Brasilia Para Pessoas

25
março
Publicado por Brasília no dia 25 de março de 2022

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Costumo caminhar e correr pelo Eixinho e Eixão, na Asa Norte. Aproveito para observar e refletir sobre a (i)mobilidade. Não consigo entender como ainda temos uma via expressa cortando a cidade de norte a sul.

Fico apreensivo a cada pessoa que vejo correndo entre os carros, tentando chegar viva ao outro lado do Eixão. Muitos motoristas sequer reduzem a velocidade ao avistar um pedestre. Será que eles têm noção de como é o submundo das passagens subterrâneas?

Passagem subterrânea esburacada, suja e sem iluminação.

A falta de calçadas contínuas no Eixinho também incomoda. Um morador é incapaz de andar com segurança até a quadra vizinha. O jeito é dividir a pista com os carros. Além da travessia do Eixão por cima, outra forma de driblar a escuridão e insegurança das passagens subterrâneas consiste em passar pelas tesourinhas. É comum ver pedestres e ciclistas por ali. Uma pena que as obras de recuperação das tesourinhas nas Asas Norte e Sul não tenham considerado os seres caminhantes e pedalantes.

No Eixinho, pedestres andam na pista entre as quadras residenciais.

Tesourinha: caminho alternativo às passagens subterrâneas abandonadas.

Para quem depende do transporte coletivo a situação também não é fácil. Os pontos de ônibus no Eixinho ficam lotados no final do dia. Existem filas distintas: a fila do transporte oficial e a fila dos que esperam os ‘piratas’ (transporte feito em carros particulares).

Ponto de ônibus lotado no Eixinho.

Percebo um fluxo considerável de ciclistas entregadores pelo Eixão e pelos Eixinhos. Um serviço importante que leva comida para muitos lares. Mas o trajeto é cheio de riscos. Será que as autoridades não se dão conta? Existe algum projeto com o objetivo de criar rotas seguras, sinalizadas, para os ciclistas? Com o fluxo grande de pessoas aos domingos e feriados, no Eixão do Lazer, pessoas de todas as idades esperam por muito tempo e se arriscam na travessia do Eixinho.

Ciclistas entregadores passam pelo Eixão e pelos Eixinhos com frequência.

Frequentadores do Eixão do Lazer: alto risco na travessia.

Com seus 14 km de extensão, 80 km/h de limite (longe dos radares, claramente a velocidade passa dos 100 km/h) e nenhum semáforo, o Eixão pode ser o sonho de quem dirige e quer rapidez. Mas, ao mesmo tempo, é um pesadelo para quem não dirige e usa ônibus diariamente. Um muro quase intransponível para pedestres e ciclistas.1

Será que precisa ser assim? Salvo engano, o limite de 80 km/h não é um atributo tombado de Brasília e a velocidade poderia ser reduzida. Por que não limite de 60 km/h no Eixão? Com três faixas em cada sentido, uma não poderia ser exclusiva para linhas expressas de ônibus (de preferência, elétricos)? Nos locais com maior movimento de pedestres2, os órgãos de trânsito poderiam testar travessia com faixa e semáforo. E por que não criar uma ciclovia ao longo de todo o Eixão e, assim, incentivar a mobilidade ativa? O espaço é generoso e nos Eixinhos o caminho dos pedestres e ciclistas fica bem demarcado no canteiro.

Pedestres e ciclistas usam o canteiro do Eixinho diariamente.

Essas sugestões podem parecer utópicas numa cidade tão dependente do automóvel, mas seriam um grande passo, com ganhos em mobilidade, segurança no trânsito e qualidade de vida. No passado certamente houve resistência contra a proposta de proibir a circulação de carros e abrir o Eixão para as pessoas aos domingos e feriados. No entanto, hoje o Eixão do Lazer atrai uma multidão e se tornou patrimônio de Brasília.3

Quem sabe um dia teremos um Eixão humanizado, seguro e atrativo para todos, motoristas, pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo.

  _________________________________

1 Ocorrem atropelamentos e colisões de veículos com certa frequência ao longo do Eixão Norte e Sul, que muitas vezes resultam em ferimentos graves e mortes, como revelam as notícias (clique para conferir). Os dados são preocupantes: em 2019 e 2020 (até 11/12/2020) houve 43 atropelamentos de pedestres e ciclistas no Eixão e nos Eixinhos, segundo a Polícia Civil do Distrito Federal (informações solicitadas pelo Ministério Público – MPDFT, contidas no ofício 67/2020-PCDF).

2 Segundo o Estudo de Segurança de Pedestres no Eixo Rodoviário (DER/DF e Altran, 2007), ocorrem mais de 80 mil travessias de pedestres no Eixão diariamente, por baixo e por cima. Ou seja, um número bem expressivo.  

3 O Eixão do Lazer começou a funcionar em 1991 e atualmente é garantido pela Lei Distrital n° 4.757/2012, que estabelece o horário de funcionamento das 6h às 18h, aos domingos e feriados. O Decreto Distrital n° 40.887/2020 regulamenta o fechamento do Eixão para os veículos motorizados.  

ÁLBUM – 100 fotos do Eixão e do Eixinho

https://flic.kr/s/aHBqjzGVYJ

VÍDEOS



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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