Brasilia Para Pessoas

31
dezembro
Publicado por Brasília no dia 31 de dezembro de 2020

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Estrada com carros

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Como de costume, faço um balanço das ações governamentais voltadas à mobilidade no Distrito Federal, com base nas observações e nas notícias. Houve boas surpresas, como a construção e reforma de calçadas e a abertura de mais uma via de lazer, mas o saldo é negativo em razão dos túneis e viadutos em construção ou previstos.  

A lógica rodoviarista com foco no automóvel ainda persiste com força: as ampliações de pistas, os túneis e viadutos anunciados pelo Governo do Distrito Federal (GDF) demonstram isso. As obras do Trevo de Triagem Norte (TTN) no final da Asa Norte foram concluídas este ano, com mais pistas e acessos para os motoristas. Mas os usuários do transporte coletivo foram esquecidos: o BRT e o terminal da Asa Norte não saíram do papel e os pontos de embarque continuam precários e sem informações sobre linhas e horários.

Pessoas em um parque

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Ponto de ônibus no Trevo de Triagem Norte, próximo à ponte do Bragueto.

O viaduto da EPIG (Estrada Parque Indústrias Gráficas), com o objetivo de escoar a grande frota motorizada do bairro Sudoeste por dentro do Parque da Cidade, está com a licitação em andamento e as obras do túnel de Taguatinga, com custo de R$ 275 milhões, foram iniciadas em agosto. E muitos outros viadutos foram anunciados pelo governo em todo o DF como se fossem a solução para a mobilidade. Entre as regiões contempladas, estão: Recanto das Emas, Sobradinho, Itapoã, Riacho Fundo e Jardim Botânico. A notícia da Agência Brasília deixa bem claro o objetivo dos projetos: ‘Cinco novos viadutos vão desafogar o trânsito no DF’.

Felizmente, bons projetos voltados para as pessoas enfim saíram do papel. Boa parte da W3 Sul foi revitalizada e as calçadas que margeiam o comércio (quadras 500) estão em ótimo estado. E desde 11 de junho a avenida passou a ficar aberta para o lazer aos domingos e feriados. É muito bom passear tranquilamente pela W3 Sul, ouvir os pássaros e ver famílias inteiras caminhando e pedalando. O Setor Hospitalar Sul foi reformado com apoio da iniciativa privada e agora as calçadas estão acessíveis. Outra boa notícia é o início da revitalização do Setor de Rádio e TV Sul, uma região tradicionalmente caótica – inacessível e com carros por todos os cantos, inclusive canteiros e calçadas.

Pessoas andando de bicicleta na rua

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W3 Sul do Lazer – tranquilidade aos domingos e feriados.

Setor Hospitalar Sul revitalizado.

Quanto à mobilidade por bicicleta, não há muito o que comemorar. Os dois sistemas compartilhados foram desativados no primeiro semestre. As bicicletas e patinetes da Yellow/Grow deixaram de circular em janeiro. E o sistema de bicicletas compartilhadas + Bike, mantido pela Secretaria de Mobilidade em parceria com a Serttel desde 2014, foi encerrado no final de março. Em novembro o GDF publicou edital para empresas interessadas em operar novo sistema de bicicletas e patinetes compartilhados, mas ainda não há previsão de funcionamento.   

Uma possibilidade de financiar o sistema de bicicletas compartilhadas consiste na utilização de recursos do estacionamento rotativo pago, a exemplo do que ocorre em Fortaleza (CE), onde por lei todo o recurso arrecadado com a Zona Azul deve ser investido em infraestrutura para os ciclistas. A proposta de estacionamento rotativo, chamada de Zona Verde, foi apresentada e debatida este ano. Com os devidos ajustes no projeto do GDF, seria possível disciplinar o uso das vagas públicas e garantir recursos importantes para a mobilidade ativa (confira texto e vídeo sobre a Zona Verde).

Gostaria ainda de destacar dois locais importantes de Brasília: a rodoviária e o Eixão. Há muitos anos o terminal de transporte na área central sofre com o descaso. Sujeira, insegurança, banheiros sujos, goteiras, escadas rolantes e elevadores desativados compõem o cenário desolador para as 700 mil pessoas que passam diariamente pela rodoviária do Plano Piloto. Duas ações civis públicas foram ajuizadas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) e pela Rede Urbanidade (grupo apoiado pelo Ministério Público – MPDFT) para exigir do governo condições dignas de acesso para pedestres e ciclistas, com escadas rolantes, elevadores e bicicletário em pleno funcionamento. Infelizmente, o ano termina com os velhos problemas na rodoviária (reportagem de 18 de novembro – Bom Dia DF).

Descaso na rodoviária do Plano Piloto: escadas rolantes e bicicletário desativados.

E no Eixão, via expressa que corta a cidade de norte a sul, a suposta revitalização se resumiu ao recapeamento total das pistas. As passagens subterrâneas continuam abandonadas e os pedestres ficam no dilema: arriscar-se a assalto por baixo ou atravessar entre os carros por cima. Na ‘revitalização’ também não houve qualquer melhoria para quem pedala. A reforma das tesourinhas, em andamento, seria uma grande oportunidade de viabilizar a travessia dos ciclistas, com ações como sinalização e redução da velocidade no caminho sob o Eixão.

Eixão: recapeamento das pistas e descaso com os pedestres.

É fundamental investir em segurança no trânsito, com atenção aos mais vulneráveis – pedestres e ciclistas. Os atropelamentos e mortes são frequentes no noticiário (a seção do blog sobre violência no trânsito reúne notícias) e em 2020 mais bicicletas brancas (ghost bikes) foram instaladas para homenagear os ciclistas mortos. As cidades de referência em mobilidade urbana, em particular algumas capitais europeias, reverteram há décadas o modelo voltado ao automóvel e hoje possuem ruas seguras, com muito menos carros, caminhos acessíveis e mais bicicletas e opções ao automóvel (ônibus modernos e linhas de VLT e metrô).

Tentei fazer uma breve análise das ações governamentais. Neste ano de pandemia, o transporte coletivo foi ainda mais abalado em razão do medo de contágio pelo Covid. E a mobilidade ativa esteve em alta (com venda aquecida de bicicletas) como opção ao ônibus e metrô lotados. Com uma frota automotiva que se aproxima de 2 milhões no DF, espero que os gestores públicos se convençam de que a solução para o caos nas ruas (congestionamentos, estresse e poluição) é investir num sistema integrado e seguro que priorize os modos coletivos e ativos de transporte, e desestimule o transporte individual motorizado.

Ótimo 2021, com muita saúde e energia para caminhar e pedalar pela sessentona Brasília!

_________________________

Em novembro reunimos propostas para aumentar a segurança no trânsito e incentivar a mobilidade ativa. São seis medidas que incluem redução da velocidade, educação no trânsito e conexão das ciclovias existentes. A sugestão foi apresentada ao GDF e os detalhes estão no blog: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/2020/11/18/propostas-para-a-mobilidade-ativa/

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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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