Brasilia Para Pessoas

27
maio
Publicado por Brasília no dia 27 de maio de 2021

No dia 12 de maio o Governo do Distrito Federal (GDF) inaugurou as novas pistas e 23 viadutos. Apesar do alto custo (R$ 220 milhões), faltaram as melhorias no transporte coletivo. 

Texto e fotos: Uirá Lourenço

No último texto tratei de algo positivo: o respeito ao pedestre na faixa. Sem dúvida, motivo de orgulho em Brasília. Dessa vez vou para o outro extremo, algo bem negativo: a insistência no modelo rodoviarista de incentivo ao transporte automotivo, em detrimento do transporte coletivo.

A foto do ponto de ônibus precário e superlotado (foto acima) revela bem o descaso, a contradição entre as obras multimilionárias para construir pistas e viadutos e o descaso com quem usa ônibus diariamente. A notícia do governo deixa bem evidente o grande beneficiário de ‘uma das maiores obras viárias na história do Distrito Federal’: “O complexo beneficia mais de 100 mil motoristas que trafegam pela Saída Norte diariamente, gerando uma redução de até 55% de tempo nas viagens”.

Ampliação das pistas e novos viadutos: grande incentivo aos motoristas.

Acompanhei de perto a grande obra inaugurada este mês, em particular a ampliação das pistas na região da ponte do Bragueto, o Trevo de Triagem Norte (TTN), mais conhecido como Terrível Trevo Norte. Um emaranhado de muitas pistas e acessos para os motoristas.

Nas imagens de satélite pode-se ver a mudança. Os impactos negativos são diversos: grande devastação e impermeabilização, mudança no microclima (ilha de calor), prejuízo ao paisagismo e turismo na proximidade do lago Paranoá (ambiente árido e pouco acolhedor), maior dificuldade na travessia para pedestres e ciclistas.

Região da ponte do Bragueto em 2010 (acima) e em 2020, com o TTN (abaixo).

Os pontos de ônibus continuam precários e sem informações sobre linhas e horários. O prometido BRT Norte não saiu do papel, tampouco o Terminal Multimodal da Asa Norte (TAN). Em meio a tantas pistas novas, é espantosa a falta de faixa exclusiva para os ônibus. Os sofridos passageiros que sacolejam nos ônibus superlotados acabam recorrendo ao transporte ‘pirata’ para amenizar o sufoco.  A disputa por passageiros nos pontos é um claro indicador da precariedade do sistema de transporte oficial.

Pontos de ônibus precários ao longo das pistas ampliadas.

Para quem se desloca a pé e de bicicleta a travessia ficou ainda mais arriscada. Antes eram três pistas em cada sentido da ponte do Bragueto. Agora, com mais quatro pistas laterais em cada sentido (no total são 14 pistas!), é preciso fôlego de atleta para chegar ao outro lado da ponte. O lema é: correr para não morrer.

Travessia de alto risco na ponte do Bragueto.

E o que dizer da ciclovia? Na subida sentido Colorado tem um retão bom e dá para pedalar tranquilo. Mas, como é de praxe no Distrito Federal, os fragmentos de ciclovia não se conectam. Do alto a vista é bonita, com a ciclovia em boas condições. No entanto, ao se aproximar da ponte do Bragueto, é preciso se arriscar nas travessias e a ciclovia termina de repente. Ao seguir pelo Eixão ou se precisar ir para a W3 Norte ou Lago Norte, o ciclista tem que encarar o grande fluxo motorizado e se virar do jeito que dá.

Trecho contínuo e agradável da ciclovia.

Dois trechos de ciclovia sem continuidade – ciclistas em alto risco.

A impressão é que a ciclovia foi feita apenas para cumprir a lei, após pressão dos grupos organizados. Os nacos de ciclovia ajudam para fins de lazer, mas, para quem se desloca de bicicleta no dia a dia ainda há muitos desafios. Fico curioso em saber quantos moradores do Lago Norte se sentiram incentivados a pedalar após a grande obra.  

O modelo baseado no rei automóvel continua a todo vapor no Distrito Federal e vários outros túneis e viadutos estão projetados ou com obras iniciadas. Vale lembrar que essas estruturas têm alto custo de construção e também de manutenção.

As autoridades têm que se convencer do esgotamento do modelo urbano centrado no carro. Não é à toa que cidades modernas pelo mundo desestimulam o uso do carro e investem em ônibus modernos, metrô, rede de calçadas e ciclovias. Amsterdã, Berlim, Copenhague, Nova York e Portland são algumas das cidades que reverteram o modelo e hoje se beneficiam de melhorias na mobilidade e na qualidade de vida.

A analogia simples pode ajudar nossos governantes: alargar pistas e construir viadutos para solucionar os congestionamentos é como afrouxar o cinto para tratar a obesidade. Até quando o cinto será afrouxado e o transporte coletivo será esquecido?    

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Em razão da grandiosidade e de simbolizar bem o modelo rodoviarista – caro e atrasado – de incentivo ao automóvel, o ‘Terrível Trevo Norte’ (TTN) tem seção própria no blog, que reúne informações, fotos e vídeos: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/norte-do-df-ttn/

Vale destacar que o grande projeto da Saída Norte perpassou quatro diferentes governos, desde a elaboração do projeto até a conclusão das obras. Confirma-se, assim, que a imobilidade é pluripartidária.   

– VÍDEOS

Dois vídeos sobre a Saída Norte. O primeiro contrapõe a grandiosidade da obra (com novas pistas e viadutos para os motoristas) com a precariedade aos usuários do transporte coletivo e riscos para pedestres e ciclistas. No outro vídeo, reportagem sobre as dificuldades enfrentadas pelos ciclistas na região da ponte do Bragueto.



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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