Entre BRT e VLT, Cuiabá ficou refém do carro e da moto

Capital de Mato Grosso aposta em asfalto e viadutos, com transporte público concentrado no Centro. A boa novidade é a contratação do plano de mobilidade

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Marcos de Sousa/Mobilize Brasil  |  Postado em: 07 de abril de 2022

Composições do VLT de Cuiabá: no pátio de manobras

Composições do VLT de Cuiabá: no pátio desde 2013

créditos: Reprodução

 



Cuiabá é o coração da Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá, conglomerado urbano que reúne os municípios de Acorizal, Chapada dos Guimarães, Nossa Senhora do Livramento, Santo Antônio de Leverger e Várzea Grande, além da própria capital de Mato Grosso. São cerca de 1.061.000 habitantes vivendo nessa área (IBGE/2021), a maioria em Cuiabá (624 mil hab) e Várzea Grande (290 mil hab).Não por acaso, o primeiro sistema de transporte de massa planejado para a cidade atendia justamente a ligação entre a capital e a vizinha Várzea Grande, a oeste, na outra margem do rio Cuiabá. O projeto nasceu em 2009 e integrava a chamada Matriz de Responsabilidades, compromisso que as cidades-sede assumiam para ter a Copa em seu território. O sistema de transportes seria um legado da Copa. Seria, mas...


A proposta inicial era de um corredor de ônibus (BRT), mas evoluiu em 2011 para uma solução supostamente mais avançada, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que potencialmente poderia ser mais silencioso e ambientalmente mais amigável. Trilhos foram implantados em parte do traçado, composições foram adquiridas da fabricante espanhola CAF, um pátio de manobras foi instalado em Várzea Grande e várias viagens de teste foram realizadas.


Mas, depois de um investimento de mais de 1 bilhão de reais, em 2013, ante denúncias de irregularidades, a obra foi embargada pela Justiça e segue paralisada até hoje em uma polêmica que divide as lideranças políticas da região. O governador Mauro Mendes defende o abandono dos trilhos urbanos e e já concluiu a licitação para a construção de um corredor BRT, enquanto o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, quer a continuidade das obras do Veículo Leve Sobre Trilhos.


Para entender de forma mais abrangente os problemas de mobilidade em Cuiabá, o Mobilize Brasil entrevistou a arquiteta e urbanista Doriane Azevedo, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Mato Grosso, e parceira nas avaliações de mobilidade realizadas para o Estudo Mobilize 2022. Ela, como outros especialistas cuiabanos, avalia que o traçado proposto em 2011, fosse um BRT ou um VLT, nasceu descolado do planejamento urbano do município e não considerou os eixos de expansão da cidade e as demandas reais de transporte público da cidade.

 

Doriane Azevedo, da UFMT Foto: Reprodução


A professora lembrou também que nesses dez anos, Cuiabá viveu - e ainda vive - um momento de forte expansão dos empreendimentos imobiliários, especialmente no arco noroeste-norte-leste da cidade, em todas as faixa de renda, sem que se considere as demandas de transporte que esses novos bairros - que estão nos limites do perímetro urbano - poderão gerar para a cidade.


Em sua visão, mesmo durante a pandemia, a circulação na capital continuou bastante difícil, especialmente para os ônibus, que ficam "presos" nas vias congestionadas pelo excesso de veículos particulares. Ela explicou que o sistema viário de Cuiabá foi estruturado em vias radiais, com poucos anéis de conexão inter-bairros, obrigando frequentemente as pessoas a passarem pelo centro, o que complica mais ainda a mobilidade.


O problema, segundo Doriane, é que o transporte público está muito concentrado nas áreas centrais da cidade, fazendo com que as pessoas que moram em locais mais distantes acabem optando pelo carro, ou pelas motocicletas. "As faixas exclusivas são raras, de forma que os ônibus têm que disputar espaço no trânsito. E, embora a prefeitura anuncie que com a nova licitação a frota de ônibus teria sido renovada, as pessoas continuam reclamando dos veículos, que quebram, têm problemas de manutenção. Definitivamente, o transporte público tem pouca ou nenhuma prioridade em Cuiabá", resume Doriane Azevedo. 

 

Outro problema apontado pela pesquisadora é a falta de ônibus diretos que façam as ligações entre os bairros, um sistema mais eficiente, que permita a integraçao de linhas inter-bairros com as linhas tronco. "O sistema foi desenhado com base em estações de transbordo, mas essas conexões são desconfortáveis e demoradas, de tal forma que o transporte público não consegue competir com as motos. Dependendo do trajeto, a viagem demora mais que o dobro do tempo."


Uma opção mais sustentável, que poderia ser a bicicleta, perde atratividade por conta de dois fatores: o conhecido calor de Cuiabá e a falta de um planejamento que inclua as infraestruturas cicloviárias: ciclovias, ciclorrotas e pontos de apoio para os ciclistas.


"Sempre que uma nova avenida é inaugurada, o prefeito destaca a inclusão de calçadas e de um trecho cicloviário, mas não há uma articulação lógica entre esses trechos, dentro de um planejamento que considere toda a área urbana"
, explica a professora. Outra opção, a mobilidade a pé, também sofre os efeitos do clima e das más condições para caminhar na cidade. "A prefeitura tem inaugurado pistas e viadutos com calçadas até bem instaladas, mas as condições de conforto e de segurança ainda são muito duras para que as pessoas façam certos trajeto a pé."


Ao final, perguntamos a Doriane Azevedo o que estaria faltando nas políticas públicas de mobilidade em Cuiabá para que se recupere um certo equilíbrio entre as pessoas que só andam de carros e aquelas que querem uma cidade mais humana, onde se possa caminhar ou andar de bicicleta. Ele resumiu em uma frase: "Antes de mais nada é necessário mudar o pensamento. Nós já fizemos um trabalho mostrando que no centro da cidade ou em alguns bairros tudo é muito perto e as pessoas poderiam caminhar para resolver seus problemas, fazer compras, passear. Mas, numa cidade em que se caminha pouco, tudo vira desculpa para ignorar ou mesmo destruir as infraestruturas usados pelos pedestres".


A visão da prefeitura
A novidade positiva, lembrou a urbanista e professora da UFMT, é que depois de muitos anos de hesitação, a prefeitura finalmente abriu o processo para a elaboração do Plano de Mobilidade de Cuiabá. O assunto foi um dos primeiros pontos levantados na entrevista que o Mobilize Brasil tentou realizar com a Prefeitura de Cuiabá. As respostas da gestão municipal vieram por escrito, e assinadas por Nicolau Jorge Budib, diretor de Transporte da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) de Cuiabá.


Como está o Plano de Mobilidade Urbana de Cuiabá e quais serão as principais metas da gestão municipal nos próximos anos?

Nossa cidade não foi planejada e a gestão atual vai investir para mudar essa característica. Vamos projetar o desenvolvimento da capital e esses dados técnicos irão servir para os próximos gestores que terão um plano de desenvolvimento na mobilidade. Essas diretrizes são importantes para que o gestor saiba onde investir, onde melhorar e o que mudar na mobilidade urbana. Além disso, o Plano de Mobilidade é obrigatório para cidades  que possuem mais de 200 mil habitantes, conforme consta na Lei 12.587/2012. O Plano de Mobilidade está em elaboração, já está em fase de audiência pública, foram colhidas as sugestões da população e existe uma comissão técnica permanente cuidando desse plano. O foco será o transporte público e o transporte cicloviário.


Cuiabá - como várias cidades do país - perdeu a oportunidade de aproveitar os investimentos para a Copa de 2014 e implementar sistemas de transporte público de média ou alta capacidade. A imagem mais emblemática são as composições do VLT estacionadas no pátio de Várzea Grande desde 2013, quando a obra foi paralisada por decisão judicial. Como a Prefeitura de Cuiabá planeja desatar esse imbróglio que prejudica a imagem da cidade e, sobretudo as pessoas que usam o transporte público?

A situação está judicializada. O prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, defende um plebiscito para ouvir a população sobre qual modal implantar em Cuiabá, implantar um BRT ou concluir o VLT. Mas mesmo diante do gasto de mais de R$ 1 bilhão com as obras do VLT, o atual governador do Estado, Mauro Mendes, pretende implantar o BRT na capital. 

 


Proposta do governo do estado para o corredor de de ônibus Imagem: Reprodução

 

Cuiabá tem recebido muitos empreendimentos imobiliários, que continuam expandindo a área urbanizada da capital, em um processo de conurbação. Há algum plano municipal de projetos e obras para o transporte público capaz de atender a essa nova onda imobiliária? Ou então, alguma política para reduzir esse "inchamento" e concentrar atividades e moradias nas áreas mais centrais do município?

Esses empreendimentos fora do eixo representam uma das grandes dificuldades do município, mas estamos enfrentando isso. O traçado original do VLT atenderia também áreas ao norte e ao sul do centro da cidade. Mas a extensão do transporte para os novos empreendimentos será feita somente com linhas alimentadoras.


Subsídio ao transporte público tem sido apontado como uma política necessária para adequar os valores pagos nas catracas à renda da população brasileira. Qual é a posição da prefeitura de Cuiabá em relação a esse desafio? Há algum fundo municipal para financiar o transporte?

Sim, o Fundo Municipal de Trânsito e Transporte Urbano (FMTU) foi criado em 1995 para financiar não só o transporte público, mas também a infraestrutura de mobilidade, como as ciclovias.


A  condição climática de Cuiabá é conhecida em todo o Brasil. Esse calor, de fato, inibe a caminhada ou o uso de bicicletas, e mesmo do transporte público se não há ônibus com ar-condicionado. A cidade tem planos para melhorar a arborização de sombreamento, criar espaços de descanso, ou, por exemplo, a oferta de bebedouros públicos?

Cuiabá iniciou recentemente um projeto de arborização. Mas a iniciativa privada também precisa fazer a sua parte. As empresa, em sua maioria, não oferecem banheiros com chuveiros para que seus colaboradores possam tomar um banho após usar a bicicleta ou a caminhada como meio de transporte. 

 

Cidades de todo o mundo estão buscando eliminar veículos poluidores e substituí-los por motorizações mais eficientes e "limpas", como os elétricos ou movidos a células de combustíveis. Qual é a meta de Cuiabá nesse sentido? A cidade tem algum plano para trocar os ônibus diesel por novos veículos elétricos e mais confortáveis?

O contrato de concessão do transporte público prevê o uso de ônibus padrão Euro 6 (padrão internacional, movido a diesel, com baixas emissões de poluentes), além de investimentos em ônibus elétricos e híbridos. Existe essa previsão contratual, mas com a queda de passageiros durante o período da pandemia, as empresas adiaram esses investimentos. Retomando a normalidade, o município vai cobrar que  as empresas cumpram o contrato. A Prefeitura de Cuiabá já renovou 50% da frota de ônibus e 70% dessa frota já está climatizada. Atualmente são 360 ônibus, dos quais, 150 unidades são zero km. Além disso, conforme o Plano de Mobilidade, a Secretaria de Mobilidade Urbana irá incentivar a população a usar outros meios de transporte além do carro, especialmente a bicicleta e o transporte público. E temos planos de implantar mais ciclovias e ciclofaixas em toda a cidade.



Esta matéria integra o trabalho de preparação do Estudo Mobilize 2022, um levantamento da mobilidade urbana nas 27 capitais brasileiras que está sendo realizado pelo Mobilize Brasil.


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