Brasilia Para Pessoas

09
janeiro
Publicado por Brasília no dia 09 de janeiro de 2023

Texto e fotos: Uirá Lourenço

É prazeroso caminhar por canteiros arborizados e colher as frutas da estação. Perdi as contas de quantas mangas – de diferentes tipos – colhi no final do ano nos trajetos a pé e de bike. Muitas vezes voltei com a cestinha e o baú da bicicleta recheados (e perfumados). As frutas e as aves são bons atrativos. Quero-queros, curicacas e corujas alegram o caminho.

Mas caminhar por Brasília também aguça o senso crítico. As crateras são comuns no caminho de pedestres e ciclistas. Nos trajetos diários passo por muitos locais esburacados e enlameados nesse período chuvoso. Costumo registrar solicitações na ouvidoria do GDF, mas o índice de atendimento é bem baixo (próximo de zero).

Muitas vezes sequer há calçada e o jeito é caminhar pela pista, dividir espaço com os motoristas. No setor médico-hospitalar, assim como em tantos outros cantos do Distrito federal, os caminhos de rato (tecnicamente chamados de linhas de desejo) estão bem demarcados no gramado.

Calçada destruída (W3 Norte) e caminhos de rato (Setor Médico-Hospitalar).

É nítido o contraste entre as pistas para o fluxo motorizado, que costumam passar por manutenção constante, e as calçadas desgastadas. Veículos e equipamentos para recapeamento das pistas são vistos com frequência, mas os reparos nas calçadas são raros.

Na 707 Norte, pista recapeada e calçada em completo abandono.

Há boas e honrosas exceções de calçadas acessíveis e gosto de passar em quadras como a 315 Norte para ver o movimento de pessoas que caminham tranquilamente, sem risco de tropeço em buracos ou desníveis. Por que não ter esse padrão de calçada acessível em todo o DF? Por que não priorizar e valorizar o pedestre? Com o valor de apenas um viaduto (o da EPIG tem custo de R$ 25 milhões)1, entre tantos viadutos em obras, certamente daria para construir e reformar muitas calçadas.

Calçada em ótimo estado na 315 Norte.

Temos boas leis para justificar as melhorias para quem caminha: Estatuto da Pessoa com Deficiência (lei federal e distrital), Plano Diretor de Transporte e Mobilidade e a Política Distrital de Incentivo à Mobilidade Ativa, entre outras normas. E ainda tem o Programa de Mobilidade Ativa, publicado pelo GDF em 2020, que tem, entre os objetivos, melhorar as infraestruturas para quem caminha e pedala. É preciso tirar do papel, com urgência, tantas normas e planos.

O governador Ibaneis Rocha foi reeleito e o secretário de mobilidade permanece no cargo. Espero que o alto escalão se convença da importância de caminhos seguros e acessíveis. Lembrei de uma ação bem bacana realizada em São Paulo (Sentindo nos Pés)2 que leva autoridades do governo a caminhar e vivenciar a cidade como pedestres. Quem sabe conseguimos levar o governador e secretários do governo para uma caminhada e, assim, ajudar no convencimento sobre a importância da acessibilidade.

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1 Texto com fotos sobre a EPIG:  https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/2021/07/22/carrocracia-viaduto-e-imobilidade-na-epig/

Carrocracia – viaduto e imobilidade na EPIG

2 Link do projeto Sentindo nos Pés, da ONG SampaPé: https://sampape.org/portfolio/sentindo-nos-pes/

VÍDEO

O vídeo mostra o desconforto de caminhar pela movimentada W3 Norte no período de chuvas.



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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