Brasilia Para Pessoas

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dezembro
Publicado por Brasília no dia 28 de dezembro de 2021

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Final de ano é propício para fazer um balanço. Costumo analisar a mobilidade na capital federal com base nas observações cotidianas e nas notícias divulgadas. O destaque são as grandes obras voltadas à fluidez motorizada: túneis, viadutos e alargamentos de pistas.

Ampliação da Estrada Parque Aeroporto (EPAR); túnel em Taguatinga; viadutos no Sudoeste, Setor Policial, Riacho Fundo, Recanto das Emas e Itapoã/Paranoá; construção da terceira saída de Águas Claras. Essas são algumas das obras em andamento, anunciadas como se fossem a solução para os graves problemas da mobilidade urbana.

Cidade vista de cima de um carro

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Alargamento de pistas na Estrada Parque Aeroporto (EPAR).

Em maio deste ano foi inaugurado o complexo viário na Saída Norte, com 23 viadutos. Apesar do gasto multimilionário (R$ 220 milhões), o prometido BRT Norte não saiu do papel. O terminal multimodal no final da Asa Norte também ficou só na promessa (projeto antigo, anunciado em governos anteriores).

Notícia recente do Governo do Distrito Federal (GDF) explicita o viés rodoviarista de incentivo ao transporte individual motorizado, ainda predominante: 

Por todo canto do Distrito Federal há um canteiro de obras, muitos deles com construções que impactam o cotidiano do trânsito da capital federal. Em 2021, o Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF) esteve envolvido em grandes obras, como o Complexo Viário Joaquim Roriz, o túnel de Taguatinga e uma série de viadutos, que resolverão os entroncamentos nas principais saídas do DF. Fonte: Agência Brasília, 3/12/2021.

Conjunto de pistas e viadutos construídos no final da Asa Norte (à esquerda). Informe no Instagram, 22/11/2021 (à direita). Fonte: Agência Brasília e DER/DF.

É preciso repensar a cidade, priorizar o transporte coletivo, investir em ruas seguras para pedestres e ciclistas e desestimular o uso do carro. Ou seja, fazer o contrário do que vem sendo feito há décadas no Distrito Federal. Cidades pelo mundo inverteram a lógica rodoviarista e tiveram ganho significativo em mobilidade e qualidade de vida, a exemplo de Amsterdã, Copenhague, Nova York e Paris.1

Reduzir o limite de velocidade, construir e conectar calçadas e ciclovias, cobrar pelo uso das vagas públicas de estacionamento e integrar o sistema de transporte com ônibus modernos, bicicletários, linhas de VLT e metrô são alguns dos passos importantes. Redistribuir o espaço nas vias é outra ação importante. Com muitas vias largas no DF, pode-se ampliar a quantidade de faixas exclusivas de ônibus2 e construir uma rede de caminhos para pedestres e ciclistas sem necessidade de grandes obras.

O Guia Global de Desenho de Ruas é uma boa referência, que deveria ser de amplo conhecimento das autoridades e gestores que lidam com trânsito. A rua multimodal, ilustrada abaixo, demonstra como se pode distribuir de forma justa e sustentável o espaço da via.

Desenho de uma rua: à esquerda, rua pensada apenas para o automóvel; à direita, pensada para os diversos meios de transporte. Guia Global de Desenho de Ruas (NACTO, 2016).

Existem muitas referências em favor de cidades humanizadas, com foco nas pessoas e não nos veículos motorizados. Jane Jacobs (Morte e Vida de Grandes Cidades), Jan Gehl (Cidades para Pessoas), Jaime Lerner (Acupuntura Urbana) e Jeff Speck (Cidade Caminhável) são alguns dos autores. Além dos livros e guias sobre mobilidade urbana, as leis federais e distritais estabelecem a prioridade ao transporte coletivo e à mobilidade ativa, e o desestímulo ao automóvel.

– Projetos e registros na ouvidoria

Neste ano participamos do LabMap (Laboratório de ação direta para a mobilidade a pé), uma iniciativa bem interessante que reuniu 10 grupos de diferentes regiões do país. Elaboramos um projeto de urbanismo tático para viabilizar a travessia de pedestres e ciclistas nas entrequadras do Eixinho. Aplicamos questionários no local e dialogamos com representantes do governo (Administração Regional do Plano Piloto, Detran/DF e Secretaria de Mobilidade) na tentativa de viabilizar a proposta.

Projeto de urbanismo tático no Eixinho: caminho inacessível e inseguro (foto à esquerda) e proposta de intervenção (simulação à direita, por Henrique Jakobi).

Ao longo do ano foram registradas na ouvidoria do GDF várias sugestões de melhoria, tais como: reforma de calçadas, travessia segura para pedestres e ciclistas, construção de ciclovia e bicicletário, fiscalização em locais com infrações frequentes contra quem caminha e pedala. As solicitações deste ano estão reunidas no blog5 e chama atenção a falta de providências para solucionar os problemas relatados. Para exemplificar, as crateras na W3 Norte continuam do mesmo jeito e o risco para atravessar o Eixão e os Eixinhos continua bem alto.

No meu trajeto diário passo pela ciclovia da W4 Norte. Os trechos sem continuidade e a falta de iluminação são alguns dos obstáculos. Em junho fiz um levantamento com fotos6 para apontar os trechos críticos e propor melhorias. Em contato com a Administração Regional do Plano Piloto, consegui marcar uma vistoria de bicicleta junto com um assessor do órgão. Apesar do registro nos órgãos competentes, essa foi mais uma proposta sem providências.

Rodovia com carros

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Proposta de continuidade da ciclovia na W4 Norte, em frente ao UniCEUB. Simulação: Henrique Jakobi.

– Melhorias na acessibilidade

Vale registrar alguns avanços. A Asa Sul tem passado por obras que promovem melhorias para os pedestres. No ano passado o setor hospitalar foi revitalizado e este ano foi concluída a revitalização do Setor de Rádio e TV Sul (SRTVS). Agora pode-se caminhar com facilidade pela região, graças às calçadas reformadas e às faixas elevadas de travessia. Também foram instalados banquinhos e vagas para bicicletas.

Rua de uma cidade

Descrição gerada automaticamente

Calçadas reformadas no Setor de Rádio e TV Sul.

Outro projeto importante que avançou este ano foi a revitalização da W3 Sul. As calçadas do lado 500 e do canteiro central foram reformadas, rampas de acessibilidade foram instaladas. Pedalei ao longo da avenida para testar o canteiro central como alternativa para os ciclistas (vídeo do trajeto). Infelizmente, o potencial da parte central como ciclovia não foi aproveitado.  

Em outubro as bicicletas compartilhadas voltaram a circular em Brasília. Após algum tempo fora de funcionamento (os dois sistemas haviam sido desativados no primeiro semestre de 2020)7, novas estações foram construídas. A previsão é que a empresa TemBici disponibilize, no total, 70 estações e 500 bicicletas no Distrito Federal.

Calçada reformada na W3 Sul e estação de bicicletas compartilhadas.

– Desafios e propostas

Com uma frota motorizada que se aproxima de 2 milhões e com alta dependência do automóvel (47% dos deslocamentos para o trabalho feitos por automóvel)8, a medida aparentemente mais fácil (e certamente mais cara) adotada pelo governo consiste em ampliar pistas e construir túneis e viadutos para acomodar a frota crescente.  

No entanto, a decisão é equivocada e estimula ainda mais o uso do carro. Assim, aumenta-se a poluição do ar, o nível de ruído nas ruas, a devastação e impermeabilização do solo, o sedentarismo, entre outros efeitos negativos.  

Eis algumas propostas que podem promover mobilidade e qualidade de vida:

– Informações em tempo real sobre linhas e horários de ônibus

– Ampliação das faixas exclusivas de ônibus e do metrô

– Construção de linhas de BRT e VLT 

– Criação de linhas de ônibus executivo

– Redução da tarifa do Bilhete Único e criação de passes para fidelizar o usuário (por exemplo, Bilhete Semestral e Anual)

– Integração entre as linhas de ônibus do DF e do Entorno

– Estacionamento rotativo pago (zona azul)

– Bicicletários de integração nos terminais de transporte

– Redução do limite de velocidade9

– Rotas para pedestres e ciclistas, contínuas, arborizadas e iluminadas

_______________________

1 Algumas notícias sobre os investimentos em mobilidade urbana:

https://www.mobilize.org.br/noticias/12731/paris-adota-30-kmh-em-quase-todas-as-ruas.html

Paris adota 30 km/h em (quase) todas as ruas

https://www.mobilize.org.br/noticias/12472/nova-york-vai-tirar-pistas-de-carros-para-criar-ciclovias-em-pontes.html

Nova York vai tirar pistas de carros para criar ciclovias em pontes

2 Atualmente existem apenas 55 km de faixas exclusivas em todo o DF, segundo dados da Secretaria de Mobilidade.

3 A versão em português do Guia Global de Desenho de Ruas está disponível gratuitamente:

4 Mais informações sobre o projeto Brasília anda nos Eixos:

5 Solicitações feitas na ouvidoria do GDF em 2021:

6 A análise da ciclovia na W4 Norte está disponível no link:

https://drive.google.com/file/d/1M6T3sun4IzGO2wD5nZTxygpRZ-fMe7Yp/view

7 Havia dois sistemas em funcionamento: um com estações fixas, operado pela empresa Serttel, e outro sem estações fixas, com bicicletas e patinetes compartilhados (empresa Grow). Os dois sistemas deixaram de funcionar em 2020.

8 Dados da Codeplan (2020).  

9 Muitas vias têm limite de velocidade de 80 km/h e são bastante inseguras para pedestres e ciclistas.  



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Uirá Uirá Lourenço
Morador de Brasília, servidor público, ambientalista e admirador da natureza, Uirá é um batalhador incansável pela melhoria das condições de mobilidade na capital federal. Usa a bicicleta no dia a dia há mais de 25 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa, no Brasil e em outros países. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de um modelo mais humano e saudável de cidade. É voluntário da rede Bike Anjo, colaborador do Mobilize e membro da Rede Urbanidade.
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