Brasilia Para Pessoas

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julho
Publicado por Brasília no dia 09 de julho de 2020

Ciclofaixas podem ser instaladas em todo o DF para conectar as ciclovias e dar segurança aos ciclistas, inclusive no terminal de transporte mais movimentado.

Texto e fotos: Uirá Lourenço | Fotomontagens: Henrique J. Moreira

Ciclofaixa proposta na parte sul da rodoviária.

O cenário atual de pandemia nos faz refletir sobre diversos aspectos, como as novas formas de ensino e trabalho, e também sobre os deslocamos na cidade. Em tempos de pandemia, em que se evita aglomeração, incentivar a mobilidade ativa (a pé, por bicicleta, triciclo, patins e patinete) é uma das ações importantes. Mais pedestres e ciclistas, e menos carros nas ruas. Mais saúde e menos congestionamentos e poluição.

Brasília tem relevo plano e avenidas largas. O potencial para a mobilidade ativa é grande, como revela a quantidade de pessoas no Eixão e na W3 Sul aos domingos. As pistas congestionadas nos dias de semana se convertem num parque ao ar livre, com milhares de pessoas que se divertem e se exercitam. Por que não viabilizar que uma quantidade expressiva de pessoas caminhe e pedale nos dias de semana, nos trajetos para a escola e trabalho?   

Apesar de possuir quantidade significativa de ciclovias em relação a outras capitais brasileiras (554 km, segundo a Secretaria de Mobilidade), existem problemas no caminho. Um dos principais problemas são as ciclovias sem conexão, que terminam de repente e deixam o ciclista sem opção segura de caminho. 

Interrogação pintada questiona a continuidade da ciclovia na W4 Norte.        

O objetivo desse texto é destacar a possibilidade de incentivar o uso de bicicleta com infraestrutura de qualidade, por meio de ciclofaixas que interligam os caminhos existentes1. Com a ajuda do designer Henrique J. Moreira, de Curitiba/PR, foram elaboradas propostas de rotas para os ciclistas (fotomontagens). De forma barata e rápida – com sinalização e separadores de tráfego – é possível interligar os fragmentos de ciclovia e progressivamente criar uma rede conectada de caminhos.

– Ciclofaixas na Rodoviária 

A rodoviária do Plano Piloto, principal terminal de transporte no Distrito Federal, apresenta graves deficiências para pedestres e ciclistas: calçadas destruídas e sem rampas, ausência de ciclovia e de bicicletário.2 Com pouco recurso – e com vontade política – dá para melhorar muito as condições para os ciclistas. Ciclofaixas podem ser instaladas na rodoviária para fazer a interligação das ciclovias ao longo do Eixo Monumental e da Esplanada dos Ministérios.  

A rodoviária é o primeiro dos locais onde se propõe ciclofaixa. A grande movimentação diária (cerca de 700 mil pessoas) no terminal de onde partem linhas de ônibus e metrô e as condições precárias de acesso justificam os investimentos voltados aos ciclistas. E ainda há um fator adicional: o fato de estar no início da Esplanada dos Ministérios. Boas intervenções para a mobilidade ativa na área central podem servir de vitrine para outros locais do Distrito Federal e mesmo para outras cidades. 

A proposta inclui as partes norte e sul da rodoviária, com ciclofaixas por dentro do terminal, num trajeto similar às ciclofaixas que já existiram e ficaram sem manutenção. A primeira fotomontagem (no alto do texto) mostra como seria a ciclofaixa na parte sul. Na parte norte, outra ciclofaixa também foi proposta (imagem abaixo). As ciclofaixas teriam pintura específica e delimitação com prismas para evitar a invasão do espaço por veículos motorizados. Os cruzamentos receberiam pintura vermelha de destaque e suportes para bicicletas (paraciclos) facilitariam o estacionamento.

Proposta de ciclofaixa e paraciclos na parte norte da rodoviária.

– Travessia segura 

Além das ciclofaixas, propomos também intervenções nos locais de travessia, em particular na parte sul. Atualmente, os pedestres e ciclistas não possuem local seguro e precisam correr ao surgir uma brecha no fluxo de carros e ônibus que fazem a conversão em alta velocidade (o vídeo ao final mostra o alto risco na travessia). Para aumentar a segurança, propõem-se o afunilamento das pistas, a redução dos raios de curva, travessia elevada e sinalização específica.

Alterações propostas para garantir travessia segura na Esplanada dos Ministérios (via S1). 

Esta é a primeira proposta de melhorias aos ciclistas com fotomontagens.3 O trabalho em parceria (conexão Brasília-Curitiba) rendeu ciclofaixas em mais três locais de Brasília. Nos próximos textos do blog as outras ciclofaixas serão apresentadas. Sonhemos com uma Brasília em que as pessoas possam deixar o carro em casa e se deslocar a pé, de bicicleta e outros modos saudáveis de transporte. Quem sabe as autoridades de trânsito se convencem de que as propostas são possíveis e necessárias.

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1 As ciclofaixas se diferem das ciclovias por não serem totalmente segregadas do fluxo motorizado. As ciclofaixas são instaladas no mesmo espaço do fluxo motorizado e se diferenciam por meio de sinalização (pintura e placas) e elementos de separação (por exemplo, prismas ou tachões). 

2 As condições precárias foram atestadas em vistoria realizada pela Rede Urbanidade (apoiada pelo Ministério Público – MPDFT – e composta por ativistas e estudiosos da mobilidade urbana) em fevereiro e resultaram na Ação Civil Pública para exigir melhores condições para pedestres e ciclistas. Relato no blog sobre a decisão judicial (clique para acessar). 

3 O conjunto completo de fotomontagens e detalhes técnicos sobre as ciclofaixas e intervenções propostas na rodoviária foram reunidos pelo Henrique (clique para acessar). 

– VÍDEO – Esplanada dos Ministérios e Rodoviária

– ÁLBUM – Rodoviária

Imagens das condições para os pedestres e ciclistas no principal terminal de transporte do DF.



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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