Rio Branco (AC): crise nos ônibus e abandono das ciclovias

Capital do Acre sofre grave crise no transporte público - operado unicamente por ônibus - e perde protagonismo pela falta de manutenção em suas ciclovias

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Eduardo Dias de Souza/ Mobilize Brasil*  |  Postado em: 14 de junho de 2022

Pssageiros aguardam ônibus em terminal de Rio Bran

Pssageiros aguardam ônibus em terminal de Rio Branco

créditos: Sergio Vale

 

 


O rio Acre não é mero coadjuvante na história da cidade de Rio Branco e do estado do Acre, já que até meados do século passado, o transporte hidroviário era o único meio de deslocamento pelo interior da Amazônia, no extremo noroeste do Brasil.
Boa parte de seu curso é navegável e por ele já circularam grandes embarcações, especialmente durante o Ciclo da Borracha, no início do século XX. No entanto, apesar do potencial hidroviário e de banhar a capital, o rio perdeu o protagonismo, enquanto a cidade de Rio Branco se tornou gradativamente refém dos ônibus como único sistema público de transporte de passageiros.


Segundo dados obtidos pelo Estudo Mobilize 2022 através da Lei de Acesso a Informação, o município conta com 87 ônibus circulando durante a semana, mas apenas 530 metros de faixas exclusivas. A disputa do viário com os automóveis no entanto não é o único problema do modal em Rio Branco. Em fevereiro deste ano, uma nova empresa assumiu de forma emergencial as linhas de ônibus da cidade, abandonadas pela concessionária que operava o sistema até então. A crise no transporte público local - que afeta cidades em todo o país - também é alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara Municipal de Rio Branco.


De acordo com o engenheiro Luan Marcel, parceiro do Mobilize na coleta de dados de Rio Branco para o Estudo Mobilize 2022, algumas regiões periféricas foram extremamente impactadas pela precariedade do sistema. “Durante a pandemia, alguns ônibus foram retirados de circulação e algumas regiões da cidade só contavam com o serviço em dois ou três horários do dia”, revelou Marcel. “A tarifa (que passou de R$ 4,00 para R$ 3,50, graças ao subsidio municipal) ainda é elevada para a cidade, já que as linhas mais extensas percorrem, no máximo 14 km, quando atendem a localidade na zona rural”, completou. 

 


Luan Marcel, parceiro do Estudo Mobilize Foto: Arquivo

 

Com 413.418 habitantes (IBGE 2020), Rio Branco conta com um Plano Diretor de Transporte e Trânsito desenvolvido entre 2066 e 2008 que foi transformado em Plano de Mobilidade por meio do Decreto Municipal 392/2015. A prefeitura não realiza pesquisas de origem-destino e também não tem um plano de calçadas ou um plano cicloviário.

 

Consultada, a Prefeitura de Rio Branco informou que a cidade tem hoje (junho de 2022) pouco mais de 80 km de ciclovias. Mas, segundo dados publicados pelo portal G1, em 2018 Rio Branco ostentava mais de 107 km dessa infraestrutura, o que levou a capital acreana a ser apontada como uma das cidades brasileiras com maior densidade de infraestrutura cicloviária em relação à população. Um dos pontos altos da infraestrutura cicloviária da cidade é o Parque da Maternidade, que permite os deslocamentos de bicicleta por 7 km, na região central da cidade. No entanto, essas ciclovias ficaram gradativamente sem manutenção e hoje estão visivelmente abandonadas pela gestão municipal, segundo Luan Marcel. 


"Embora a prefeitura tenha anunciado recentemente a expansão da rede, com projetos de ampliar as conexões e a malha para até 160 km, os planos não saíram do papel. Enquanto isso, quem pedala por Rio Branco sofre com a falta de continuidade das vias, muitas delas esburacadas e mal iluminadas", comentou o engenheiro.



 
Ciclovia na capital do Acre: infraestrutura começa a ser recuperada Foto: Prefeitura de Rio Branco


“Nos últimos 10 anos, a oferta regrediu. Rio Branco chegou a ser uma capital com grande conceito na ciclomobilidade, mas ficou para trás. Algumas ciclovias ficaram deterioradas e outras foram até retiradas”, confirmou Marcel, em entrevista.


Em 2021, a prefeitura divulgou informações e imagens sobre a recuperação de ciclovias na cidade, mas talvez um dos maiores problemas seja a má distribuição dessa infraestrutura, como mostrou um levantamento realizado em dezembro de 2020 pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) em parceria com a União dos Ciclistas do Brasil (UCB). Conforme esse estudo, somente 5% da população mais pobre de Rio Branco mora ou trabalha nas proximidades de uma ciclovia, o que dificulta a utilização da bicicleta justamente pela população mais carente.


Calçadas sem manutenção
Rio Branco também não parece ser uma cidade convidativa para os pedestres. Em 2019, a infraestrutura para a mobilidade a pé na capital do Acre ficou com a média 5,28 (numa escala de zero a dez) com base nas avaliações realizadas pela Campanha Calçadas do Brasil. Na época, os avaliadores encontraram "calçadas esburacadas ou com trincas, várias delas estreitas, fechadas por obstáculos e com pouca ou nenhuma arborização, e muitas delas tomadas por lixo e mato". Naquele mesmo ano a prefeitura iniciou um trabalho para a recuperação dos passeios públicos, especialmente em locais estratégicos, com maior movimentação de pedestres, mas essa iniciativa foi interrompida em 2020.


Outro ponto destacado pelo colaborador do Mobilize foi a falta de planejamento viário: “A cidade não foi planejada e as vias são sempre serpenteadas. Assim, percorrer pequenos trechos acaba exigindo um tempo de mobilidade muito alto. Poderia ser mais rápido, com mais segurança e qualidade, inclusive para os motorista de veículos particulares, dos ônibus, para os ciclistas e pedestres. Como não há gestão, o resultado é muito estresse e acidentes”, conclui Luan Marcel.


Observação do Mobilize Brasil
Para realizar o Estudo Mobilize 2022, além da coleta de dados locais, com o suporte de coordenadores e colaboradores em cada uma das 26 capitais e no Distrito Federal, o Mobilize encaminhou formulários aos gestores públicos, com perguntas objetivas sobre as condições de mobilidade, além de pedir entrevistas com porta-vozes da área. Na ausência de respostas, recorreu-se à Lei de Acesso à Informação, último recurso para obter essas solicitações.


Até o fechamento desta matéria, porém, a Prefeitura de Rio Branco não havia respondido nem ao pedido de entrevista, e tampouco ao formulário com os dados da mobilidade no município. As poucas respostas obtidas pelo Mobilize Brasil, vieram dos pedidos realizados através da Lei de Acesso à Informação.

*Colaborou Marcos de Sousa, da redação do Mobilize Brasil

 

 

Esta matéria integra o trabalho de preparação do Estudo Mobilize 2022, um levantamento da mobilidade urbana nas 27 capitais brasileiras que está sendo realizado pelo Mobilize Brasil.


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