorizado, a priorização do transporte coletivo e o estímulo ao transporte ativo (não motorizado).    

Eis algumas ações importantes para promover a mobilidade urbana e a qualidade de vida: a) ampliação das faixas exclusivas de ônibus, das linhas de BRT e do metrô; b) informações aos usuários nos pontos de embarque e terminais; c) maior frequência dos ônibus e do metrô para diminuir a superlotação; d) instalação de bicicletários públicos, inclusive nos terminais de transporte; e) reforma e ampliação de calçadas e ciclovias; f) estacionamento rotativo pago, para desestimular o uso do carro e obter recursos para melhorias na mobilidade.

______________________

1 Segundo o Departamento de Trânsito (Detran/DF), 1 milhão e 920 mil automóveis estão registrados no Distrito Federal.

2 Fonte: Atlas do DF 2020, da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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