Brasilia Para Pessoas

12
fevereiro
Publicado por Brasília no dia 12 de fevereiro de 2021

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Uma imagem contendo ao ar livre, grama, edifício, pista

Descrição gerada automaticamente

Neste início de ano a travessia do Eixão continua desafiadora para pedestres e ciclistas. As passagens subterrâneas continuam em completo abandono: sujas, escuras, inacessíveis, com piso e revestimento destruídos e inseguras. Mau-cheiro e uso de drogas completam o cenário assustador. 

O contraste é grande entre as obras voltadas ao fluxo motorizado e as péssimas condições para quem caminha, pedala e atravessa para pegar ônibus. Em 2020, as pistas do Eixão foram totalmente recapeadas e as tesourinhas (passagens para os carros) começaram a ser reformadas. Por outro lado, pedestres e ciclistas ficam no dilema: arriscar-se por baixo, nas passagens inseguras e fedorentas, ou arriscar-se por cima, entre os carros em alta velocidade.

Pistas recapeadas e tesourinhas reformadas no Eixão.

Os números mostram que o risco é alto por baixo e por cima no Eixão: em 2019 e 2020, 43 pedestres e ciclistas foram feridos ou mortos por atropelamento1, 172 roubos e 33 furtos foram registrados nas passagens subterrâneas2.

Fizemos duas vistorias pela Rede Urbanidade – que reúne especialistas e ativistas da mobilidade, com apoio do Ministério Público (MPDFT) – nas passagens subterrâneas. No dia 27/1 à noite verificamos as passagens da Asa Norte e, no dia 30/1 de manhã, as passagens da Asa Sul. Além das vistorias recentes, um relatório técnico do Ministério Público (documento com 81 páginas, de 31/7/2020) apontou problemas na acessibilidade e na estrutura de apoio à mobilidade ativa, entre outros. O promotor Dênio Moura, coordenador da Rede Urbanidade, requisitou informações sobre o Eixão aos órgãos do Distrito Federal: Secretaria de Mobilidade, Departamento de Trânsito (Detran), Departamento de Estradas de Rodagem (DER), Polícia Civil e Polícia Militar.

Grupo de pessoas posando para foto com bicicleta

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Vistoria noturna nas passagens do Eixão (27/1/2021).

Vale lembrar que, no final de 2019, com apoio de outras pessoas e entidades, pressionamos o GDF para revitalizar as passagens subterrâneas. Na campanha Pedestre pede Passagem caminhamos por todas as passagens, conversamos e fizemos vídeos com pedestres e ciclistas no Eixão. Graças à pressão virtual, mais de 800 e-mails foram enviados ao governo cobrando melhorias na travessia. Ao final da campanha, registramos os resultados na ouvidoria do GDF e conversamos com a administradora do Plano Piloto.

Existem muitos estudos e propostas para melhorar a acessibilidade e a segurança de pedestres e ciclistas, como se observa em tópico abaixo. No entanto, as sugestões do próprio governo, do setor acadêmico e de especialistas ficaram só no papel.

– Asa Norte

Uma ponte de madeira

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

Escuridão no acesso à passagem subterrânea na Asa Norte.

A situação atual nas oito passagens da Asa Norte é de calamidade. Todas têm problemas como piso destruído, sujeira, escuridão e uso de drogas. No dia da vistoria, alguns trechos das passagens estavam no breu total. O medo parece ser unânime entre os pedestres. Muitas pessoas relatam só usar as passagens de dia e, mesmo assim, com muito receio de assalto e outros crimes. Aliás, nesta semana (10/2) foi noticiado um caso de roubo e estupro na passagem do final da Asa Norte, às 7h da manhã.

Passo pelo Eixão Norte com frequência e, para fazer a travessia de bicicleta e evitar as passagens subterrâneas, sigo pela tesourinha, ao lado dos carros. Nos percursos norte-sul pedalo pelo canteiro do Eixinho e costumo observar o movimento de pedestres. Noto que algumas mulheres atravessam correndo pelas passagens, com expressão de pavor. Outro problema grave, comum nos meses de chuva, é a inundação das passagens subterrâneas.

Piso destruído e vestígio de uso de drogas em passagens da Asa Norte.

No dia 18/1 conversei com algumas pessoas que atravessavam o Eixão. Gravei vídeo na passagem da 107 Norte e a Martinha expressou medo na travessia. Ela afirmou só ter entrado na passagem ao perceber que eu atravessaria por lá.  Ao final do vídeo, a frase de Martinha sintetiza a indignação: “A capital federal deveria ser exemplo, tudo bonitinho, para todo mundo vir aqui conhecer Brasília e passar referência para outros lugares de que aqui é bom.”

 – Asa Sul

Uma imagem contendo ao ar livre, edifício, tijolo, degrau

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Rampa inacessível, com alta declividade: padrão na Asa Sul.

As passagens da Asa Sul têm diferenças em relação às da Asa Norte. As mais nítidas são as rampas nas entradas e a possibilidade de travessia pelas estações de metrô. As rampas da Asa Norte têm inclinação suave e aparentemente adequada para cadeirantes, apesar do piso em péssimo estado. Nas passagens da Asa Sul a rampa íngreme impede o acesso de cadeirantes e dificulta bastante o acesso de ciclistas.

A travessia por cima também é comum na Asa Sul. Na altura do Hospital de Base e do Banco Central, o movimento de pedestres é intenso por baixo e por cima. O caminho dos pedestres está bem demarcado no canteiro do Eixinho. Assim como na Asa Norte, sujeira, mau-cheiro e uso de drogas são problemas comuns nas passagens da Asa Sul.   

Pessoas andando na calçada com grama

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Travessia de pedestres por cima na 102 Sul, próximo ao Hospital de Base.

Por outro lado, como ponto positivo, a Asa Sul possui as travessias nas estações de metrô: limpas, sinalizadas e acessíveis, com elevadores e escadas rolantes. Lojas, lanchonetes e órgãos públicos na parte subterrânea das estações impulsionam o fluxo de pessoas e aumentam a segurança. 

Piso em ótimas condições e elevador na estação 114 Sul do metrô.

Na vistoria do dia 30/1 percorremos de bicicleta os Eixinhos para alcançar as passagens. Chama atenção a falta de caminhos seguros e contínuos: faltam rampas e não existe calçada próximo às tesourinhas; não há ciclovia ao longo dos Eixinhos. O recapeamento das pistas e a reforma das tesourinhas não promoveram qualquer melhoria na mobilidade ativa.

– Estratégias de sobrevivência

Placa de sinalização na estrada

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Travessia por cima no Eixão

Os seres desprovidos de motor desenvolveram diferentes técnicas para se manterem vivos ao atravessar o Eixão. Além da clássica travessia por cima, entre os carros velozes, existe a travessia acompanhada: grupos se formam para encarar juntos a passagem e assim dar apoio moral e aumentar a segurança (tática usada especialmente entre as mulheres).

Desenho de uma loja

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

Em passagem do Eixão, cartaz sobre a travessia acompanhada.

A travessia pelas tesourinhas é muito utilizada por pedestres solitários, catadores de recicláveis e ciclistas, incluindo os que trabalham com entrega de comida. O espaço é estreito, mas tem a vantagem do movimento constante de motoristas (nas passagens, o movimento é bem reduzido em alguns horários, inclusive à noite).

Travessias pelas tesourinhas.

Entre as mulheres, além da travessia maratona (correr o mais rápido possível para alcançar o outro lado), outra tática é a travessia parcial: neste caso, a passagem é usada apenas no trecho sob o Eixão e a travessia nas extremidades é feita por cima, pelos Eixinhos. Assim se evita o efeito surpresa nos acessos em ‘L’ (não se consegue ver quem está do outro lado). Essa estratégia também é comum entre os que usam o transporte complementar (‘pirata’) e desembarcam no Eixão.   

Travessia parcial da passagem.

As estratégias mudam conforme o horário e o dia da semana. À noite, a travessia completa por cima (do Eixão e dos Eixinhos) predomina, em razão da escuridão e da presença de usuários de droga e de pessoas que pernoitam nas passagens. Aos domingos, com o Eixão do Lazer, a travessia por cima também predomina, mas o fluxo maior de carros nos Eixinhos prolonga o tempo de espera. E no final do Eixão Norte, próximo à ponte do Bragueto, a única alternativa é a travessia maratona: não existe qualquer local de travessia, apesar das obras de ‘mobilidade’ recentes do Trevo de Triagem Norte (TTN). 

Sufoco no final do Eixão Norte, próximo à ponte do Bragueto.

– Estudos e soluções possíveis

Já foram realizados estudos e apresentadas propostas para aumentar a segurança de pedestres e ciclistas no Eixão. O Estudo de Segurança de Pedestres no Eixo Rodoviário foi promovido pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER/DF). O relatório de 2007 possui muitos dados e sugestões. Na contagem foram mais de 80 mil travessias de pedestres por dia. Entre as sugestões estavam a construção de novas passagens, requalificação das passagens existentes, retificação dos acessos (para eliminar a virada em ‘L’ nas extremidades) e ciclovia ao longo do Eixão.

Em 2012 foi divulgado o resultado do Concurso Nacional de Arquitetura, realizado pelo Governo do Distrito Federal (GDF). O projeto vencedor propôs a remodelação das passagens, com uma sequência de platôs, cafés, pequeno comércio e ciclovia de 13,5 km ao longo das Asas Norte e Sul. Vale destacar ainda um projeto que recebeu menção honrosa ao propor a travessia em nível, com faixa de travessia e semáforos. Nesse projeto a ciclovia seria instalada no canteiro dos Eixinhos, sem interrupção.

Uma imagem contendo ao ar livre, grama, parque, andando de

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Projeto vencedor do Concurso Nacional de Arquitetura (2012). Equipe de arquitetos: Gustavo Partezani, Daniel Maeda, Diogo Esteves, Guilherme de Bivar, Ingrid Ori, Rafael Costa.

Pessoas andando na rua

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“Brasília é uma utopia construída que hoje paga seu preço. A lógica modernista que prioriza o transporte automotivo gerou uma cidade que impossibilita o trânsito de pedestres. É tempo de escolher entre continuar perseguindo utopias ou encarar a realidade de maneira objetiva.

As recorrentes melhorias nas passagens subterrâneas, embora válidas a curto prazo, são apenas uma solução paliativa. Devemos fazer uma reflexão profunda acerca do real problema. Trata-se da resolução de um problema de arquitetura, a travessia de pedestres, e não da tentativa de adaptar uma solução que, ao longo dos anos, visivelmente não se adequou ao cotidiano da cidade.”

Imagem e texto do projeto que recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Arquitetura (2012). Equipe de arquitetos: Anna Carolina Manfroi Galinatti, Ana Cristina Castagna, Gabriel Giambastiani, Mario Guidoux Gonzaga, Pablo Resende.

Sob orientação do professor Frederico de Holanda, da Universidade de Brasília (UnB), Eduarda Aun produziu simulações do Eixão com semáforos, faixas de travessia, banquinhos e árvores na parte central.

Rua com carros

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Simulação no Eixão – Eduarda Aun, sob orientação de Frederico de Holanda.

É interessante notar o grande potencial para a arte e música. Em meio à sujeira e à destruição, o grafite e a poesia resistem em muitas passagens subterrâneas, inclusive de artistas conhecidos, como Gurulino. O forró de vitrola é outra iniciativa interessante, que promove diversão gratuita no espaço público. 

Grafite e poesia nas passagens do Eixão.

– Proteção divina e Eixão humanizado

Diante de tamanho descaso com as milhares de pessoas que passam a pé e de bicicleta pelo Eixão, só resta apelar para a Nossa Senhora do Cerrado:

Nossa Senhora do Cerrado
Protetora dos pedestres
Que atravessam o eixão
Às seis horas da tarde
Fazei com que eu chegue são e salvo
Na casa da Noélia

Nicolas Behr

Dados estatísticos, fotos, vídeos, estudos e relatos não faltam para comprovar o estado de calamidade para pedestres e ciclistas na via expressa por excelência (14 km de extensão, sem semáforos e com carros a 80 km/h ou mais). O Eixão continua sendo um muro para os desprovidos de motor. Até quando?! Por que não um Eixão humanizado e seguro, em vez do Eixão da Morte?

Pessoas andando de bicicleta na rua

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Tranquilidade para percorrer o Eixão aos domingos.

Ainda sonho com um Eixão do Lazer permanente, não só aos domingos. Estudantes e trabalhadores poderiam seguir caminho livremente a pé, de bicicleta, patinete, skate ou no bonde elétrico que passaria na parte central, sem barulho e em velocidade compatível com a segurança de pedestres e ciclistas. O fluxo de carros e motos ficaria restrito aos Eixinhos. Quem sabe daqui a 50 ou 100 anos o sonho vire realidade. Uma pena não estar mais por aqui para desfrutar do Eixão humanizado.  

___________________________________

1 Ofício 67/2020 (16/12/2020) – Polícia Civil. Dados de jan./2019 a 11/12/2020.

2 Ofício 31/2020 (22/6/2020) – Polícia Civil. Dados de jan./2019 a maio/2020.

Um material em formato de apresentação, elaborado ao final da campanha Pedestre pede Passagem, reúne dados, imagens e propostas para humanizar o Eixão. O trabalho está disponível (clique para acessar).

– VÍDEOS:



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Irene Ana Paula Borba
Arquiteta e Urbanista. Mestre e Doutora em Transportes (UnB e UL - Lisboa). Professora do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Pesquisadora Colaboradora do Instituto Superior Técnico (IST - Lisboa). Pesquisadora Responsável pelo Grupo de Pesquisa PES Urbanos (Pesquisa em Espaços Sociais Urbanos) vinculado ao CNPq. A paixão por andar a pé existe desde sempre, mas se ampliou na academia (após a leitura de muitos teóricos como Jane Jacobs e Jan Gehl - seus maiores inspiradores) e após a finalização da tese de doutorado (em que estudou em profundidade o pedestre), decidiu aliar a teoria à prática. Tornou-se, coorganizadora do Jane's Walk em Brasília e colaboradora do Mobilize. E hoje é conhecida como Paulinha Pedestre.

Irene Uirá Lourenço
Servidor público e ambientalista. Usa bicicleta no dia a dia há 15 anos e, por opção, não tem carro. A família toda pedala, caminha e usa transporte coletivo. Tem como paixão e hobby a análise da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Com duas câmeras e o olhar sempre atento, registra a mobilidade em Brasília e nas cidades por onde passa. O acervo de imagens (fotos e vídeos), os artigos e estudos produzidos são divulgados e compartilhados com gestores públicos e técnicos, na busca de escapar do modelo rodoviarista atrasado e consolidar o modelo humano e saudável de cidade. Atualmente é voluntário do Bike Anjo, colaborador do Mobilize e coorganizador do Jane’s Walk em Brasília.
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