Brasilia Para Pessoas

08
fevereiro
Publicado por Brasília no dia 08 de fevereiro de 2022

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Grupo de pessoas em ambiente fechado

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

Rodoviária do Plano Piloto. Novembro/2007.

Tenho o costume de tirar fotos no meu trajeto a pé e de bicicleta. Estava organizando as imagens e é interessante ver as mudanças ao longo dos anos. Reuni algumas fotos e comento sobre a rodoviária, ou simplesmente rodô, como também é conhecida. Andar e pedalar por lá traz um misto de sensações. É bom ver tanta gente como em qualquer outra cidade comum. No entanto, o estado de abandono e os percalços na área central de Brasília causam tristeza.

A Rodoviária do Plano Piloto foi projetada por Lucio Costa e está no cruzamento entre o Eixo Monumental e o Eixão. É considerada o marco zero, onde fica a estação central do metrô e de onde saem ônibus para todo canto do Distrito Federal e para as cidades próximas de Goiás (o chamado Entorno de Brasília). Estima-se que pela rodoviária passem diariamente mais de 700 mil pessoas!

No acervo tem imagens desde 2007 até os dias de hoje. Observo que a rodoviária já teve banquinhos para descanso e havia um painel grande que supostamente anunciava os horários de partida dos ônibus (quando tirei a foto, em 2007, o painel não funcionava mais).

Multidão de pessoas

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Rodoviária do Plano Piloto. Outubro/2007.

O drama das escadas rolantes é antigo. As imagens mostram que é raro ter todas as escadas em perfeito funcionamento. Os elevadores, que permitem o acesso de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, também sofrem com a falta de manutenção.  

Escadas rolantes quebradas na Rodoviária. Setembro/2011 e Agosto/2019.

Elevadores quebrados na Rodoviária. Agosto/2019.

– Filas no terminal

O que seria da rodoviária sem as filas que serpenteiam todo o vão livre nos horários de pico? Sem dúvida, uma marca registrada que perdura ao longo do tempo.

Multidão de pessoas

Descrição gerada automaticamente

Rodoviária do Plano Piloto. Setembro/2012.

Grupo de pessoas andando na rua

Descrição gerada automaticamente

Rodoviária do Plano Piloto. Fevereiro/2020.

Na parte voltada para o Eixo Monumental, onde ficam os ônibus para o Entorno, é comum ver guarda-chuvas abertos à tarde para proteger do sol. Em outros pontos, os guarda-chuvas protegem das goteiras.

Banho de sol na Rodoviária. Janeiro/2020.

Goteiras na Rodoviária. Novembro/2021.

– Calçadas em volta

Multidão de pessoas

Descrição gerada automaticamente

Esplanada dos Ministérios, saída da Rodoviária. Agosto/2014.

No início da Esplanada dos Ministérios, na saída da Rodoviária do Plano Piloto, o fluxo de pedestres é bem grande. As fotos mostram a enxurrada de pessoas e as calçadas em condições precárias.  

Esplanada dos Ministérios, saída da Rodoviária. 2016.

Em agosto de 2020 fiquei surpreso ao ver, enfim, a reforma da calçada na saída do terminal. Fiquei com esperança de que o caminho se tornasse plenamente acessível, como determinam as leis. Melhorou um pouco, é verdade. Mas ainda faltam rampas e piso tátil no trecho entre a rodoviária e os ministérios, o Museu da República e a Catedral. Ou seja, uma pessoa cega ou cadeirante não consegue sair do terminal central e ir em segurança até as principais atrações turísticas da capital federal.  

Uma imagem contendo ao ar livre, grama, calçada, estacionado

Descrição gerada automaticamente

Reforma da calçada no início da Esplanada dos Ministérios. Agosto/2020.

– Comércio formal e informal

Rodoviária do Plano Piloto. Julho/2021.

Outra marca registrada da rodoviária é o comércio diversificado. Camelôs, lojas de equipamentos eletrônicos, farmácia, lojas de roupas, verdurão, local para tirar foto 3×4 e a tradicional pastelaria Viçosa. Tem também o posto Na Hora, na plataforma de acesso ao metrô, que reúne guichês de órgãos públicos e oferece diferentes serviços.

Os sons da rodô são muito peculiares. Os vendedores anunciam chip de celular e frutas da época. O preço da goiaba, do pequi e das frutas em geral costuma ser muito bom. E tem ainda os que anunciam os destinos dos veículos que saem da plataforma superior: o chamado transporte pirata atrai muitos passageiros no final da tarde. “Planaltina, saindo agora, três vagas” e “Olha o chip da Claro” fazem parte da sonoplastia na plataforma superior.

Rodoviária do Plano Piloto. Novembro/2012.

Rodoviária do Plano Piloto. Abril/2011.

– Bicicletário e Ciclofaixa

Rodoviária do Plano Piloto. Dezembro/2011.

As imagens revelam que já existiu bicicletário na rodoviária. Em 2011 estavam lá os suportes e o espaço pintado de vermelho. É verdade que não era dos melhores. Lembro de passar na rodô e não conseguir parar a bicicleta em razão de a porta de acesso ao bicicletário estar fechada. E não tinha controle de acesso nem vigilância permanente. Com o tempo, o espaço foi se deteriorando e hoje restam apenas vestígios das vagas para os ciclistas, alguns suportes metálicos e lixo acumulado.

Ex-bicicletário da Rodoviária. Julho/2021 e Julho/2020.

Outra deficiência evidente é a falta de caminho para os ciclistas atravessarem a rodoviária. As fotos de 2014 mostram que já existiu ciclofaixa pintada ao longo do terminal, com pintura vermelha no ponto de travessia. Com o tempo a pintura se desgastou, a ciclofaixa desapareceu e o lugar passou a ser ocupado por táxis e ônibus. Posso garantir que pedalar no meio dos ônibus não é nada agradável.

Ciclofaixa e pintura na travessia. Rodoviária, maio/2014.

Ônibus no caminho de ciclista, parte norte da Rodoviária. Janeiro/2018.

Ciclofaixa apagada e invadida na Rodoviária (parte sul). Fevereiro/2018.

Ciclista na parte norte da Rodoviária. Fevereiro/2020.

– Tempos melhores por vir?

Pretendo continuar os registros na área central de Brasília e espero ter boas imagens para mostrar nos próximos anos. A importância da rodoviária do Plano Piloto é inquestionável, por estar na área central, por ser patrimônio tombado e o terminal de transporte mais movimentado do Distrito Federal.

A rodoviária deveria ser uma vitrine, acessível e com boas soluções em mobilidade, atrativas para a população. No coração de Brasília deveríamos ter um sistema moderno com ônibus elétricos, metrô, VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), bicicletário coberto e seguro, bicicletas e patinetes compartilhados. Como já escreveu a jornalista Conceição Freitas, a rodoviária (uma das piores do país) precisa ser tratada como o aeroporto (um dos melhores).

Para terminar o texto de forma otimista, deixo uma foto da parte de cima da rodoviária no período de floração dos ipês amarelos. Brasília é bela e merece um terminal central à altura! 

Jardim com flores amarelas

Descrição gerada automaticamente

Vista da parte superior da Rodoviária. Agosto/2020.

________________________

1   Já escrevi outros textos no blog sobre a rodoviária. Um específico sobre os desafios de passar de bicicleta pela rodoviária e outro sobre os problemas no terminal, com propostas para modernizar a região central. Estão acessíveis nos links:

2   Em razão do abandono na rodoviária, ações civis públicas já foram propostas para obrigar o Governo do Distrito Federal (GDF) a providenciar melhorias.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/DF) propôs ação civil pública em 2019 – e obteve decisão favorável – para obrigar o GDF a manter as escadas rolantes e elevadores em funcionamento.

O Ministério Público (MPDFT), com apoio da Rede Urbanidade (formada por especialistas e ativistas em mobilidade urbana), realizou vistoria na rodoviária e, posteriormente, propôs ação civil pública em 2020 para exigir que o GDF crie espaço seguro para os ciclistas estacionarem e circularem na rodoviária, além de exigir acessibilidade nas calçadas da plataforma inferior. Atendendo a pedido do Ministério Público, o Tribunal de Justiça (TJDFT) marcou audiência pública para o dia 18/2/2022, às 14h15 (em modo virtual) para tratar do tema.  

ÁLBUM

100 imagens da rodoviária de 2007 a 2021, reunidas no álbum virtual: https://flic.kr/s/aHBqjzAkx5

VÍDEOS

Alguns vídeos que mostram a realidade na área central de Brasília.



Tags:, , , , , , , ,

Compartilhe

Comente

Seu e-mail nunca é exibido. Campos obrigatórios são marcados *

*
*
*


Busca no Blog
Com a palavra...
Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
Posts mais lidos
Categorias
Arquivo

Realização
Associação Abaporu
Desenvolvimento
MSZ Solutions
Comunicação
Mandarim Comunicação
Patrocínio
Itau

Allianz
Apoio
Ernst & Young
Prêmio
Empreendedor Social
Prêmio Empreendedor Social