Brasilia Para Pessoas

18
novembro
Publicado por Brasília no dia 18 de novembro de 2020

Homem ao lado de bicicleta

Descrição gerada automaticamente

A capital federal tem grande potencial para os modos ativos (não motorizados) de transporte. Relevo plano, período longo de estiagem, vários grupos de ciclismo, quantidade significativa de vias para ciclistas (553 km, segundo dados da Secretaria de Mobilidade do DF) e venda aquecida de bicicletas são fatores favoráveis para se promover o pedal nos deslocamentos diários.

No período de pandemia, cidades do mundo inteiro incentivam que as pessoas caminhem e pedalem mais. Ampliação de calçadas e ciclovias, restrição do automóvel em determinadas vias e redução do limite de velocidade são algumas das medidas adotadas. Assim, promove-se atividade física e reduz-se o risco de contágio no transporte coletivo. Em Lisboa e Paris há inclusive o ‘vale-bike’, valor ofertado ao morador para comprar ou reformar a bicicleta.

Há aspectos negativos em Brasília que inibem os ciclistas, especialmente os iniciantes. A alta velocidade nas vias e a falta de continuidade de ciclovias e ciclofaixas certamente dificultam o percurso. A seguir, algumas propostas para humanizar a cidade e impulsionar o uso da bike (também conhecida como camelo). Brasília pode e deve ser uma referência de mobilidade para outras capitais.   

1) Redução da Velocidade

Em muitas vias de Brasília o limite é altíssimo e chega a 80 km/h, como no Eixão e na L4. Longe dos radares muitos motoristas passam dos 100 km/h. A alta velocidade dificulta a travessia de pedestres e ciclistas e inviabiliza o compartilhamento seguro da pista. Quem já caminhou próximo de carros em alta velocidade conhece bem o desconforto.

Cidades modernas pelo mundo reduzem a velocidade nas pistas para aumentar a segurança no trânsito. Com menor velocidade, aumenta o tempo de resposta do motorista e o risco de ferimento ou morte reduz drasticamente em caso de atropelamento ou colisão. Em suma, todos são beneficiados: pedestres, ciclistas e motoristas.

Zona 30 (baixa velocidade): tendência em cidades da Europa. Berlim (à esquerda) e Amsterdã (à direita).

As autoridades de trânsito no DF precisam dar resposta aos atropelamentos e mortes de ciclistas. Este ano já ocorreram 13 mortes e a alta velocidade é um fator comum nas tragédias. Os órgãos de trânsito, incluindo Detran e DER, precisam analisar os detalhes das ocorrências e propor medidas para aumentar a segurança.

2) Ciclovia/Calçadão na W3 e no Eixão

Pessoas andando em calçada perto de árvore

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Proposta de boulevard na W3. Imagem: Mobilize.

Vias importantes da cidade não oferecem condições mínimas aos ciclistas. Propõe-se a criação de espaço para caminhar e pedalar ao longo de toda a W3 e do Eixão. A revitalização da W3 Sul, iniciada pelo atual governo, é uma oportunidade para viabilizar o uso do canteiro central por pedestres e ciclistas.

Com reforma do piso e construção de rampas, pode-se garantir um caminho arborizado (boulevard) contínuo em toda a W3 (Norte e Sul). No trajeto de bicicleta pela W3 Sul em obras (vídeo do percurso), percebe-se a viabilidade da proposta.

Ao longo do Eixão também se pode garantir caminho seguro para os ciclistas. Uma possibilidade é aproveitar o canteiro do Eixinho, já utilizado por pedestres e ciclistas. Seria um avanço e tanto ter uma ciclovia expressa, de ponta a ponta (Asa Norte e Asa Sul).

Canteiro do Eixinho (Eixo W Norte) utilizado por pedestres e ciclistas.

Ciclovias em avenidas centrais incentivam o uso da bicicleta e são um símbolo para a população da mobilidade desejável. Em São Paulo, a construção de ciclovias na avenida Paulista e na avenida Faria Lima impulsionou o uso dos modos ativos e se observam congestionamentos de ciclistas em alguns horários.

3) Travessia segura do Eixão – Tesourinhas

Uma imagem contendo ao ar livre, estrada, rua, placa

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Tesourinha liberada após reforma.

A travessia do Eixão é um desafio para quem caminha e pedala. Muitos ciclistas fazem a travessia pelas tesourinhas (passagens para os motoristas), mas o fluxo motorizado intenso e o espaço estreito comprometem a segurança.

A reforma das tesourinhas, cujas obras estão em andamento, seria uma grande oportunidade de humanização desses espaços, de forma a viabilizar a travessia segura dos ciclistas. Com redutores de velocidade, sinalização (horizontal e vertical) e campanhas educativas, pode-se garantir bom compartilhamento entre ciclistas e motoristas.

Ciclistas utilizam as tesourinhas na travessia do Eixão.

Vale lembrar que as passagens subterrâneas estão em péssimo estado (sujeira, piso destruído e insegurança) e são evitadas por pedestres e ciclistas, especialmente à noite.

4) Ciclofaixas para conexão dos caminhos

Placa de sinalização na estrada

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Apesar dos 553 km de ciclovias e ciclofaixas, são muitos os desafios para pedalar. A falta de conexão das ciclovias é um dos principais problemas. E não é por falta de espaço ou de recursos que persistem os fragmentos cicloviários.   

Em junho e julho deste ano apresentamos ao GDF a proposta de ciclofaixas em quatro locais: rodoviária do Plano Piloto, setor médico-hospitalar, SIG e na via S2. Essas ciclofaixas teriam um custo muito baixo, aproveitariam espaço mal utilizado (estacionamento irregular) e trariam segurança e conforto aos ciclistas.

Uma imagem contendo ao ar livre, estrada, edifício, carro

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Proposta de ciclofaixa para conectar ciclovias – Setor de Indústrias Gráficas (SIG).

O modelo proposto pode ser utilizado em todo o DF para conectar ciclovias existentes. Os detalhes da proposta foram registrados na ouvidoria do GDF e estão disponíveis no blog (clique para conferir).

5) Vagas para Ciclistas

Bicicleta parada ao lado de moto

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O Distrito Federal tem duas leis específicas que exigem a instalação de vagas para os ciclistas: leis n° 4.423/2009 e 4.800/2012. No entanto, muitas vezes é difícil achar um local apropriado para as bicicletas.

Na rodoviária do Plano Piloto e em muitas estações de metrô faltam locais de parada. Nas quadras residenciais e comerciais também é raro encontrar vagas para ciclistas. Há bons exemplos a seguir. Muitos centros comerciais de Brasília já oferecem bicicletários cobertos, gratuitos e com controle de acesso.

Bicicletários cobertos e com controle de acesso no Venâncio 2000 e no Conjunto Nacional.

O manual da UCB (União de Ciclistas do Brasil) é uma boa referência na instalação de vagas para os ciclistas (clique para acessar).   

6) Ações educativas

Pessoas andando de motocicleta na rua

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Além de boa infraestrutura para a mobilidade ativa (caminhos contínuos, confortáveis e seguros), é importante reforçar a cultura da boa convivência nas ruas, com respeito e atenção aos mais vulneráveis: pedestres e ciclistas.

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) protege os ciclistas. É importante frisar a distância mínima (1,5 metro) e a necessidade de reduzir a velocidade ao ultrapassar o ciclista.

Os órgãos de trânsito devem manter campanhas permanentes voltadas aos motoristas, com anúncios nos meios de comunicação. O vídeo produzido pelo Detran do Espírito Santo reforça o bom compartilhamento nas ruas. O histórico de Brasília – respeito do pedestre na faixa de travessia – revela que ações educativas podem mudar o comportamento no trânsito.

Propõe-se ainda o curso Perca o Medo de Pedalar, com parte teórica e prática, para incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte. Há muitos anos, o Detran/DF oferece o curso gratuito Perca o medo de dirigir.  

___________________________________

Temos material completo com mais imagens e detalhes das propostas. O documento em formato de apresentação está acessível (clique aqui).

No dia 15/9/2020 levamos à Secretaria de Esporte do DF propostas de melhorias aos ciclistas. Esperamos ser ouvidos por outros órgãos do GDF e, assim, sensibilizar os gestores públicos sobre a importância de priorizar a segurança no trânsito e humanizar a cidade.  



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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