Brasilia Para Pessoas

22
junho
Publicado por Brasília no dia 22 de junho de 2022

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Para continuar a série de textos sobre o rodoviarismo (ações governamentais de incentivo ao automóvel), gostaria de comentar sobre a situação no final da Asa Norte, na ponte do Bragueto. Passo pelo local de bicicleta e observo há alguns anos.

Passar a pé ou de bicicleta pela região nunca foi muito fácil em razão da falta de espaço apropriado, do fluxo intenso e veloz de carros e da falta de pontos de travessia. Uma marca registrada da antiga ponte eram as trilhas marcadas nos canteiros laterais por onde pedestres e ciclistas passavam. A situação não era das melhores, mas sabia que ficaria bem pior com a ampliação das pistas (proposta antiga com o objetivo de aliviar os congestionamentos).   

Caminhos de terra para pedestres e ciclistas na antiga ponte (antes das obras de ampliação).

O projeto Trevo de Triagem Norte (TTN), que prefiro chamar de Terrível Trevo Norte, consistia na ampliação da ponte do Bragueto, com a construção de mais pistas, acessos e viadutos. Era parte de um conjunto maior de obras viárias na parte norte do Distrito Federal.1

Tenho registros (fotos e vídeos) da região ao longo dos anos. O fluxo de pedestres e ciclistas sempre foi significativo, apesar das más condições (sem calçadas, ciclovias e pontos de travessia). Em 2015, conversei com algumas pessoas e gravei imagens do sufoco para fazer a travessia próximo ao Setor Hospitalar. Muitos trabalhadores chegam de ônibus de outras regiões – incluindo Sobradinho e Planaltina –, encaram ônibus lotados e andam por caminhos tortuosos (vídeo). Lembro do Éder, que passava de muleta pelo gramado, e da senhora que reclamava do ônibus lotado e da travessia arriscada. A reivindicação por calçadas, faixas de travessia e semáforos é antiga.    

Em 2016, no governo Rollemberg, começou a devastação no final do Eixão Norte por conta das obras do Terrível Trevo. Os tratores derrubavam as árvores no canteiro em nome do ‘progresso’ automotivo. Fomos em família, com os dois filhos (na época, com 7 e 8 anos) na bicicleta grandona (tandem) e gravamos um vídeo. Lembro bem das sugestões dos meninos ao conversarmos na área recém-devastada: em vez de asfalto, eles queriam mais árvores, parquinho, quadra de esporte e até um canto da leitura! Ah que bom seria se nossas autoridades tivessem a sensibilidade de uma criança.

Durante as obras, em 2018, fizemos protestos na ponte: éramos 4 ciclistas com faixas esticadas para chamar atenção para a (i)mobilidade.

Protesto no TTN – por uma cidade humanizada. Junho/2018.

O atual governador – Ibaneis Rocha – resolveu levar o rodoviarismo a sério para desespero dos que sonham com uma cidade humanizada, menos dependente do automóvel e mais acolhedora para pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo. Tem obra de viaduto por todo o DF. As obras da Saída Norte, que incluem a ampliação da ponte do Bragueto, foram retomadas no atual governo e concluídas em maio de 2021.

Maio/2018

Anúncios governamentais: privilégios ao automóvel.

A propaganda governamental (nos diferentes governos) anunciava os benefícios aos motoristas e deixava claro o viés rodoviarista, sem mencionar possíveis melhorias aos que dependem do transporte coletivo. Infelizmente, a ciclovia que atravessa a ponte – construída nas obras de ampliação – segue o padrão GDF: sem conexão com caminhos que levem o ciclista em segurança a outros pontos da cidade.

– Mais Pistas e Viadutos, Menos Verde

Imagens de satélite da região: 2010 (acima) e 2020 (abaixo).

É interessante comparar as fotos e imagens aéreas antes e depois da grande obra (anunciada como ‘a maior obra viária do Distrito Federal’, às vésperas da eleição, pelo então governador Rollemberg). As margens do lago Paranoá ficaram mais cinza e impermeabilizadas, bem diferente do que eram antes.

Imagens divulgadas pelo GDF. Janeiro/2018 (acima) e Maio/2021 (abaixo).

As fotos do alto revelam o grande impacto sobre a área (retirada de árvores e aumento da área asfaltada). Na prática significa mais calor. Além do risco de atropelamento, o desconforto térmico é grande para quem passa a pé e de bicicleta.

– Um novo modelo é possível e necessário

Fiz novas imagens no final do Eixão, próximo da ponte do Bragueto e, como era de se esperar, o alto risco continua! Na verdade, está ainda mais arriscado, afinal agora existem mais pistas para atravessar e o limite de velocidade continua altíssimo (80 km/h). Curiosamente, na grande obra de ‘mobilidade’, com custo de R$ 94,4 milhões2 ‘esqueceram’ dos locais de travessia para quem caminha e pedala. Outro detalhe curioso: o prometido corredor de ônibus (BRT Norte) e o Terminal Multimodal da Asa Norte também foram esquecidos.

Pedestres e ciclistas em alto risco no final do Eixão Norte.

Descaso com o transporte coletivo – locais de embarque e ônibus lotados no TTN.

O Terrível Trevo Norte ilustra bem como os projetos rodoviaristas segregam os espaços e criam barreiras (muitas vezes, muros intransponíveis) aos que se deslocam sem carro. Com o atual emaranhado de pistas e viadutos ficou ainda mais difícil, por exemplo, caminhar do Boulevard Shopping até o início do Lago Norte (distância de apenas 1 km). Os dados recentes da PDAD/20213 revelam que a dependência do automóvel continua alta: 93% dos moradores do Lago Norte utilizam carro ou moto no deslocamento para o trabalho.

Passo pelo final do Eixão Norte e tenho saudade da vista agradável. Da parte mais alta da ponte do Bragueto via-se a vegetação exuberante próxima ao lago Paranoá, que se estendia pelos Eixinhos e pela W3. Lembro também da placa que desejava boas-vindas aos que chegavam à cidade. Atualmente, no cenário cinza e árido, não existe mais a placa. Imagino que, no meio de tantas pistas, não tenha sobrado espaço para a placa singela e gentil.  

Placa de boas-vindas que existia próximo à ponte do Bragueto. Julho/2015.

Até quando os seres desprovidos de motor vão depender apenas da proteção da Nossa Senhora do Cerrado? Será que um dia as autoridades vão se dar conta do alto risco para pedestres e ciclistas e tomarão providências?

Nossa Senhora do Cerrado
Protetora dos pedestres
Que atravessam o eixão
Às seis horas da tarde
Fazei com que eu chegue são e salvo

Na casa de Noélia

Nicolas Behr e Nonato Veras, versos gravados por Legião Urbana

Passou da hora de repensar o que significa mobilidade moderna. Brasília nasceu com o automóvel no DNA, mas não precisa seguir com o mesmo modelo de décadas atrás. A frota motorizada se aproxima de 2 milhões e os impactos negativos são bem evidentes: congestionamentos, poluição, estresse, sedentarismo e demanda por grandes áreas (pistas e estacionamentos).

Por que não se inspirar em várias cidades pelo mundo que reverteram a dependência do automóvel e incentivam os moradores a caminhar, pedalar, usar ônibus, metrô e VLT? A tendência hoje é transformar vias expressas em avenidas com velocidade reduzida, converter viadutos em praças e ciclovias arborizadas para reduzir o fluxo motorizado e revitalizar as cidades.

______________________________

1 O projeto da Saída Norte era composto pelo Trevo de Triagem Norte e pela ampliação Torto-Colorado. No atual governo foi rebatizado como Complexo Viário Joaquim Roriz. O conjunto de pistas e viadutos foi concebido em 2009 (governo Arruda) e perpassou os seguidos governos (Agnelo, Rollemberg e Ibaneis) até ser concluído.  

2 O valor se refere às obras do TTN. O custo total da Saída Norte, segundo notícia do Governo do Distrito Federal, foi de R$ 220 milhões.

3 PDAD – Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílio, realizada pela Codeplan.

O blog Brasília para Pessoas reúne material adicional para consulta.

– Seção do blog com boas referências em mobilidade (livros e filmes): https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/livros-e-filmes-sobre-mobilidade/

– Seção do blog sobre o TTN: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/norte-do-df-ttn/

ÁLBUM

Fotos da região norte, incluindo final do Eixão e ponte do Bragueto. O acervo tem imagens de 2007 a 2022.

Clique aqui ou na imagem para ver o álbum completo.

VÍDEOS

Ao longo dos anos gravei vídeos na região que mostram a imobilidade, a insegurança no trânsito e a devastação causada pelo projeto rodoviarista. A seguir, alguns dos vídeos produzidos (entre 2016 e 2022).



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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