Brasilia Para Pessoas

14
junho
Publicado por Brasília no dia 14 de junho de 2020

Texto e fotos: Uirá Lourenço 

No dia 15 de maio passei de bicicleta no final da Asa Norte. O Governo do Distrito Federal (GDF) havia liberado novas pistas na ponte do Bragueto no dia 11 de maio. O que mais chama atenção é a contradição entre o amplo espaço para o transporte motorizado (14 pistas e vários acessos) e a ausência total de infraestrutura para quem se desloca sem carro.

Faltam calçadas, ciclovias e pontos de travessia na região do Trevo de Triagem Norte (TTN). E os pontos de ônibus nas proximidades continuam precários, não passaram por qualquer reforma. Há um trecho de ciclovia não concluído, sobre a ponte, e os ciclistas precisam dividir espaço com os motoristas em alta velocidade. Não é à toa que os poucos ciclistas que passam pelo local têm perfil bem definido: jovens do sexo masculino. Precisa ter coragem e vigor físico para encarar o ambiente hostil! O recente atropelamento (5/5) de dois ciclistas na região demonstra o alto risco. 

Gravei vídeo no final do Eixão Norte para mostrar o descaso com quem passa a pé, de bicicleta ou ônibus. No período de isolamento social o contraste é ainda mais evidente. As muitas pistas estão vazias e a distribuição do espaço viário é altamente injusta: o automóvel saiu ganhando e se perdeu a oportunidade de investir num sistema moderno de transporte, plural e integrado.  

Ponto de ônibus sem reforma na região.

Pedestres em alto risco próximo à ponte do Bragueto.

– “Maior obra viária na história do DF” 

Obras da Saída Norte. Fonte: Agência Brasília – 27/9/2019.

As obras no norte do Distrito Federal fazem parte do projeto grandioso e caro (custo inicial de cerca de R$ 207 milhões) para construir muitas pistas, túneis e viadutos. A ampliação viária da Saída Norte inclui o final da Asa Norte e o trajeto até Sobradinho. Os anúncios governamentais ao longo dos anos destacam os benefícios aos motoristas. 

Anúncio do GDF ressalta os inúmeros viadutos na região norte. 

É curioso notar que os projetos rodoviaristas de incentivo ao uso do carro são pluripartidários e se prolongam por governos de diferentes partidos. O TTN – que prefiro chamar de Terrível Trevo Norte – demonstra bem isso: a licitação do projeto ocorreu em 2009 (governo Arruda – DEM), o início das obras em 2014 (governo Agnelo – PT). As obras foram paralisadas e depois retomadas em 2016 no governo Rollemberg (PSB). No atual governo Ibaneis (MDB), as obras seguem em ritmo acelerado e praticamente concluídas (segundo notícia do GDF, 98% dos serviços foram realizados). 

O governador Rollemberg, que tinha um programa de governo com capítulo dedicado à mobilidade, afirmou em 2017 que o TTN era a ‘maior obra viária desde Juscelino Kubitschek’, com 26 pontes, viadutos e acessos. E ainda acrescentou, orgulhoso: “Nenhum outro governo fez tantas pontes e viadutos”. 

Melhorias no transporte coletivo já foram anunciadas, como o BRT Norte e o Terminal de Integração Multimodal Asa Norte (TAN), mas ficaram só na promessa. O sistema BRT daria agilidade aos ônibus e o novo terminal faria a integração entre linhas de ônibus e VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). O mapa do programa Circula Brasília, anunciado em 2016, mostra a rede de terminais e de linhas previstas de BRT, metrô e VLT. 

Sistema integrado com BRT, metrô, VLT e terminais de integração. Fonte: Circula Brasília (2016).

– Mobilidade durante e após a Pandemia

Desde o início da pandemia se observam ações em diversas cidades do exterior para incentivar os deslocamentos a pé e por bicicleta. O objetivo é evitar aglomeração no transporte coletivo sem promover o caos urbano em razão do aumento no uso do carro. 

As iniciativas incluem ampliação de calçadas e ciclovias, redução do limite de velocidade e maior restrição aos motoristas. Bogotá aumentou a quantidade de ciclofaixas. Na França, o governo pretende ampliar estacionamentos e vias para bicicletas, e o cidadão tem direito a vale de 50 euros para conserto da bicicleta. Em Londres, as ações incluem a conversão de pistas e estacionamentos em espaço para pedestres e ciclistas, além do aumento no valor do pedágio urbano (valor que os motoristas pagam para entrar na área central). 

Criação de espaço para pedestres e ciclistas em Rancagua (Chile). Fonte: IFPedestrians/instagram, 20/5/2020.

Mais uma vez a capital federal ‘moderna’ perde o bonde da história, desperdiça a oportunidade de planejar e executar bons projetos que melhoram a mobilidade e a qualidade de vida. Ampliar pistas e construir viadutos para solucionar a mobilidade é como afrouxar o cinto para tratar a obesidade. 

Considerando a entrega das novas pistas no ‘Terrível Trevo’ sem qualquer consideração com quem se desloca sem carro, e ainda as propostas anunciadas no início do ano (alargamentos de pistas e viadutos em todo o DF), o atual governo vai superar o antecessor na quantidade de túneis e viadutos inaugurados. Será que um dia a ficha vai cair e nossas autoridades vão se dar conta dos equívocos de pensar a cidade apenas para os carros?!

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O blog possui seção específica que reúne dados e imagens do projeto TTN: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/norte-do-df-ttn/ 

ÁLBUM 

Imagens do TTN em maio/2020 (clique na imagem para conferir).

VÍDEOS

Vídeos gravados no final do Eixão Norte em 2020.

Carta Aberta às Autoridades no DF

Documento elaborado pela Rede Urbanidade, com sugestões para melhorar a mobilidade durante e após a pandemia.

Disponível no portal Mobilize: 

https://www.mobilize.org.br/noticias/12096/no-df-manifesto-sugere-mobilidade-humanizada-no-poscovid-19.html



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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