Brasilia Para Pessoas

27
agosto
Publicado por Brasília no dia 27 de agosto de 2020

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Nesta semana se celebra o Dia Nacional do Ciclista (19 de agosto), data importante para refletir sobre a mobilidade urbana e o importante papel da bicicleta. Será que estamos construindo cidades amigáveis para que as pessoas se desloquem sem carro? Em Brasília, o desafio é ainda maior em razão das vias expressas e da insistência num modelo de cidade que privilegia o automóvel e a fluidez, em detrimento dos modos ativos de transporte (por exemplo, bicicletas e patinetes) e da segurança no trânsito.

O Dia Nacional do Ciclista foi criado por lei e homenageia Pedro Davison, jovem estudante de biologia que pedalava no Eixão (via expressa que corta Brasília de norte a sul) e foi brutalmente assassinado por motorista em alta velocidade. Beth e Persio, pais de Pedro, se engajaram na ONG Rodas da Paz para lutar por mais respeito aos ciclistas.

Acredito na bicicleta como um veículo transformador, que pode melhorar muito a saúde (física e mental) do indivíduo e da cidade. Pedalo há muitos anos no dia a dia e a cidade tem grande potencial para impulsionar a mobilidade ativa, com relevo plano e caminhos arborizados. Nos percursos de bike me exercito sem precisar gastar tempo em academia (prefiro atividade ao ar livre), aprecio a natureza (gosto de tirar fotos dos pássaros e das árvores), não enfrento congestionamentos (cada vez mais frequentes com a frota crescente de carros) e ainda faço amizades (pelas ciclovias já conheci muita gente bacana).

Pessoas andando de bicicleta na rua

Descrição gerada automaticamente

Bicicleta em Brasília: possibilidade de se deslocar e apreciar a paisagem.

Mas é verdade que o Distrito Federal ainda carece de melhorias na infraestrutura para os ciclistas. Segundo dados da Secretaria de Mobilidade, são 554 km de ciclovias e ciclofaixas. Entre os problemas no caminho, o alto limite de velocidade e as travessias inseguras, a falta de conexão e de iluminação nas ciclovias. Vou aproveitar para comentar sobre um local que acompanho há muitos anos, símbolo da imobilidade e insegurança para pedestres e ciclistas.

– TTN (‘Terrível Trevo Norte’)

Uma imagem contendo estrada, ao ar livre, rua, placa

Descrição gerada automaticamente

A ponte do Bragueto, no final da Asa Norte, liga as regiões como Sobradinho, Planaltina e Lago Norte à área central de Brasília. Historicamente a ponte representa uma grande barreira para pedestres e ciclistas, em razão da falta de infraestrutura e do fluxo motorizado intenso e em alta velocidade. Às margens do lago Paranoá, a região passou por grande processo de mudança por conta do projeto TTN (Trevo de Triagem Norte).

Com custo de R$ 128 milhões (dados atuais veiculados em notícia do GDF), o Governo do Distrito Federal construiu novas pistas e viadutos voltados ao transporte motorizado. O objetivo era aliviar os congestionamentos. A contradição é óbvia (imagem acima): a placa informa ‘obra concluída’, mas apenas um trecho de ciclovia foi pavimentado, e há muito barro e tapumes no caminho. No vídeo (ao final do texto) pode-se ver o alto risco para pedestres e ciclistas.

Houve grande devastação e impermeabilização na construção das pistas (agora são sete em cada sentido) e dos vários viadutos. As novas pistas para os motoristas foram entregues em maio, em solenidade com a presença do governador. Mas a ciclovia continua na promessa, os riscos na travessia do Eixão continuam e não houve qualquer melhoria no transporte coletivo, como corredor exclusivo para os ônibus ou reforma dos pontos de embarque.

Imagens do TTN: devastação em agosto/2016 (à esquerda) e ciclista sem espaço na ponte em janeiro/2020 (à direita).

Será que um dia pedestres e ciclistas terão prioridade e espaços seguros e confortáveis, conforme prevê a legislação? Precisamos não só de ciclovias (conectadas, iluminadas e em bom estado), mas de um conjunto de medidas que humanizem e tornem a cidade mais agradável para percorrer sem carro. Com o debate acalorado e amplo sobre mobilidade, após a proposta de Zona Verde (estacionamento rotativo pago), o governo poderia rever os muitos projetos caros em andamento para construir mais túneis e viadutos em todo o DF. 

Fazendo um paralelo com os Titãs, a gente não quer só ciclovia, a gente quer redução da velocidade, respeito e travessias seguras. A gente não quer só ciclovias para lazer, a gente quer caminhos para qualquer parte do DF.

__________________________________

O TTN é um grande símbolo das políticas rodoviaristas de incentivo ao automóvel, que resultam em insegurança e não priorizam os modos coletivos e ativos de transporte. Em razão desse simbolismo, o blog possui seção própria com dados e imagens da região: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/norte-do-df-ttn/.

VÍDEOS:

O primeiro vídeo propõe reflexão sobre o Dia Nacional do Ciclista, com imagens recentes do TTN, grande símbolo de imobilidade e insegurança.

O segundo vídeo foi gravado na retomada das obras do TTN, quando a região foi devastada para a construção de mais pistas. O vídeo conta com a participação de crianças (meus moleques), que contam como seria um Eixão humanizado. 



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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