Brasilia Para Pessoas

02
dezembro
Publicado por Brasília no dia 02 de dezembro de 2020

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Pista de corrida

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No final da Asa Norte, a grande obra do Trevo de Triagem Norte (também conhecido como Terrível Trevo Norte) foi concluída. Na última etapa, o Governo do Distrito Federal (GDF) sinalizou e entregou as ciclovias. Há alguns bons caminhos para os ciclistas, mas velhos problemas persistem, como descontinuidade das ciclovias, travessias perigosas para pedestres e ciclistas, alto limite de velocidade, falta de iluminação e o descaso com quem usa o transporte coletivo.

No dia 21 de novembro (sábado) fizemos vistoria no local, pela Rede Urbanidade. Percorremos de bicicleta boa parte da região em volta da ponte do Bragueto. É importante relembrar que, junto com a ligação Torto-Colorado, o projeto TTN compõe o conjunto de obras viárias (novas pistas, túneis e viadutos) da Saída Norte, com custo inicial de R$ 207 milhões e o objetivo de aumentar a fluidez motorizada (o blog tem seção específica com detalhes da proposta).  

Grupo de pessoas em cima de bicicleta

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Membros da Rede Urbanidade participaram da vistoria no dia 21/11.

O piso em boas condições, a sinalização (com pintura em muitos cruzamentos) e a bela paisagem são pontos positivos no percurso. Abaixo destaco os pontos críticos que comprometem a segurança e o conforto dos que se deslocam sem carro no final da Asa Norte.

– Fragmentos de Ciclovia

A exemplo do que ocorre em outras regiões do Distrito Federal, existem trechos de ciclovia que não se conectam. Os ciclistas são obrigados a compartilhar espaço com os motoristas em alta velocidade.

a) Ausência de ciclovia no sentido Asa Norte

Para quem pedala sentido Sobradinho – Asa Norte não existe opção segura de caminho. E não é por falta de espaço que falta ciclovia, afinal existem cinco pistas para o fluxo motorizado na chegada à ponte do Bragueto.

Pessoas de bicicleta na grama

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Ciclistas saem da ciclovia para seguir sentido Asa Norte.

Uma imagem contendo ao ar livre, estrada, rua, carro

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Grupo de ciclistas disputa espaço com os motoristas.

b) Falta de ligação no Eixinho

As ciclovias nas proximidades da ponte do Bragueto terminam subitamente no final do Eixinho. Ou seja, falta caminho seguro até a área central de Brasília. Pode-se garantir a continuidade por meio de ciclovia na parte central do Eixinho, já utilizada por pedestres e ciclistas.

Uma imagem contendo grama, ao ar livre, estrada, rua

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Término repentino da ciclovia na quadra 116 Norte (Eixinho W).

c) Falta de ligação entre a W3 Norte e outras vias da região

Não há caminhos seguros entre o final da W3 Norte e as proximidades da ponte do Bragueto. Apesar de a região possuir locais com grande atração de pessoas – supermercados, centros comerciais, clínicas e hospitais – pedestres e ciclistas têm grandes obstáculos para acessar tais locais.

Uma imagem contendo ao ar livre, placa, grama, estrada

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No final da W3 Norte, próximo ao setor hospitalar, falta caminho para pedestres e ciclistas.

Rua com carros

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Estrada com carros

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Via entre a W3 e a L4 Norte sem espaço para ciclistas.

d) Descontinuidade no acesso ao Lago Norte

Na ciclovia que margeia o lago Paranoá falta conexão segura até o Lago Norte. Os ciclistas precisam seguir caminho pela terra ou dividir espaço com o fluxo veloz de carros.

Ausência de ciclovia no acesso ao Lago Norte.

Rua com carros e pessoas

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Alto risco para ciclistas no acesso ao Lago Norte.

e) Descontinuidade no início do Lago Norte

Na via principal do Lago Norte a situação é bem complicada para quem passa de bicicleta. A ciclovia construída e pintada recentemente termina de repente e os ciclistas não têm opção segura de caminho.

Homem andando de bicicleta na rua

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Término da ciclovia no início do Lago Norte.

Ciclistas se arriscam entre os carros em alta velocidade no Lago Norte.

– Travessias arriscadas

Existem vários pontos de alto risco na travessia, para pedestres e ciclistas, situação agravada pelo excesso de velocidade e fluxo intenso de automóveis.

Na altura da ponte do Bragueto e nas proximidades da ponte faltam pontos de travessia. No Eixão, altura da 116 e 216 Norte, há fluxo significativo de pedestres que fazem a travessia e precisam correr entre os carros em alta velocidade. Os caminhos feitos pelos pedestres estão demarcados no canteiro.

Caminho no meio da rua

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Pedestres se arriscam na travessia da 116/216 Norte.

Outro ponto de grande risco é a travessia no início do Lago Norte. A ciclovia termina e não há qualquer sinalização (horizontal e vertical) na travessia. O fluxo intenso de carros na região obriga os ciclistas a esperarem por muito tempo e a se arriscarem.

Pessoa de bicicleta na estrada

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Travessia de alto risco no início do Lago Norte.

– Sufoco para pegar ônibus

Apesar da obra grandiosa e cara, não se nota qualquer melhoria aos sofridos usuários do transporte coletivo. Os pontos de embarque e desembarque continuam precários, sem informações sobre linhas e horários de ônibus.

Pontos de ônibus na região do TTN.

Não se nota prioridade aos ônibus na via, e o projeto BRT Norte ficou apenas na promessa. O Terminal Multimodal da Asa Norte (TAN), que faria a integração entre ônibus e VLT, é outra promessa distante. A proposta de rede integrada de ônibus, VLT e metrô costuma ser reiterada a cada novo governo. No Setor Terminal Norte se observa apenas um grande estacionamento de ônibus, bem diferente do que seria um terminal moderno. 

Diagrama, Mapa

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Promessa de rede integrada – VLT, BRT e metrô. Secretaria de Mobilidade, 2016.

– Cidade humanizada, com sistema integrado

A tendência atual nas cidades modernas é priorizar os modos ativos e coletivos de transporte, e desestimular o uso do automóvel. Com menos carros em circulação, evitam-se poluição, congestionamentos e estacionamentos abarrotados. Prioriza-se a segurança no trânsito em vez da fluidez motorizada. 

Mas a lógica do TTN é oposta e contribui para aumentar o caos urbano. Desde a concepção até a efetiva conclusão, o projeto passou por quatro governos. A infinidade de pistas na região da ponte do Bragueto resultou em grande devastação e impermeabilização às margens do lago Paranoá.

A comparação das imagens aéreas não deixa dúvidas: apesar das boas leis da mobilidade (federais e distritais), aqui os gestores públicos ainda acreditam que a modernidade se resume a construir pistas, túneis e viadutos. Como disse o então governador Rollemberg em 2017, ao retomar as obras do TTN: “Nenhum outro governo fez tantas pontes e viadutos”.

Uma imagem contendo edifício, circuito, estrada

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Uma imagem contendo edifício, estrada

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Imagens do final do Eixão Norte – 2010 (acima) e 2020 (abaixo).

Fico imaginando a revolução na mobilidade que daria para fazer com os mais de R$ 200 milhões da Saída Norte. Certamente daria para construir e reformar muitas calçadas e ciclovias, instalar pontos de embarque confortáveis – com informações sobre as linhas de ônibus em tempo real – e criar faixas exclusivas para o transporte coletivo.

VÍDEOS

Ao longo dos anos, gravei vídeos no final do Eixão Norte. Abaixo, os vídeos mais recentes, gravados na vistoria (21/11) e alguns anteriores que mostram as condições para quem se desloca sem carro. 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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