Brasilia Para Pessoas

03
julho
Publicado por Brasília no dia 03 de julho de 2022

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Ao pedalar pela cidade e enfrentar velhos problemas, me pergunto: a quantidade de ciclistas é baixa em razão dos obstáculos no caminho ou os obstáculos existem porque o número de pessoas que pedalam é baixo?

Os mais novos não devem se lembrar da propaganda do biscoito, que ficou conhecida na época. O anúncio produzido na década de 80 perguntava: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”.

Um dos principais problemas enfrentados pelos ciclistas na capital federal é a falta de continuidade no caminho. A ciclovia acaba de repente. No meu trajeto diário pela Asa Norte, a ciclovia desaparece em alguns trechos e é preciso paciência e atenção para atravessar os carros estacionados ou em circulação.  

Percurso tortuoso: ciclovia descontínua e muitos carros no caminho.

Ao longo do caminho existem muitas escolas e creches, além de um grande centro universitário. Mas o movimento de ciclistas é baixo. Na ciclovia vejo muito mais pessoas caminhando e correndo do que pedalando. Fico imaginando uma mãe que resolva testar ir de bicicleta com o filho até a escola (em vez de usar o carro). Diante dos obstáculos, não tenho certeza se ela repetirá o trajeto pedalando outras vezes.

Falta de manutenção e de iluminação é outro obstáculo. Existem pontos esburacados na ciclovia, especialmente próximo aos cruzamentos, que podem causar quedas e ferimentos. À noite o risco aumenta porque o caminho vira um breu. Pelo visto, as autoridades pensam que ciclista só se desloca de dia.

Ciclovia totalmente escura na W4 Norte.

Costumo registrar na ouvidoria do Governo do Distrito Federal os obstáculos que enfrento e deixo sugestões de melhorias. Mas dificilmente as devidas providências são tomadas. Uma das solicitações recentes – para consertar semáforo em frente a uma escola – levou um mês para ser atendida e nesse período o risco na travessia era grande. O pedido para reforma do piso e reforço na sinalização ao longo da ciclovia continua sem resposta efetiva, apesar das reiteradas solicitações.

Cena comum: ciclovia com piso danificado

Em todo o Distrito Federal existem 633 km de ciclovias e ciclofaixas, segundo a Secretaria de Mobilidade, o que coloca o DF no topo do ranking cicloviário no país, atrás apenas de São Paulo em quilometragem de vias para ciclistas. O grande desafio é atrair mais pessoas para a bicicleta, tornar a cidade mais acolhedora para os ciclistas.

Dados recentes mostram que o carro é o meio de transporte mais utilizado na área central mesmo em distâncias curtas. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD/2021), realizada pela Codeplan, no Distrito Federal 52,5% usam o automóvel para ir ao local de trabalho. Em bairros como o Sudoeste e Noroeste, o automóvel é utilizado no deslocamento para o trabalho por 89% e 96% dos moradores, respectivamente.

Que outros fatores interferem no uso da bicicleta como meio de transporte? Por que ainda temos, em geral, pouco movimento nas ciclovias? Deixe sua opinião nos comentários ; )

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O blog tem seção própria com vários registros na ouvidoria do Governo do Distrito Federal (GDF), feitos por pessoas que caminham e pedalam pela cidade: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/solicitacoes-de-informacoes-e-sic/2022-2/

VÍDEOS



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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