Brasilia Para Pessoas

22
junho
Publicado por Brasília no dia 22 de junho de 2020

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Um dia marcante. Andar pela W3 calmamente, ao som dos pássaros, é uma experiência única1. Sem o ronco dos motores podia-se ouvir até a conversa das famílias que passeavam. Pessoas de todas as idades caminhavam, pedalavam e descobriam uma cidade bem diferente.

Os diálogos que ouvi sem esforço (que delícia o silêncio na avenida!) me deixaram otimista:

“Esse é um dia histórico. Precisava vir caminhar na W3.” 

Conversa entre duas moças que acabavam de se encontrar

“Mãe, quero uma bicicleta para vir andar aqui. Na pandemia as pessoas têm que sair de bicicleta e não de carro.”

Menina com cerca de 4 anos 

“Esse é o ponto de ônibus onde mataram o índio.”

Pai mostrava aos filhos enquanto passavam de bicicleta pela Praça do Compromisso

Fiquei um bom tempo parado, apenas observando o movimento de pessoas. Grupos com crianças saíam das casas voltadas para a W3 e ocupavam as pistas liberadas. A badalada do sino da igreja Dom Bosco parecia um sinal de despertar. Os moradores entenderam o recado: precisamos de mais espaço para as pessoas.

E nem havia grandes atrações, apenas o asfalto liberado. Fico imaginando quando a pandemia passar e as opções de lazer e comércio aumentarem: pula-pula, aluguel de bicicletas e triciclos, água de coco e lanches, pontos de descanso e leitura, palhaços e teatro para crianças.

Enquanto observava o movimento, me vinham à mente frases da Jane Jacobs2: o balé dos pedestres e a importância dos olhos na cidade. Aliás, uma cena que presenciei parecia tirada do livro. Uma mulher com quatro crianças (de bicicleta e patinete) se aproximava de uma casa na avenida. Falou que estavam com sede e queriam um copo de água. O morador respondeu prontamente da janela e disse que levaria água e refrigerante.

O sonho de uma cidade humanizada se renovou ao caminhar e observar a avenida apropriada pelas pessoas. A ideia de que basta dar espaço (por exemplo, liberar pistas e construir calçada ou ciclovia) e as pessoas aparecem se confirmou ontem. Não vejo a hora de a pandemia passar e ver ainda mais gente. 

Serei frequentador assíduo e sairei com a família da Asa Norte para me divertir na W3 Sul sem carros e explorar os espaços culturais próximos, incluindo o Cine Brasília, o espaço Renato Russo, a Biblioteca Demonstrativa e a quadra modelo (308 Sul).

________________________

1 No dia 11/6/2020 a W3 Sul abriu pela primeira vez para as pessoas, a exemplo do Eixão do Lazer. A circulação de carros e ônibus foi proibida da quadra 502 até a 516 Sul. Apenas carros de moradores da região podiam acessar a via por uma faixa delimitada por cones. A decisão do GDF de abrir a W3 para o lazer se deu pelo Decreto n° 40.877, publicado em 9/6/2020.

2 Jane Jacobs lançou o livro Morte e Vida de Grandes Cidades em 1961 com base nas observações e caminhadas. Criticou fortemente o modelo de cidade voltado ao automóvel que se consolidava nas cidades dos Estados Unidos. O livro é uma grande referência para os que pensam a cidade e lutam por ambientes humanizados. 

– VÍDEO – W3 Sul do Lazer 

– W3 moderna e acessível

Texto com propostas para tornar a W3 humanizada:

Imagem que simboliza a W3 moderna. Mobilize.



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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