Brasilia Para Pessoas

17
julho
Publicado por Brasília no dia 17 de julho de 2020

Infraestrutura simples e de baixo custo pode incentivar o uso da bicicleta e promover a conexão das ciclovias existentes.

Texto e fotos: Uirá Lourenço | Fotomontagens: Henrique J. Moreira

Ciclofaixa proposta no setor médico-hospitalar, na Asa Norte.

O texto anterior apresentou a proposta de ciclofaixa na rodoviária do Plano Piloto. Agora apresentamos a proposta de ciclofaixa em outros três locais de Brasília. O objetivo é incentivar o uso da bicicleta com caminhos seguros, de fácil implantação e que promovam a conexão com ciclovias existentes

Os locais foram escolhidos em particular por três motivos: movimento de pessoas (grande atração de público), possibilidade de conexão com ciclovias existentes e aproveitamento do espaço na via (estacionamento irregular). Os locais são: via de acesso aos prédios anexos da Esplanada dos Ministérios; via de acesso à Câmara Legislativa; setor médico-hospitalar.

Esse período de pandemia é favorável a mudanças com foco na mobilidade ativa e diversas cidades do exterior vêm promovendo melhorias (por exemplo, ampliação de calçadas e ciclovias, redução da velocidade) para desafogar o transporte coletivo e evitar o caos no pós-pandemia em razão do possível aumento no uso do carro.1 

– Anexo da Esplanada 

Ciclofaixa proposta: trecho em frente ao Anexo IV da Câmara dos Deputados. 

A Esplanada dos Ministérios abriga muitos órgãos do governo federal. Além dos prédios principais, vários anexos estão instalados nas vias paralelas (N2 e S2). Essas vias servem de acesso ao Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal (STF), Tribunal de Contas da União (TCU) e Procuradoria-Geral da República (PGR). As fotomontagens ilustram mudanças na parte sul (via S2), que poderiam ser instaladas também na parte norte (via N2).

Trecho da ciclofaixa em frente ao TCU.

Atualmente não existe qualquer espaço demarcado para os ciclistas e ambos os lados da via são ocupados por carros estacionados, mesmo em locais expressamente proibidos. A grande dependência do automóvel é visível em imagem de satélite, que revela a grande área ocupada pelos carros, nos estacionamentos e em locais proibidos (canteiros e calçadas) ao longo da Esplanada dos Ministérios.  

O caminho proposto (ilustrado no mapa) tem 2,3 km de extensão e ligaria a L2 – onde existe ciclovia – à L4 Sul. A ciclofaixa seria bidirecional, em um dos lados da via. Na demarcação do espaço seriam utilizadores separadores (prismas).   

Carros estacionados irregularmente na via S2. 

Mapa com a ciclofaixa proposta – conexão segura entre as vias L2 e L4.

– Arredores da CLDF e do TJDFT

Essa ciclofaixa seria instalada na via paralela ao Eixo Monumental, que dá acesso à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Assim, os ciclistas teriam caminho seguro por meio de intervenção simples (sinalização e delimitação do espaço). Com 600 metros de ciclofaixa seria possível interligar a ciclovia existente no bairro Sudoeste ao Parque da Cidade.

O cenário ‘normal’ em dias de semana é de caos. Muitos motoristas estacionam em ambos os lados da via, mesmo com placas que estabelecem a proibição. Até a rampa de acessibilidade na frente da CLDF costuma ser bloqueada.   

Carros por todos os lados na via que passa pela CLDF. 

São dois trechos de ciclofaixa: na via que passa pela CLDF e no espaço em frente ao Tribunal de Justiça (TJDFT). O mapa com a proposta mostra a possibilidade de implantar o mesmo modelo nas outras vias do Setor de Indústrias Gráficas (SIG). A conexão com a ciclovia da EPIG – que termina de forma abrupta no canteiro – pode ser viabilizada posteriormente. Vale destacar que já existem alguns paraciclos (vagas para bicicletas) na região. 

Trecho da ciclofaixa próximo ao Tribunal de Justiça (TJDFT).

Ciclofaixas na região fariam a conexão entre ciclovias já existentes. 

– Setor Médico-Hospitalar

Ciclofaixa bidirecional no setor médico-hospitalar.

No início da Asa Norte, próximo ao hospital regional (HRAN), pode-se instalar ciclofaixa para viabilizar trajeto seguro onde atualmente muitos carros ficam estacionados irregularmente. Na região há muitos prédios comerciais (clínicas e lojas, além do Liberty Mall) e as condições para pedestres e ciclistas são muito ruins. A imagem acima e a imagem de abertura do texto ilustram as ciclofaixas propostas.

Carros por todos os lados, inclusive em locais proibidos.

As duas ciclofaixas propostas na região, com cerca de 1 km de extensão, fariam a conexão com a ciclovia da N1, com a W3 Norte e ainda com a passagem subterrânea do Eixão (102 Norte). Apresentamos ainda proposta de travessia segura na altura da rotatória, onde a ciclofaixa se conecta com a ciclovia da N1. Além da pintura vermelha, a elevação da travessia aumenta a segurança ao forçar a redução de velocidade dos motoristas.  

Melhorias nas proximidades da rotatória – conexão entre ciclofaixa e ciclovia da N1.

Mapa com as ciclofaixas propostas no setor médico-hospitalar. 

Uma cidade mais saudável e atrativa para os ciclistas é possível. Como demonstram as três propostas, é possível reorganizar o espaço viário para incentivar a mobilidade ativa e, ao mesmo tempo, coibir o estacionamento irregular. Com a instalação progressiva de ciclofaixas, uma rede cicloviária enfim poderá se tornar realidade. E medidas complementares podem contribuir bastante para incentivar que mais pessoas usem a bicicleta como meio de transporte: redução do limite de velocidade e criação de zonas 30; estacionamento rotativo pago (‘zona azul’); criação de travessias elevadas para pedestres e ciclistas, campanhas educativas sobre as vantagens da mobilidade ativa; fiscalização para coibir as infrações contra ciclistas.   

É importante destacar que ciclovias e ciclofaixas ajudam não apenas os ciclistas, mas também cadeirantes (que muitas vezes não têm calçadas acessíveis), usuários de patinete, skate e patins. Ou seja, se forem implantadas, as melhorias ajudarão a democratizar o acesso à cidade.   

_____________________________________________

1 Cidades como Berlim, Bogotá, Londres, Milão e Paris têm promovido melhorias na mobilidade ativa no período de pandemia. O blog reúne notícias sobre tais iniciativas: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/mobilidade-e-pandemia/

2 O mapa com os traçados das ciclofaixas propostas e com fotos da situação atual estão disponíveis (clique para acessar).

3 Detalhes técnicos das propostas podem ser consultados neste documento (clique para acessar). 

VÍDEOS:

– Mobilidade Saudável em Brasília

De bicicleta com as crianças para a escola



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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